O Globo
Antes de defender nossas preferências
políticas, é preciso defender a democracia, num sentido pluralista
Na semana passada, o plenário do STF
considerou inconstitucional a lei catarinense que acabava com as cotas raciais
para as universidades no estado, por 10 votos a 0.
Segundo o Datafolha, 83% dos brasileiros apoiam cotas para as universidades na sua dimensão social (para quem cursou escola pública), mas, na dimensão racial, elas têm apoio minoritário (41%). Os críticos das cotas raciais argumentam — a meu ver, sem razão — que elas racializam uma sociedade mestiça e criam privilégios para uma elite negra. É um argumento que existe na sociedade e faz parte do debate público há muitos anos, sobre o qual a Assembleia Legislativa de Santa Catarina deliberou.
Partidos de esquerda e organizações negras
recorreram ao Supremo para derrubar a lei. O relator Gilmar Mendes estabeleceu
dois entendimentos. O primeiro é que a premissa da lei é inconstitucional — ela
se baseia no argumento de que as cotas raciais violam a isonomia, quando o STF
já estabeleceu que não violam. A decisão confunde o argumento político sobre a
conveniência das cotas enquanto política pública com o argumento jurídico sobre
se devem ser permitidas. O legislador não disse que as cotas raciais não são
legais, mas que politicamente não são adequadas.
Em seguida, Gilmar entendeu que o legislador
não apreciou detidamente os fatos (com audiências e estudos) antes de legislar
sobre matéria que pode restringir direitos. Se aceito como precedente, esse
raciocínio sujeitaria qualquer produção legislativa a controle judicial sobre a
qualidade do processo deliberativo. O próprio voto reconhece a fragilidade
desse raciocínio ao afirmar que se trata de “controle de resultado, não do
processo” — mas o que efetivamente faz é avaliar como o Legislativo deliberou: ritmo
de tramitação, ausência de audiências, falta de oitiva das instituições
afetadas.
A decisão desapareceu rápido em meio ao
noticiário da semana, mas não deveria. É grave que uma Corte constitucional,
com argumentos duvidosos, derrube uma lei instaurada por deputados eleitos pelo
povo. E a decisão tem efeito duradouro: torna praticamente irremovível uma
política pública controversa. O STF, que havia entendido antes que cotas podem
ser adotadas em vestibulares e concursos sem violar o princípio da isonomia,
agora decidiu que elas dificilmente poderão ser revogadas. Numa decisão, a
Corte passou do “pode” haver cotas para o “deve” haver cotas.
O STF pode alegar cumprir sua função
contramajoritária, defendendo direitos fundamentais contra maiorias, mas o que
de fato fez é transformar uma determinada política pública na forma compulsória
de defender esses direitos.
No livro “O povo contra a democracia”, Yascha
Mounk argumenta que o populismo autoritário é resultado da expansão do poder de
instituições não eleitas, como Cortes constitucionais, bancos centrais e
agências reguladoras, que restringem o espaço de expressão da soberania
popular. O populismo é, por essa leitura, uma reação radical ao encolhimento da
soberania. É difícil não pensar na tese de Mounk olhando para a decisão do STF.
É um pouco embaraçoso defender o direito da
direita de acabar com uma política pública que eu defendo. Já escrevi aqui na
coluna, noutras ocasiões, que considero as cotas raciais na universidade uma
política positiva e muito bem-sucedida. Mas a discussão aqui não diz respeito
ao mérito das cotas, mas ao direito da direita de exercer a soberania entregue
por meio do voto popular. Vivemos um momento em que é preciso, antes de
defender nossas preferências políticas, defender a democracia, num sentido
pluralista.
Em 1513, Nicolau Maquiavel publicou em versão
manuscrita “O príncipe”. A obra foi recebida com choque por sua tese
provocativa, mas também porque era obra de um conhecido militante republicano
que defendia ali uma saída monarquista para Florença e para a Itália. Há muitas
especulações sobre o que levou um republicano como Maquiavel a escrever “O
príncipe”, mas a explicação mais provável é que, antes de ser republicano, ele
era um nacionalista italiano que via com grande preocupação a vulnerabilidade
da península italiana às invasões de franceses, espanhóis e alemães. Para a
Itália se proteger, precisava ser unificada. E, se o melhor caminho para a
unificação era uma monarquia, que fosse. Primeiro italiano, depois republicano.
Nos tempos que correm, precisamos
hierarquizar nossos compromissos políticos — cada um de nós. Antes de sermos de
esquerda, de centro ou de direita, precisamos decidir se somos democratas. O
estado atual de coisas tem tirado a direita do jogo político, alimentando um
ciclo vicioso em que ela se radicaliza porque não tem espaço, e o establishment
fecha qualquer espaço a ela porque é radical. Quem deu início ao ciclo é uma
pergunta estéril. O importante é que esse ciclo nos conduz a dois desfechos:
uma democracia que se torna tão defensiva em relação à direita que já não pode
mais ser considerada democracia; ou uma ditadura.
Há apenas um caminho para romper esse ciclo:
abrir espaço para a direita — não para a direita que gostaríamos de ter, mas
para a direita que realmente existe — e, ao acomodá-la, arrancar dela um
compromisso inequívoco com a democracia. Não existe democracia digna do nome em
que a soberania expressa no voto de metade da cidadania é cassada pelo tribunal
constitucional.

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