Valor Econômico
Na contagem regressiva para as eleições, num
cenário em que os índices de aprovação da gestão lulista não crescem na mesma
proporção que a angústia de petistas e aliados do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva (PT), ganha importância o debate sobre a real influência da avaliação
de governo no resultado das urnas.
Um grupo de cientistas políticos sustenta que um presidente com a aprovação de seu governo inferior a 45% não tem chance de se reeleger, enquanto outra parcela de especialistas enumera outros fatores que seriam decisivos para a vitória do candidato, como uma campanha bem-sucedida, e/ou o conjunto de erros e fragilidades do adversário.
O cientista político Nelson Rojas de
Carvalho, que analisa campanhas nacionais, estaduais e municipais há décadas,
pondera que o número de eleições presidenciais no Brasil, a partir da
redemocratização em 1988, não oferece uma amostra de casos suficientes para
estabelecer uma linha de corte apta a determinar a competitividade do
candidato. Ressalta, por exemplo, que esse período ainda contemplou dois
presidentes que não completaram o mandato, Dilma Rousseff e Fernando Collor.
“A avaliação de governo é um elemento
importante para a recondução do presidente, mas será o mais importante?”,
questionou Rojas, que é professor da Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro (UFRRJ).
Nos últimos meses, pesquisas têm revelado
índices de desaprovação maiores do que a aprovação do governo Lula. Pesquisa
Datafolha do começo de abril mostrou que 40% dos entrevistados classificaram o
governo como ruim ou péssimo (eram 37% em dezembro), enquanto (29%) o
consideram ótimo ou bom (eram 32% em dezembro), e 29% como regular (eram 30% em
dezembro), 2% não opinaram.
Em paralelo, levantamento da Quaest, também
divulgado no início de abril, mostrou que a taxa de reprovação é numericamente
a mais alta da série histórica: 52% desaprovam o governo, enquanto 43% aprovam.
Há um ano, 49% reprovavam a gestão lulista, e 48% a chancelavam.
Contudo, para Nelson Rojas, “o elemento da
avaliação de governo é superestimado”. Segundo ele, a história mostra que
candidatos mal avaliados conseguiram se eleger, muitas vezes, por erros ou
defeitos expostos do adversário. “É um dogma fraco”, criticou.
Um dos clássicos da ciência política, o livro
“Do Campaigns Matter?” (“As campanhas importam?”), do americano Thomas M.
Holbrook, questiona a premissa de que as eleições podem ser previsíveis a
partir da análise do comportamento eleitoral, que seria traduzido por variáveis
fundamentais, como o desempenho da economia e o índice de satisfação do
consumidor (ativo comum nas campanhas americanas).
Na obra que está completando 30 anos,
Holbrook partiu da análise de dezenas de disputas eleitorais nos Estados Unidos
e das mudanças da opinião pública para sustentar que as campanhas desempenham
papel crucial nos resultados eleitorais, em razão de fatores como a conjuntura
política e a economia. O autor cita comícios e debates como elementos aptos a
influenciar a opinião pública e direcionar o voto do eleitor.
Para Rojas, mesmo com uma avaliação de
governo regular, Lula poderia se beneficiar de uma oferta insatisfatória de
candidatos, na visão do eleitor, da fragmentação do campo adversário, e com as
desavenças no bolsonarismo, como as rusgas públicas entre os filhos de Jair
Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, e os embates da família com
o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), um dos cabos eleitorais mais influentes
desta campanha.
Rojas se alinha à tese, defendida por outros
analistas, de que esta campanha, assim como a de 2022, será uma disputa entre
rejeitados. Por isso, ele vislumbra um embate majoritariamente negativo, em que
os dois principais candidatos se empenharão em identificar e destacar os
defeitos um do outro.
Neste contexto, ele identifica em Lula
dificuldades com o seu “envelhecimento político”. Não em termos de idade, mas
de um cansaço do eleitor com a liderança política que está há muitas décadas em
atividade no país, inclusive revezando-se com aliados no poder. “O desgaste no
tempo deixa de gerar expectativa no eleitor”, advertiu. Para Rojas, Lula tem o
desafio de reposicionar sua imagem perante os brasileiros, e encontrar uma
mensagem com a qual possa transmitir esperança de um futuro melhor, após tantas
décadas no poder.
Em paralelo, Rojas vê como obstáculos para o
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que vem se consolidando como principal
oponente do petista na disputa, a inexperiência, o desafio de transmitir
credibilidade e segurança, sobretudo em face dos problemas que a gestão de seu
pai, Jair Bolsonaro, enfrentou, como a má condução da pandemia.
Master. Um dia após a
bilateral em Washington com o presidente Donald Trump, em que discutiram a
parceria contra o crime organizado, e a operação que atingiu o senador Ciro
Nogueira (PP-PI) no âmbito das investigações sobre o Banco Master, Lula tentará
capitalizar dados positivos de seu governo na segurança e no combate à
corrupção em discurso previsto na cerimônia de formatura de novos agentes da
Polícia Federal (PF).

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