quinta-feira, 21 de maio de 2026

Baixo nível de inteligência política, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Senador Flávio Bolsonaro afunda por culpa própria, mas não é o único a errar

Inteligência política parece ser um bem escasso em relação à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro. Ela nada tem a ver com moral ou ética – em boa medida, serve para escapar disso –, mas, sim, com a identificação exata de riscos e oportunidades.

O senador ungido pelo chefe do clã como candidato da franquia Bolsonaro achou que podia tocar uma campanha sem ser importunado pelo fato de que pediu dinheiro para o banqueiro no centro do maior escândalo da atualidade. Escondeu isso até de seu chefe de campanha, talvez temendo que a candidatura acabasse ali mesmo.

A própria escolha de Flávio já era claro sinal de baixo nível de inteligência política, pois, num duelo eleitoral de quem tem a roupa mais suja, ele já entrava com a vestimenta manchada – e antes mesmo de se saber que era “irmão” de Vorcaro. A insistência só se explica pela intenção de manter a franquia Bolsonaro circunscrita à família, pois só ela se acha “a direita”.

Ainda assim, revela-se de novo baixo nível de inteligência política, pois a candidatura foi sustentada exclusivamente em números de pesquisas. Esses números podem ser entendidos como títulos de renda variável: resultados de ontem não são garantia dos mesmos resultados amanhã. Os “investidores” seguiram pela mesma cilada e só agora começam a se esforçar para diversificar.

É perverso o estímulo aos operadores políticos para se deixar levar por números de pesquisas, e não pelo empenho em campanhas “orgânicas” e trabalho político “tradicional”. O que realmente interessa a eles é formar densas bancadas, daí o fato de apostarem apenas em puxadores de votos. Que pode ser Lula num lugar e Bolsonaro no outro, tanto faz.

Há evidências (nas pesquisas também) da existência de um grande potencial de votos fora do atual eixo de polarização. Mas esse potencial parece hoje elusivo e disperso não tanto pela calcificação das bolhas, que é um fenômeno real.

Até aqui, faltaram também a lideranças de direita um horizonte mais amplo e a disposição de romper a relação de dependência com a franquia Bolsonaro e explorar o enorme sentimento por verdadeiras mudanças (coisa que a franquia nunca entregou). É possível que uma ação política desse tipo prospere vagarosamente e não chegue ao segundo turno, a ser disputado pelo enfadonho e destrutivo eixo Lula-Bolsonaro.

Mas ela teria uma poderosa bandeira para o que vem depois. Os atuais campeões de rejeição – Lula e Flávio – são os que terão as piores condições de governabilidade e as menores condições de formar as necessárias alianças de opostos para enfrentar desafios formidáveis. O que faltará a ambos é confiança.

 

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