O Globo
O problema do endividamento excessivo é uma
consequência do aumento da oferta de crédito no país
Muitos pais já ouviram dos filhos, quando
diziam que aquele brinquedo, aquele tênis era muito caro:
— Mas aceita cartão.
No tempo em que se usava dinheiro vivo, ouvi
de uma senhora rica que não gostava de cheque, nem de cartão. Dizia:
—A gente compra, compra e parece que não
gastou nada.
Pois é, a gente sabe que não é assim, mas o
cartão de crédito dá aquela sensação de que depois se arranja o dinheiro. Ou se
joga a dívida mais para a frente.
Tem mais: a maravilhosa invenção do pagamento em dez vezes sem juros, no cartão. Ou mais. Outro dia, comprei um celular pagando em 24 vezes. Parece que tudo fica acessível. Sabemos que não é sem juros, nem de graça, mas com frequência a tentação fala mais alto.
Nos programas e cursos de educação
financeira, uma das demandas mais frequentes é justamente sobre a administração
dos cartões. Há casos de pessoas que, não conseguindo fugir da tentação,
simplesmente picotam seus cartões e prometem nunca mais usar. Ou, ok, vá lá,
não usar por seis meses ou até que todos os cartões estejam zerados.
O problema do endividamento excessivo é uma
consequência do aumento da oferta de crédito no país. Mas talvez fosse melhor
dizer que aumentou muito a oferta de cartão de crédito, fato paralelo à
bancarização — a inclusão de faixas de renda mais baixas no sistema bancário.
Preste atenção: em aplicativos, nos meios de comunicação são oferecidos
diversos tipos de cartão e de crédito. Hoje, são nada menos que seis cartões
por pessoa — incluindo crédito e débito. O leitor faça sua conta. A maioria se
surpreenderá. Ainda mais agora, quando não se usa mais dinheiro.
Mesmo pessoas com boa educação financeira se
atrapalham e acabam caindo no desastre de usar cheque especial para pagar o
saldo do cartão. E pessoas sem educação financeira, novatas no uso de cartões,
com frequência não percebem que o pagamento mínimo as joga no crédito rotativo,
com aqueles juros exorbitantes.
Os dados de hoje, depois do Desenrola 1, são
um bom demonstrativo: a maior inadimplência aparece no cartão rotativo. Também
é a que mais cresce. Depois vem o cheque especial. Em terceiro, longe, o
crédito pessoal não consignado. De outro lado, a inadimplência se concentra na
faixa de um a três salários mínimos. E grande parte dos devedores fica
inadimplente na dívida renegociada.
Esse deve ser o público do Desenrola 2 e,
provavelmente, do Desenrola 3. Isso mesmo. Há um estímulo à tomada de crédito
na medida em que se coloca no horizonte a possibilidade de renegociação. Como
acontece com a longa série de Refis — programas de refinanciamento para
empresas. Há também um estímulo ao aumento de juros por parte dos bancos e
financeiras. Até porque não há estímulo ao bom pagador. Estes deveriam pagar
taxas de juros menores em todo tipo de crédito.
Em resumo: o Desenrola 2 alivia a vida dos
devedores, mas não resolve o problema da inadimplência. Para isso, seria
preciso adotar medidas de tal modo que o devedor só pudesse voltar a tomar
crédito depois de ter zerado sua dívida negociada. Não é isso que tem
acontecido. A renegociação parece ser um caminho para a pessoa voltar ao
mercado. Que é, como dissemos, uma feira de ofertas de cartões.
Vai pelo mesmo caminho a anistia parcial que
o Conselho Nacional de Trânsito concedeu a motoristas que não pagaram o pedágio
no novo sistema free flow. Nada menos que 3,4 milhões de multas foram
suspensas. E serão depois canceladas se o motorista pagar os pedágios
atrasados. O governo alega que não se trata de bondade eleitoral, mas de
reparação. Diz que o sistema é novo, com falhas no funcionamento e mal
comunicado. Mas e os milhões que pagaram certinho? A anistia parcial sugere que
outras poderão ser aplicadas. É, pois, estímulo negativo.
Em anos eleitorais, os governos costumam
abusar das bondades. O governo federal está aumentando gastos, colocando
dinheiro na economia, na expectativa de que se transforme em votos. O saldo
devedor? Depois se vê.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.