Correio Braziliense
No momento em que o país enfrenta situações
como a infiltração do crime organizado nas estruturas do Estado, há
personalidades no Congresso Nacional dispostas a afrouxar mecanismos de
controle.
A Câmara dos Deputados volta a protagonizar um
espetáculo deprimente a menos de cinco meses das eleições. Em uma votação
relâmpago, a casa legislativa aprovou um projeto de lei que pode ser
considerado um tiro na Lei da Ficha Limpa e em outros dispositivos da legislação
para moralizar o processo eleitoral. Em votação célere e discreta, os deputados
aprovaram, na terça-feira, o Projeto de Lei 4.822/25, um compêndio de
"liberou geral" para os candidatos.
A proposta reúne um conjunto de medidas feitas sob medida para os partidos se lançarem à corrida eleitoral com uma série de garantias. Autoriza, por exemplo, o disparo em massa de mensagens por aplicativo, problema sobre o qual a Justiça Eleitoral já havia estabalecido restrições. O projeto de lei determina, ainda, um teto de no máximo R$ 30 mil para possíveis multas a serem aplicadas a legendas em caso de reprovação na prestação de contas. Pela regra atual, o partido é obrigado a devolver 20% do valor identificado como irregular.
As benesses envolvendo recursos públicos não
ficam por aí. A proposta de autoria do deputado Pedro Lucas (União-MA) e outros
parlamentares estabelece um prazo de 15 anos para os partidos renegociarem as
dívidas de campanha. Na ponta do lápis, significa dizer Suas Excelências e
líderes partidários poderão gastar fortunas de recursos públicos sem se
preocupar com sanções mais duras. Nunca é demais lembrar: o Fundo
Eleitoral para as eleições deste ano está na casa dos R$ 5 bilhões.
A toque de caixa
A aprovação do PL 4.822 não constitui um
acinte apenas pelo conteúdo, mas também pela forma. A proposta foi aprovada em
votação simbólica, sem voto nominal dos deputados, com adesão de partidos do
governo, da oposição e do Centrão. Teve o regime de urgência chancelado pelos
parlamentares também em votação expressa, dispensando o rito legislativo de
passar pelo crivo das comissões da Casa. No momento da votação, o presidente da
Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), não presidia a sessão. Das poucas
manifestações contrárias, houve protestos de deputados do Novo, do PSol e do
Missão.
PEC da Blindagem
O movimento protagonizado pela Câmara vai na
contramão de todo o esforço para tornar o processo eleitoral mais transparente.
No momento em que o país enfrenta situações graves, como a infiltração do crime
organizado nas estruturas do Estado, como acontece no Rio de Janeiro, há
personalidades no Congresso Nacional dispostas a afrouxar mecanismos de
controle. O Brasil assiste, perplexo, à magnitude de um escândalo de proporções do Master, em que o personagem
principal montou uma rede de relações não republicanas com expoentes da
República por meio de vantagens e transações financeiras milionárias. No
entanto, líderes partidários da Câmara e seus correligionários veem condições
para aprovar uma proposta que joga por terra qualquer escrúpulo com a
moralidade.
O vexame ocorrido esta semana remete a outro
episódio lamentável, urdido na Câmara em setembro do ano passado. Ainda está na
memória de muitos a famigerada PEC da Blindagem. Entre outros absurdos, o texto
estabelecia que parlamentares não poderiam ser processados criminalmente sem
autorização prévia da Casa Legislativa que representam. Felizmente, a proposta
foi sepultada ao chegar na Comissão de Constituição e Justiça do Senado
Federal.
Espera-se que esse seja o mesmo destino do PL da farra eleitoral.

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