terça-feira, 19 de maio de 2026

A eleição de ponta-cabeça, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O ‘Dark Horse’ comprova que os Bolsonaro são o maior inimigo da direita nacional

Não se pode nem dar um pulo de duas semanas ali na França, porque a política dá mais uma de suas tantas cambalhotas e o ambiente que se encontra na volta é bastante diferente do que se deixou na ida. Há 15 dias, a candidatura do presidente Lula parecia moribunda, enquanto a de Flávio Bolsonaro estava cheia de energia. Hoje, Lula está muito vivo e ativo nas pautas eleitoreiras, enquanto Flávio se debate em meio à tempestade.

O tal áudio com o “irmão” (ou “mermão”) Daniel Vorcaro já seria uma pancada e tanto nas pretensões e nos índices de Flávio nas futuras pesquisas, mas o pedido de dinheiro ter sido justamente na véspera da prisão do então banqueiro, no valor estratosférico de R$ 134 milhões e com depósitos que chegaram a R$ 61 milhões, é de arrebentar.

Como pode o filme sobre papai Jair, Dark Horse, custar mais do que Ainda Estou Aqui e Agente Secreto juntos? A suspeita é óbvia: o filme foi só um pretexto para encher os cofres da campanha do filho 01 à Presidência e de outras conveniências da família, como a polêmica estadia do 03 nos EUA.

A divulgação do áudio pelo site Intercept Brasil teve repercussão mundial, inundou as redes sociais e veio num momento decisivo para Lula, que andava seriamente ameaçado por falta de estratégia, derrotas inéditas no Congresso, fragilidade nos palanques estaduais e, claro, a força do sobrenome Bolsonaro.

Lula se realinhou, o PT se mobilizou e o governo mandou às favas os pruridos e a responsabilidade fiscal em busca de votos. O que importa é vencer. Depois é depois. Se for para o quarto mandato, ele “dá um jeito”.

Como o ambiente interno, o internacional também sofre solavancos, inclusive nas Américas. A “nova direita” de Javier Milei, na Argentina, José Antonio Kast, no Chile, Rodrigo Paz, na Bolívia, e Daniel Noboa, no Equador, veio para ficar e se espalhar para todo o continente. Será? Com o brilho de sempre, Oliver Stuenkel diz que não no nosso Estadão.

Pairando sobre todos, Donald Trump perdeu o controle da ação intempestiva no Irã, mostrou falta de estratégia na visita a Xi Jinping e amarga os piores índices de aprovação neste mandato, segundo pesquisa do New York Times.

Assim como Bolsonaro impulsionou Wilson Witzel, Ibaneis Rocha, Romeu Zema e tantos deputados e senadores em 2018, o fator Trump empurrou a ascensão dessa “nova direita” com cara de Milei, à qual se somou o Paraguai de Santiago Peña, eleito antes, em 2023.

Se puxou para cima, Trump pode puxar tudo isso para o buraco, mas, no Brasil, está comprovado: os Bolsonaro são o maior inimigo da direita nacional.

 

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