Folha de S. Paulo
A modelagem teológico-mercantil do banal
consumo cotidiano, grotescos que sejam os seus aspectos, é um primeiro passo
corrosivo
Claro já estava que, na pátria celestina dos
crentes, o paraíso celestial tinha dado lugar ao paraíso fiscal dos pastores
A mercantilização da existência em bases neoliberais, a forma-empresa, não se dá apenas nos níveis da economia, da inteligência artificial e da política, também na administração de crenças religiosas. Talvez a maior ameaça à mística de um todo-poderoso esteja na IA-2028 anunciada pela Anthropic que, suplantando a inteligência humana, poderá curar doenças terríveis, senão mandar paralítico levantar-se da cadeira. Mas a modelagem teológico-mercantil do banal consumo cotidiano, grotescos que sejam os seus aspectos, é um primeiro passo corrosivo.
Pelo menos é o que se mostra na imprensa pela
lancheria Cachorro Crente, ao lado da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, no
bairro carioca da Penha. Saudado pelos atendentes com "paz do
Senhor", o cliente faz uma imersão em música gospel, em meio a hot-dogs,
batatas fritas e refrigerantes. Viralizado nas redes sociais, o modelo se
espalha. Pizza Pentecostal é oferecida em São Paulo, pelo Louvorzão do Império:
"Em apenas três meses, o Senhor nos ensinou tudo o que precisávamos
aprender", dizem os proprietários. Em Cascavel (Paraná), come-se X-Coluna
de Fogo e X-Unção Dobrada. Na brasiliense Sal e Luz Hamburgueria, o carro-chefe
é o João 3:16, um pão de cruz.
O relato jornalístico é de se ler de boca
aberta, não de apetite, mas de tão desarmada que fica a alma simples com a
mutação religiosa. Os epígonos de Max Weber tenderiam a identificar um tipo de
resposta à questão weberiana sobre como religião influencia as ações sociais. É
ver alto demais: o sociólogo pensou em transformação histórica profunda, caso
da influência da ética protestante na formação do capitalismo. Na matéria em
pauta, impõe-se Émile Dürkheim, que, mesmo vendo religião como fato social,
preocupou-se com a separação entre o sagrado e o profano.
Trata-se agora de fenômeno específico
do pós-modernismo
pentecostal, o pós-culto, uma modalidade do tribalismo ou sociabilidade
de iguais, estudado, aliás, por sociólogos franceses. Teologicamente, conta com
a aprovação do singular pastor Malafaia, que justifica "assim como várias
empresas apresentam coisas para gays, como lojas, viagens e hotéis". Nessa
inflexão pentecostal o profano redefine a crença. A justificativa do gótico
pastor ilustra como religião tornou-se estilo de vida, um "look"
pautado pelo comércio para "gays, lojas, viagens e hotéis".
Claro já estava que, na pátria celestina dos
crentes, o paraíso celestial tinha dado lugar ao paraíso fiscal dos pastores.
Nem sempre com divino consentimento, pois o Cedemais, banco do bispo Macedo, já
entrou na rota Master do inferno astral: rombo de R$ 8 bilhões. Haja dízimo de
Fundo Garantidor de Crédito. Mas, no pós-cult gastronômico, transparece com
obscena clareza que espiritualidade neoliberal se resume a oferta e demanda. O
Senhor pentecostal, Deus barra-pesada de Davi, é ultrapassado por Mamom,
suprema entidade bíblica do dinheiro.
Existe, sim, uma dieta bíblica (leite cru,
sardinha, pão fermentado). Nada a ver com invenção de fast-food por um
master-chef supremo. Mas o neoliberalismo não negocia em seu projeto de
recriação ultraprocessada do mundo.

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