segunda-feira, 4 de maio de 2026

A esquerda ‘woke’ e o terror, por Denis Lerrer Rosenfield*

O Estado de S. Paulo

Não deixa de ser um paradoxo o fato de a luta antiocidental ser levada a cabo por uma coligação com uma ideologia ocidental, visando a subverter o capitalismo democrático e os seus valores

Um traço distintivo da teocracia iraniana reside não apenas em sua tentativa de restabelecimento de costumes pré-modernos que se considerariam ultrapassados, impostos contra os portadores de hábitos discordantes, mas em sua tentativa, digamos, modernizadora, de uma aliança com a esquerda, arvorando-se em defensora de uma bandeira anti-imperialista. Tal aliança já ocorreu quando da derrubada do xá do Irã até que os aiatolás decidiram eliminar essa mesma esquerda que os tinha apoiado. A esquerda, em particular laica e marxista, foi literalmente assassinada aos milhares, numa repressão cuja crueldade deixou claro que seriam os clérigos xiitas os líderes desse processo revolucionário.

No entanto, quando da aliança visando à derrubada do xá, incluindo liberais dizimados nesse mesmo processo, a bandeira política era a de uma luta anticolonial, que ganhou progressivamente contornos anti-imperialistas e antiocidentais. Intelectuais lançaram-se apressadamente na defesa da revolução iraniana, com destaque para Michel Foucault, que, em artigo no Le Monde, derramou-se em elogios à revolução, calando-se convenientemente sobre toda a repressão posterior. Alguns intelectuais ocidentais, assim, tornaramse cúmplices do próprio esmagamento da esquerda que diziam defender em seus países de origem.

A luta da esquerda contra a colonização em nome da autodeterminação dos povos ganha atualmente outro contorno, sob a forma da esquerda woke identitária.

Não se trata mais da esquerda, digamos, social daquele então, mas de uma esquerda que se posiciona a favor dos atos repressivos da nova elite clerical contra o seu próprio povo. A teocracia iraniana elimina com tiros nos olhos e órgãos genitais os que a criticam e se opõem a ela. Os mortos se contam em dezenas de milhares de pessoas e, no entanto, os gritos de liberdade não ecoam nesta nova esquerda. No caso de Israel, eles não deixam de ser hilários, pois criticam o projeto zionista colonialista, quando, em 1948, foi um projeto de esquerda para os trabalhistas israelenses que logo conquistaram o poder e, para a direita, de luta anticolonial contra os ingleses. A União Soviética, sob a liderança de Stalin, foi o primeiro país a reconhecer a existência do novo Estado. Seu armamento veio da antiga Checoslováquia.

Note-se que Khamenei, antes de se tornar imã, na década de 1960 do século passado, foi um leitor de intelectuais antiimperialistas como Frantz Fanon, inspirador e referência da esquerda woke, e da literatura terceiro-mundista da época num tipo de ótica intelectual que incluía pensadores isl a mist a santiocidentais . Exemplo disso foram suas leituras de intelectuais da Irmandade Muçulmana como Hasan al-Banna e Sayyid Qutb. Ora, a Irmandade Muçulmana, depois de ganhar eleições no Egito, começou sua operação de repressão e silenciamento das oposições, terminando por conduzir a um amplo levante popular que, sob a liderança militar, derrubou aquele regime. Obama, aliás, naquele então defendeu a irmandade. Hoje está proscrita no Egito, goza de pouca estima no mundo árabe, com exceção do Catar, aliado do Irã, apesar de ter sido por ele recentemente bombardeado.

Curiosamente, a irmandade desenvolve-se na Europa, em particular na França e no Reino Unido, lá conduzindo toda uma campanha dita anti-imperialista, em aliança com a esquerda decolonial. A aliança islamo-esquerdista na França é um exemplo disso. A esquerda woke, herdeira desse processo, ganha então um contorno nitidamente antiocidental, seu centro de irradiação sendo as universidades americanas, sede mesma do “imperialismo”, com apoio do “capital”. Amalgama, dessa maneira, luta anti-imperialista, anticolonial e decolonial, apesar de ser fruto do Ocidente, pregando por uma espécie de suicídio antiocidental.

Não deixa de ser um paradoxo o fato de a luta antiocidental ser levada a cabo por uma coligação com uma ideologia ocidental, visando a subverter o capitalismo democrático e os seus valores. A esquerda identitária chega mesmo a advogar por uma pauta de costumes como a igualdade das mulheres e a livre opção sexual de homens e mulheres entre outros princípios, ao mesmo tempo em que defende a teocracia. Enquanto homossexuais são valorizados no Ocidente, no Irã são enforcados. Nos protestos de 2025 e em sua feroz repressão, com dezenas de milhares de mortes, o desvencilhar-se do hijab, em atos de livre expressão das mulheres, foi considerado um “projeto estrangeiro”.

Politicamente, essa esquerda woke tornou-se um instrumento da teocracia iraniana e de seus êmulos como o Hamas e o Hezbollah, justificando o terror e sendo dele cúmplice. Subordinou-se a um nacionalismo islâmico, persa, constituído pela paixão religiosa em sua vertente xiita, pelo fervor ideológico e por um tipo de patriotismo daí resultante, tudo sob o domínio político dos clérigos e militar da guarda revolucionária. Triste fim para uma esquerda que se dizia universal e redentora da humanidade.

*Professor de Filosofia da Ufrgs

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