O Globo
É questão de coerência. Em 2022, ele
prometeu, caso eleito, não buscar outro mandato
Lula deve renunciar à intenção de ser candidato. Pelo bem do Brasil e de sua biografia. É questão de coerência. Em 2022, ele prometeu, caso eleito, não buscar outro mandato — seria o quarto. Foi quase uma troca: votem em mim pela última vez. Quem jamais o engoliu, a ele e ao PT, aceitou a permuta. Os eleitores independentes o ajudaram a despachar Jair Bolsonaro. Se, em 2018, a quantidade de votos brancos e nulos foi o equivalente a 8,8% do eleitorado no primeiro turno, em 2022, ano do escambo, mal chegou aos 4,4%, algo como 5,4 milhões de votos. Mas a abstenção superou os 20%. Lula ganhou com a diferença de míseros 2,1 milhões de votos — diferença perto de 1%. E prometeu em sua primeira manifestação:
— A partir de 1° de janeiro de 2023, vou
governar para 215 milhões de brasileiros e brasileiras, e não para só aqueles
que votaram em mim — afirmou.
No passo seguinte, esqueceu suas palavras
mandando às favas a frente democrática que o levara à vitória. O povo não esquece.
Ao longo do mandato Lula 3, ele jamais gozou de aprovação muito otimista; na
pesquisa Quaest da semana passada, 52% dos brasileiros torciam o nariz para sua
gestão.
Mesmo criando uma bolsa a cada crise de
popularidade, o truque não funcionou. Não à toa, Flávio
Bolsonaro está numericamente à frente dele no segundo turno. O
problema é o desgaste do modelo de gestão. O retrato de sua incompreensão ao
novo Brasil ficou demonstrado dias atrás na manifestação de motoboys e
motoristas por aplicativos contrários às propostas de regulamentação da
categoria. Alguns milhares de trabalhadores pararam ruas paulistanas em
protesto ao modo como o governo pretende editar legislação específica.
E não é de agora. O ministro do Trabalho,
Luiz Marinho, ameaça a categoria desde o início do governo com uma legislação
considerada obsoleta — chegou a falar em sindicalização dos trabalhadores.
Marinho opera na mentalidade getulista (estrutura herdada de Mussolini) de
aparelhamento de setores da sociedade. Na gênese do PT, está o movimento
sindical da década de 1970.
Os constantes e minguados índices de
aprovação ao governo — hoje em 43% — significam fastio da população com Lula e
seu jeito de governar, que embute um recado a quem deixou o segundo mandato com
cerca de 80% de ótimo/bom: o apoio se limitava à eleição de 2022 diante da
ameaça de golpe representada por Bolsonaro. Os números podem ser lidos ainda
como lembrança à promessa de um governo de frente ampla, que ficou na saudade,
e à falta de êxitos na administração. Em dois exemplos: as fraudes milionárias
no INSS sobre
os aposentados e pensionistas e a fila no mesmo INSS (em março eram 2,8 milhões
de brasileiros à espera de atendimento).
Caso renuncie, Lula já tem lugar na História
brasileira. Foi o único a vencer três eleições nas urnas. Conseguiu eleger e
reeleger Dilma
Rousseff, embora carregue com ela uma das piores recessões econômicas do
Brasil democrático (a da pandemia, sob Bolsonaro, foi excepcional). Teve
ousadia em aprofundar a ideia tucana de bolsas sociais, mesmo que construídas
sob iluminação populista e não estrutural, como desenharam anteriormente Vilmar
Faria e Dona Ruth Cardoso nos anos de FH. Seus dois primeiros mandatos se
beneficiaram de ventos favoráveis trazidos pelas commodities. E, no atual
governo, exibe números positivos na queda do desemprego e na inflação
(obrigado, Galípolo), apesar do escandaloso aumento da carga tributária — até o
momento em que escrevo, de 32,4%. Renunciando agora, Lula deixa o Brasil com o
maior volume de impostos da América Latina. PT!
Com sua afamada biografia — sempre saudada
pelo próprio —, Lula deveria retribuir ao país os ganhos obtidos em sua
trajetória. Não pode ser ingrato com o povo que o elegeu por três mandatos.
Erros seus e de seu partido, em mais de 14 anos no poder, resultaram na vitória
de Bolsonaro em 2018 e no surgimento de uma direita radical e raivosa. Seu
compromisso deveria ser não entregar o Brasil novamente à conflituosa família
Bolsonaro. Em seu partido existem nomes capazes de lhe suceder. São pessoas
jovens e mais modernas, não tão afeitas ao ideário petista de desenvolvimento,
obsoleto como o fio do telefone.
Mantendo-se aferrado à disputa, ele deveria
ter em mente o que ocorreu com o grande Winston Churchill. Depois de comandar o
Reino Unido na vitória contra os nazistas, viu-se mandado para casa na primeira
eleição depois do final da Segunda Guerra. Os britânicos reconheciam seu valor,
mas queriam renovação após tantos anos.

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