Valor Econômico
Pesquisas qualitativas indicam que eleitores
querem ver Joaquim Barbosa com a capa de “herói antissistema”
No dia 8 de maio, o publicitário Adriano Gehres e o presidente do Democracia Cristã, o ex-deputado João Caldas (AL), levaram a Joaquim Barbosa o resultado de pesquisas qualitativas feitas em 11 capitais. Apresentados a vídeos com a trajetória do ex-ministro e submetidos a uma saraivada de perguntas, os participantes, egressos das classes C e B e de variados matizes ideológicos, lhe estenderam tapete vermelho. “Ele apareceu como o homem com coragem para enfrentar o sistema”, diz Gehres. Foi nesse momento que ambos ouviram, pela primeira vez, de Joaquim Barbosa, um aceite condicionado a estrutura de campanha.
João Caldas é um ex-deputado federal em três
legislaturas na Câmara que disputou - e perdeu - sua última eleição em 2014
para a Assembleia Legislativa de Alagoas. É pai de JHC (PL), ex-prefeito de
Maceió, e marido da senadora Eudócia Caldas (PSDB-AL). Foi do MDB e do PMN
antes de entrar no DC, que preside desde julho do ano passado, sucedendo a José
Maria Eymael. JHC hoje trava uma batalha contra o deputado Arthur Lira (PP-AL),
que dominou a máquina do PL local, e pretende ter o apoio do bolsonarismo para
sua postulação ao Senado. Para o pai, JHC não precisa de palanque presidencial
- “ sempre se elegeu sem carimbo”.
Gehres é um publicitário premiado, que
trabalhou com Duda Mendonça e João Santana, e tem portfólio pluripartidário.
Fez as campanhas de 2002 e 2006 do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a de
2008 do ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União), do então candidato a
Presidência em 2010, José Serra, e do ex-governador de Alagoas, Renan Filho
(MDB), hoje novamente em campanha para voltar ao cargo. Montou os grupos assim
que foi acionado por João Caldas para testar a candidatura.
A missão Caldas começou em março quando foi
procurado por amigos de Joaquim Barbosa. Até então, o pré-candidato do DC era o
ex-ministro Aldo Rebelo, que agora ameaça judicializar a convenção partidária
se não for o escolhido. Em 2 abril, a dois dias do prazo final, Caldas
conseguiu que o ex-ministro assinasse a ficha de filiação. A ausência de
bancada na Câmara, que lhe tira tempo de TV e fundo eleitoral não o inibe -
“[Fernando] Collor [de Mello] foi eleito pelo PRN e [Jair] Bolsonaro pelo PSL
com um vice [Hamilton Mourão] do PRTB”.
Em capitais como BH, Brasília e Curitiba e,
principalmente, no Rio, onde o eleitor está à beira do desespero, a
apresentação de Barbosa nos grupos é descrita como “devastadora”. Em São Paulo,
nem tanto. Para os eleitores de direita, aparece como aquele que colocou
poderosos na cadeia e, para a esquerda, é o ex-ministro que veio de baixo,
votou pelas cotas e pelo casamento homoafetivo. Para ambos os grupos, aparece
como o ministro de um tempo em que se admirava o Supremo Tribunal Federal. Tudo
isso no conjunto de eleitores com mais de 40 anos. Sobre os mais novos, paira o
desconhecimento. Barbosa deixou o STF há 12 anos.
Aqueles que se entusiasmam pelo ex-ministro
se indagam se ele, de fato, levará a candidatura à frente. Pesa no ceticismo o
fato de ter largado o STF com 15 anos de mandato pela frente e desistido de ser
candidato a presidente em 2018 depois de ter se filiado ao PSB para este fim.
Não é o único óbice. Os participantes dos grupos se entusiasmaram pelo nome de
fora do sistema, mas a capa de herói é a última fantasia que o ex-ministro, nas
conversas com o DC, se mostra disposto a vestir.
Acadêmico poliglota, admirador de François
Miterrand, estudioso da crise da democracia, Barbosa teria dificuldade em dar
vazão ao chamado de ser o salvador da pátria que fala a língua do povo, tal
como emergiu dos grupos. Tampouco se mostra disposto a fazer uma campanha
anti-Lula, em quem votou em 2022.
Os idealizadores de sua campanha têm em mãos
a trajetória de um ex-presidente do STF e do CNJ que tentou proibir a
participação de juízes em eventos patrocinados, a prática da advocacia de
parentes de ministros nos tribunais e sempre foi favorável ao estabelecimento
de um mandato no STF. Sabem, por outro lado, que não podem esperar um candidato
disposto a partir para cima do Supremo.
As previsíveis dificuldades de adaptar o
perfil do ministro ao figurino eleitoral afasta partidos consultados. Pelo
menos dois deles já receberam os resultados das pesquisas qualitativas,
Gilberto Kassab (PSD) e Marcos Pereira (Republicanos). O primeiro, partidário
da pré-candidatura do ex-governador Ronaldo Caiado, demonstra afeição sem
adesão. E o segundo, dificuldade de oferecer a um outro candidato à Presidência
uma legenda que tem como principal palanque de outubro a reeleição do
governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, aliado de Bolsonaro.
Aécio Neves, presidente do PSDB, frustrou-se
na tentativa de convencer Ciro Gomes, mas tem grande proximidade com togas incomodadas
pela postulação do ex-colega. Valdemar Costa Neto não foi consultado pelo DC,
mas a jornalistas disse que se tratava de uma “piada”. O presidente do PL foi
condenado e preso pelo Mensalão, julgamento presidido por Barbosa.
A Mônica Bergamo, o ex-ministro disse que só
sairia candidato com aliança partidária capaz de lhe proporcionar recursos de
campanha. Tudo isso parece muito distante de ser alcançado, mas Caldas parece
disposto a apostar: “Ele é o único que pode fazer uma operação sapólio na política.”

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