‘Mestre Zu’, dirigido pelo cineasta Zelito Viana, tem sessão hoje em São Paulo, parte da programação do Festival É Tudo Verdade
Gabriel Zorzetto / O Estado de S. Paulo
Muitos colegas se referem a Zuenir Ventura como uma “unanimidade”. De fato, o jornalista de 94 anos, um dos mais relevantes do País, parece não ter defeitos, conforme mostra o novo documentário Mestre Zu. “É complicado fazer um filme sem antagonista”, diz o diretor Zelito Viana (de Avaeté – Semente da Vingança e Villa-Lobos: Uma Vida de Paixão), de 87 anos, que é irmão de Chico Anysio e pai do ator Marcos Palmeira. “Mas eu não quis que fosse algo chapa-branca.”
A película, com 70 minutos de duração, tem sessões de pré-estreia nesta semana em São Paulo, no É Tudo Verdade – o principal festival dedicado ao gênero na América Latina – e estreia comercial prevista para novembro. A obra retrata um homem ao mesmo tempo generoso e exigente, profundamente comprometido em interpretar e explicar o Brasil.
“Para Zuenir, o jornalismo nunca foi apenas
uma profissão, mas uma maneira de ser”, resume o cineasta cearense. Amigo do
jornalista há mais de seis décadas, assumiu o comando do projeto a convite de
Elisa Ventura, filha de Zuenir e idealizadora do filme.
A narrativa transcorre a partir de um
encontro na casa de Zelito, no Rio, onde jornalistas e amigos que conviveram
com Zuenir revisitam memórias e anedotas. Somam-se a isso depoimentos de nomes
como Cacá Diegues, Nelson Motta, Paulinho da Viola, Miriam Leitão e Heloísa
Teixeira, que expressam sua admiração pelo mestre no estilo “cabeças falantes”,
em que diferentes vozes se alternam para contar a trajetória do biografado.
OLHAR. Oriundo de uma família humilde de Minas Gerais, Zuenir queria ser padre, mas enveredou para o jornalismo após trabalhar como assistente de Carlos Lacerda no jornal Tribuna de Imprensa. Logo ele passou a ser redator e foi correspondente em Paris. A partir dali construiu carreira em veículos como Jornal do Brasil,
O Globo, IstoÉ e Veja, tornando-se referência
pelo olhar atento às transformações sociais do País e por incorporar recursos
literários no texto jornalístico, prática associada ao movimento New
Journalism, popularizado pelos americanos Gay Talese e Truman Capote.
Insaciável pela boa apuração, chegou a ser apelidado de “Vampiro” por sugar a
energia dos jovens jornalistas que o cercavam nas redações.
Seu livro 1968: O Ano Que Não Terminou detalha um dos anos mais intensos da história brasileira, analisado sob a ótica política e cultural. No livro reportagem, Zuenir reconstrói episódios decisivos, como a Passeata dos Cem Mil e a transgressão da peça Roda Viva, que colocaram uma geração de jovens de esquerda em confronto com o regime militar.
No campo do jornalismo literário, Zuenir também se destacou com Cidade Partida, vencedor do Prêmio Jabuti, em que investiga as raízes da violência no Rio, e com Chico Mendes: Crime e Castigo, fruto de reportagens premiadas sobre o assassinato do líder seringueiro.
O escritor, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2014, concedeu duas entrevistas ao documentário, mas sofreu um tombo e precisou interromper as colaborações por problemas de saúde. Mesmo assim, agora, em repouso absoluto após ser liberado de uma internação, já viu Mestre Zu duas vezes e, segundo a família, foi às lágrimas. •
Pré-estreia de ‘Mestre Zu’, de Zelito Viana
Instituto Moreira Salles Paulista. Av. Paulista, 2.424.
Hoje (17), às 16h.
Entrada gratuita

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