domingo, 31 de maio de 2026

A recriação ultraprocessada do mundo, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

A modelagem teológico-mercantil do banal consumo cotidiano, grotescos que sejam os seus aspectos, é um primeiro passo corrosivo

Claro já estava que, na pátria celestina dos crentes, o paraíso celestial tinha dado lugar ao paraíso fiscal dos pastores

A mercantilização da existência em bases neoliberais, a forma-empresa, não se dá apenas nos níveis da economia, da inteligência artificial e da política, também na administração de crenças religiosas. Talvez a maior ameaça à mística de um todo-poderoso esteja na IA-2028 anunciada pela Anthropic que, suplantando a inteligência humana, poderá curar doenças terríveis, senão mandar paralítico levantar-se da cadeira. Mas a modelagem teológico-mercantil do banal consumo cotidiano, grotescos que sejam os seus aspectos, é um primeiro passo corrosivo.

Pelo menos é o que se mostra na imprensa pela lancheria Cachorro Crente, ao lado da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, no bairro carioca da Penha. Saudado pelos atendentes com "paz do Senhor", o cliente faz uma imersão em música gospel, em meio a hot-dogs, batatas fritas e refrigerantes. Viralizado nas redes sociais, o modelo se espalha. Pizza Pentecostal é oferecida em São Paulo, pelo Louvorzão do Império: "Em apenas três meses, o Senhor nos ensinou tudo o que precisávamos aprender", dizem os proprietários. Em Cascavel (Paraná), come-se X-Coluna de Fogo e X-Unção Dobrada. Na brasiliense Sal e Luz Hamburgueria, o carro-chefe é o João 3:16, um pão de cruz.

O relato jornalístico é de se ler de boca aberta, não de apetite, mas de tão desarmada que fica a alma simples com a mutação religiosa. Os epígonos de Max Weber tenderiam a identificar um tipo de resposta à questão weberiana sobre como religião influencia as ações sociais. É ver alto demais: o sociólogo pensou em transformação histórica profunda, caso da influência da ética protestante na formação do capitalismo. Na matéria em pauta, impõe-se Émile Dürkheim, que, mesmo vendo religião como fato social, preocupou-se com a separação entre o sagrado e o profano.

Trata-se agora de fenômeno específico do pós-modernismo pentecostal, o pós-culto, uma modalidade do tribalismo ou sociabilidade de iguais, estudado, aliás, por sociólogos franceses. Teologicamente, conta com a aprovação do singular pastor Malafaia, que justifica "assim como várias empresas apresentam coisas para gays, como lojas, viagens e hotéis". Nessa inflexão pentecostal o profano redefine a crença. A justificativa do gótico pastor ilustra como religião tornou-se estilo de vida, um "look" pautado pelo comércio para "gays, lojas, viagens e hotéis".

Claro já estava que, na pátria celestina dos crentes, o paraíso celestial tinha dado lugar ao paraíso fiscal dos pastores. Nem sempre com divino consentimento, pois o Cedemais, banco do bispo Macedo, já entrou na rota Master do inferno astral: rombo de R$ 8 bilhões. Haja dízimo de Fundo Garantidor de Crédito. Mas, no pós-cult gastronômico, transparece com obscena clareza que espiritualidade neoliberal se resume a oferta e demanda. O Senhor pentecostal, Deus barra-pesada de Davi, é ultrapassado por Mamom, suprema entidade bíblica do dinheiro.

Existe, sim, uma dieta bíblica (leite cru, sardinha, pão fermentado). Nada a ver com invenção de fast-food por um master-chef supremo. Mas o neoliberalismo não negocia em seu projeto de recriação ultraprocessada do mundo.

 *Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”

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