O Estado de S. Paulo
Gilmar Mendes botou o bloco na rua para defender – não o STF – a bancada de que é líder no Supremo. Quer reafirmar quem governa o tribunal; e sobretudo socorrer o senador-togado Delegado Xandão, o que equivale a proteger o instrumento de que não podem prescindir – o inquérito xandônico das fake news.
Não será exagero depreender, do conjunto concentrado de entrevistas, que o problema do STF, segundo o decano, seria a presidência de Fachin, cuja campanha por código de ética alimentaria o vilipêndio à Corte. Sempre se chega a este mesmo lugar, o do 8 de janeiro permanente, em que, golpe à espreita, mesmo modestas tentativas de autocorreção sobre as práticas dos ministros serão ataques aos nossos salvadores.
A estratégia – por meio da qual Mendes e time
comunicam inexistir autoridade para investigá-los – consiste em investir na
pessoalidade, com uísques, charutos, contratos e sociedades, na hora de ser
político e empresário, e, quando cobrados acerca das relações estabelecidas,
sobrepor a impessoalidade. E então Moraes, Dias Toffoli, Nunes Marques etc.
tornam-se o próprio Supremo. E assim a apuração sobre a conduta do indivíduo
vira ataque à instituição, donde a reação via inquérito onipresente e infinito.
O bicho veio para ficar, faz sete anos – e
Mendes diz em “alto e bom som”: “Vai acabar quando terminar”, ativo pelo menos
até as eleições, dedicado à forja de delitos futuros, para punir aqueles
políticos, inclusive parlamentares no exercício de suas prerrogativas, que
decidirem pedir votos criticando (“perseguindo!”) ministros do Supremo,
recorrendo de repente à tradição satírica do discurso político no Brasil – esse
crime. O inquérito anunciado como foice sobre a cabeça da atividade
político-eleitoral; admitido por arma-ameaça na mão de juízes incapazes de
lidar com os reveses do debate público em que se meteram e em que interferem;
inquérito instrumentalizado como mecanismo autoritário de controle.
É em socorro a isso que Mendes se move e
expõe. Ele, intermediário, não tem respostas sobre as relações de Moraes com
Vorcaro. Moraes, agente, não pode responder sobre suas relações com Vorcaro.
Trata-se de grande diferença, a mesma que explica por que tem sido o decano a
apregoar um pacote de medidas – já o chama de pacto republicano – que, fechando
o Estreito de Ormuz investigativo, fulminará as possibilidades de que poderosos
de verdade sejam punidos neste país.
Não foi a imprensa que transformou o caso
Master em “um case” do STF. Não foi a imprensa que criou o contrato do banco
com o escritório Barci de Moraes. Não foi a imprensa que criou a mensagem em
que o dono do Master, no dia em que seria preso, perguntava a Moraes se
conseguira bloquear algo. Não foi a imprensa que criou a sociedade hoteleira
entre Toffoli e a rede vorcárica, tampouco tendo criado os meses em que, mesmo
assim, o ministro se manteve relator do caso Master.
Não será por obra da imprensa que as
investigações sobre o Master, caminhando em várias frentes, estejam bloqueadas
na porção relativa às tessituras vorcáricas com ministros do STF.

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