O Globo
Os ministros precisam olhar com mais cuidado
para as próprias ações e decisões com o objetivo de proteger a democracia
Quando o STF é atacado dentro do plano de um golpe de Estado é problema de todos e o país precisa se mobilizar em defesa do tribunal. Quando é atacado pelos erros de conduta de seus ministros, eles que se defendam sozinhos. Críticas ao Supremo podem ser um risco institucional, como vimos recentemente na estratégia usada pelo governo Bolsonaro. As dúvidas em relação à conduta dos ministros e seus familiares são legítimas e estamos vendo agora. No meio do caminho, há os oportunistas como Romeu Zema.
Não é ataque ao STF criticar o voto tortuoso
de Gilmar
Mendes para manter o sigilo de uma empresa familiar de Dias
Toffoli, revelar um contrato com pagamentos exorbitantes à mulher de Alexandre
de Moraes, mostrar o aumento súbito de clientes nos escritórios dos
parentes dos magistrados, questionar a relatoria de Dias Toffoli nas
investigações do Master.
O melhor remédio que apareceu até agora para
o Supremo é o projeto de um código de conduta defendido pelo presidente da
Corte, ministro Edson
Fachin. A proposta do ministro Flávio Dino é
boa, mas genérica e vaga em vários pontos. Ela se insere nesse contexto da
busca de limites éticos transparentes para ministros do Supremo, mas não
substitui a ideia de Fachin, que está sendo formulada pela ministra Cármen
Lúcia.
O ministro Gilmar Mendes, na entrevista ao
Jornal da Globo, sugeriu que a imprensa buscasse conexões do Banco Master na
Faria Lima e não na Praça dos Três Poderes. Há muitos outros endereços, todos
têm sido visitados pelos jornalistas. E como destacou Renata Lo Prete na
entrevista, o envolvimento de ministros do STF com Vorcaro não saiu da nossa
cabeça.
Há o endereço do governo do Distrito Federal,
que é de longe o caso mais concreto de corrupção de Daniel Vorcaro. Na Faria
Lima, há sim muitas conexões com o escândalo desde as instituições satélite do
Master até os fundos que ele manipulava em gestoras. E disso temos falado. Só
que as dúvidas chegaram também no Supremo.
Foi fundamental conhecer a informação sobre o
contrato com o escritório da advogada Viviane Barci, revelada por Malu Gaspar.
A mulher do ministro Alexandre de Moraes foi contratada com valores acima de
mercado. Ao explicar o trabalho que teve para honrar o contrato, o escritório
listou até assessoria em “compliance”. O Master não tinha regras de compliance.
O contrato deveria ter levado os ministros a repensar a atuação de seus
parentes, que teve uma liberação geral na decisão do próprio Supremo, em 2023.
Gilmar disse que a norma era confusa e mal escrita. Poderia ser aperfeiçoada
sem abrir os flancos que abriu.
O ex-governador Romeu Zema está tentando
aproveitar a erosão da imagem do Supremo para subir alguns pontinhos na sua
anêmica intenção de votos. Usa para isso caricaturas e linguagem de rede.
Evidentemente, Zema tem que ser contido dentro da lei, mas a reação foi mais
uma vez enviar o caso para o inquérito eterno das fake news.
A CPI do crime organizado foi enterrada pelo
seu próprio relatório. Em vez de mirar o crime organizado, que era o fato
determinado da investigação, pediu o indiciamento de três ministros e do
procurador-geral da República sem sustentação fática. Já o crime organizado foi
poupado. Nada recaiu sobre PCC, Comando Vermelho, milícia e seus defensores na
política. O próprio Congresso, contudo, tratou de derrotar o relatório tão
obviamente distorcido.
O código de conduta faz falta ao Supremo. Fez
muita falta, por exemplo, ao ministro Dias Toffoli. Ele achou natural viajar
com advogado de investigado e, em seguida, chamar a si o processo. Achou que
podia ignorar o fato de que a empresa da sua família fizera negócio com um dos
fundos ligados ao Banco Master. Com as revelações da imprensa e a pressão da
sociedade, ele se afastou da relatoria e se declarou impedido. Melhor para ele
e para o país.
A crise do STF tem repercussão para além da
vida pessoal dos magistrados. Se o Supremo se enfraquece, por problemas de
conduta dos ministros, o tribunal fica mais vulnerável a ataques oportunistas
de golpistas. E aí passa a ser um assunto de todos nós. Os ministros precisam
olhar com mais cuidado para as próprias ações e decisões com o objetivo de
proteger a democracia. É a democracia sempre que está em questão e que nos
orienta como andar por esse caminho espinhoso no qual o Brasil entrou desde
que, em 2018, colocou um golpista na presidência da República.

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