sexta-feira, 17 de abril de 2026

Revistas culturais, a falta que faz, por Ivan Alves Filho

As revistas culturais são, por vezes, a voz de um país. Nisso, se assemelham a algumas cantoras – e eu poderia citar aqui Cesária Évora, Dalva de Oliveira, Edith Piaf, Oum Kalthoum, Mercedes Sosa, Bessie Smith, Violeta Parra e Amália Rodrigues, que encarnam suas respectivas nações. A saber, pela ordem: Cabo Verde, Brasil, França, Egito, Argentina, Estados Unidos, Chile e Portugal.

Assim, como imaginar a França, por exemplo, sem a publicação L´Homme, fundada pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss? Ou a revista La Pensée, voltada para o racionalismo moderno? Mais: como pensar essa mesma França sem Les Temps Modernes, revista dirigida durante anos pelo casal Jean-Paul Sartre – Simone de Beauvoir? La Nouvelle Critique é outra estupenda publicação francesa, assim como Europe. A Magazine Littéraire, por seu turno, era de leitura obrigatória, com riquíssimas edições temáticas. E a Revue des Deux Mondes, fundada em 1829 e cuja versão eletrônica acompanho sempre, ainda cumpre uma bela função. E o como imaginar a Itália sem Rinascità, fundada por Palmiro Togliatti e que circulou entre 1944 e 1991? Ou Portugal sem a Revista Camões?

Vindo para mais perto do nosso continente, convém dar um destaque para a revista Plural. Dirigida por Octavio Paz, ela marcaria o México contemporâneo, a partir de 1971, circulando até 1976. Em seguida, Paz fundou a revista Vuelta, que desapareceria em 1998, no mesmo ano do seu falecimento. Ainda no México, país de grande tradição cultural, temos, desde 1999, a fundamental Letras Libres discutindo as grandes questões da modernidade cultural. Nos Estados Unidos, temos The New Yorker, que completou cem anos em 2025. A revista Pensamiento Critico representou uma janela libertária em Cuba. Da Argentina, podemos citar Cuardernos de Pasado y Presente, de José Aricó, e Sur, de Victoria Ocampo e ainda Punto de Vista, dirigida por Beatriz Sarlo, pensadora da Literatura falecida em 2024. Isso, sem esquecer a revista Los Libros, que contou com colaboradores como Ricardo Piglia, Héctor Schmucler e Carlos Altamirano. Circulando de 1969 – o ano do Cordobazo – a 1976 – o ano da implantação da ditadura militar – a publicação foi assim definida por Nicolás Rosa: “Se fue ennegreciendo el panorama político, y eso terminó en la dictadura. La revista, que estaba muy bien editada y era en colores, pasó a ser por problemas económicos en blanco y negro, como una metáfora de la vida política del país.” Uma publicação singular, já que produzida no exílio, foi Araucaria de Chile, dirigida por Volodia Teitelboim, circulando entre 1978 e 1990. Verdadeiro ponto de convergência para os intelectuais latino-americanos, possuía colaboradores como Eduardo Galeano, Julio Cortázar e Mario Benedetti. Prosseguindo, é impossível deixar de mencionar a revista peruana Amauta, criada por José Carlos Mariátegui, um dos maiores intelectuais latino-americanos de seu tempo e mesmo de todos os tempos. 

E do país andino vizinho caminhamos para o Brasil – e convém indicar que as primeiras revistas datam da época da nossa Independência. No início do século XX, pontificou a Revista do Brasil, criada por Monteiro Lobato em 1916, para alavancar o espírito de nacionalidade na Cultura. Posteriormente, apesar de sua curta duração, se destacariam a revista Klaxon (1923-1924) e a Revista de Antropofagia (1928), ambas ligadas ao Movimento Modernista. Tivemos, ainda, em diferentes épocas, a Illustração Brasileira, contando com uma equipe de colaboradores de altíssimo nível, a começar por Euclides da Cunha, Mário de Andrade e Manuel Bonfim. Nessa mesma linha de qualidade, nós citaremos Joaquim (1946 -1948, de Curitiba, sob a direção de Dalton Trevisan). Em 1958, começou a circular Estudos Sociais, de dois outros respeitados intelectuais, Astrojildo Pereira e Armênio Guedes, revista editada até 1964, quando é fechada pela ditadura militar. Isso, sem esquecer a Revista Brasiliense, de Caio Prado Júnior, e a Revista Civilização Brasileira –  depois Encontros com a Civilização Brasileira –, de Ênio Silveira e Moacyr Félix, referências obrigatórias nossas. A revista Módulo, de Oscar Niemeyer, também publicada em duas fases, representou um dos momentos culturais mais ricos do país, na segunda metade do século XX. O tempo de Brasília, da Bossa Nova, do Cinema Novo, do Teatro Opinião, dos grandes nomes da nossa Literatura também, como Dyonélio Machado, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa e Jorge Amado. Isso, sem esquecer a ensaística, com Celso Furtado, Guerreiro Ramos, Nelson Werneck Sodré, Alberto Passos Guimarães, Milton Santos, Caio Prado Júnior, Ariano Suassuna, Josué de Castro e Darcy Ribeiro. Importante ainda a revista Anhembi, coordenada por Paulo Duarte, e que circulou entre 1950 e 1962. A Tempo Brasileiro, editada durante décadas a fio pelo acadêmico Eduardo Portella, também merece um destaque. O mesmo podemos dizer da revista Vozes, sediada em Petrópolis, com uma pauta das mais interessantes. Em Porto Alegre, entre 1979 e 1984, circulou a Oitenta. A última publicação brasileira com esse perfil amplo foi a Política Democrática, coordenada por Francisco Inácio de Almeida, em Brasília, durante cerca de quinze anos, atingindo mais de 50 edições e contando com colaboradores da qualidade de Cristovam Buarque, Ferreira Gullar, Luiz Werneck Vianna e Zander Navarro. Algumas dessas publicações, como no caso da própria Revista de Antropofagia, circulavam junto aos jornais, o que aumentava consideravelmente seu alcance. Assim, é preciso dizer que alguns suplementos literários de jornais tiveram um valor imenso para a produção cultural brasileira, e poderíamos indicar o Suplemento Literário do Estadão, a cargo de Antonio Candido, do jornal O Estado de São Paulo; o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (1956 - 1961), editado por Mário Faustino e Ferreira Gullar, e o Suplemento Literário de Minas Gerais, criado por Murilo Rubião, em 1966. Os jornais Correio Paulistano e Correio da Manhã tiveram suplementos da melhor qualidade, onde colaboraram grandes nomes, a saber: Álvaro Lins, Otto Maria Carpeaux e Nelson Werneck Sodré. Hoje, eu apontaria o suplemento Pensar, do jornal Estado de Minas. No âmbito mais literário, o destaque vai para dois jornais do Paraná, respectivamente Rascunho e Cândido. E para uma revista, Cult, de São Paulo, fundada em 1997. Mesmo sob a ditadura militar brasileira, já nos anos 70 do século passado, proliferaram tantas publicações que um escritor do porte do paranaense Paulo Leminski chegou a declarar que “os maiores poetas dos anos 70 não eram gente, mas sim revistas”. Um bom estudo a respeito das publicações literárias no Brasil é o de Plínio Doyle, História das revistas e jornais literários, lançado em 1976 (volume 1). Suplementos Literários e Cadernos Culturais, de Isabel Mauad, é outra importante publicação. 

Muitos desses periódicos apontados acima não só complementam, mas, sobretudo, se antecipam aos assuntos tratados nos livros. Nesse sentido, revistas são, quase sempre, sinônimos de espaços de renovação do espírito crítico. Eu diria até que elas não se limitam a examinar a produção cultural, mergulhando, quase sempre, nas grandes e angustiantes questões que cercam a nossa existência. Daí a importância e também a permanência de muitas delas. Não existe a Literatura de um lado e a vida de outro, por exemplo. Talvez devido a isso, algumas dessas publicações tinham ou têm um caráter temático, estampando importantes dossiês, os quais eram ou são encarados sob os mais diversos ângulos, à maneira de um quadro cubista de Pablo Picasso.  

Todas essas revistas – e várias, infelizmente, desapareceram, o que só atesta a tremenda precariedade em que se encontravam mergulhadas – chegaram a atuar como uma espécie de termômetro da situação real da Cultura. E fazem falta, muita falta, na versão impressa ou eletrônica.

Seja como for, tendo a acreditar que o desaparecimento das revistas culturais, principalmente em países da América Latina, quase sempre revela a inexistência de um projeto de nação, apontando para um recuo considerável da atividade cultural. Pois é fato que perdemos o que denominamos por contra elite, ou aquela elite de matriz cultural interessada em contribuir para uma retomada, sob novas bases, do processo de inserção do país neste mundo que aí está. Por vezes chego a pensar que o Brasil todo, entre os anos 40 e 60, foi uma espécie de gigantesca Weimar de Goethe e Schiller, tamanha a força da sua Cultura. Com essa onda atual do "politicamente correto" e do populismo rastaquera, fica a nítida impressão de que estamos batendo no fundo do poço ou que a mediocridade reina.  

Nunca é demais constatar que o dinamismo de um país depende também do caráter de suas publicações culturais, um gênero que se enquadra entre as revistas de entretenimento e de informações gerais – voltadas para o chamado grande público – e as revistas universitárias – de interesse restrito aos especialistas, quase sempre.

Talvez por entender ainda, como poucos países da contemporaneidade, a importância dessas publicações que debatem a Cultura, em particular a chamada Alta Cultura, é que a França organiza, desde 1990, um salão originalíssimo. Isto é, o Salão da Revista, reunindo centenas de publicações e um público de dezenas de milhares de pessoas. Há de tudo, revistas dos mais diferentes horizontes. Publicações de editoras poderosas, como a revista da Gallimard, ou então de editoras de menor porte, divulgando revistas de corte mais artesanal, de tiragens até modestíssimas. Não importa, a rigor: as revistas culturais materializam a própria pluralidade das sociedades em que estão inseridas. Elas têm por função refletir essa realidade. Essa iniciativa francesa, que começou da forma mais simples possível, engloba hoje, inclusive, revistas de outros países, a exemplo de Israel, Canadá, Bélgica e Itália.

Dá até vontade de dizer: revistas culturais de todos os países, uni-vos! Talvez esta seja uma trilha a ser seguida, já que as revistas costumam ter um papel de peso na elaboração do conhecimento e na própria luta pela transformação social. Normalmente, antes de ganharem os livros, as ideias mais avançadas aparecem primeiro nas revistas e publicações culturais, volto a insistir. E eu arriscaria a dizer que a principal característica de muitas dessas publicações reside no fato de elas se tornarem verdadeiros pontos de encontro, a partir dos quais a intelectualidade debate os problemas de seus países. 

É, pelo menos, o que a História das ideias ensina para nós. Páginas de revistas costumam armazenar ou sintetizar países inteiros – e, consequentemente, momentos culturais de grande intensidade e criatividade.

*Ivan Alves Filho, historiador

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