O Globo
Bloquear a classificação do PCC e do CV como
organizações terroristas terá custo eleitoral para Lula
O governo brasileiro avalia que a visita a
Donald Trump pode reverter a maré baixa de popularidade de Lula e que o
encontro entre os dois hoje tem potencial para alterar o marasmo de quem ainda
não se emocionou com Desenrolas, isenção de Imposto de Renda e afins. A
comitiva presidencial poderá bater o bumbo se atingir dois objetivos: dissuadir
os americanos de classificar as facções brasileiras como organizações
terroristas e, de lambuja, ampliar a cooperação entre os dois países na área de
segurança, principalmente no combate à lavagem de dinheiro e ao tráfico de
armas.
É claro que anúncios envolvendo terras-raras, data centers, big techs e a Seção 301 —trecho da legislação usado pelos americanos para reclamar do Pix ao comércio paulistano da Rua 25 de Março — são relevantes. Mas, do ponto de vista político, voltar para casa com uma vitória na área de segurança é o melhor dos mundos para o Planalto — e ainda teria um gostinho especial, já que o maior adversário de Lula hoje, o senador Flávio Bolsonaro, embarcou numa viagem para os Estados Unidos na mesma semana.
O combo da vitória, porém, também implica
contratar um problema. Bloquear a classificação do PCC e do CV
como organizações terroristas terá custo eleitoral para Lula. O governo tem de
fazer o que é correto, e o correto é lutar contra essa classificação. Mas é
inegável que, do ponto de vista eleitoral, a tendência é de prejuízo para a
campanha petista. Os adversários do presidente já colocaram na praça o discurso
contra o governo, caso Trump engavete a ideia formulada pelo Departamento de
Estado, órgão americano mais suscetível à influência da oposição brasileira.
Lula será rotulado como candidato amigo do PCC e do CV, que foi até os Estados
Unidos para proteger as facções criminosas de sanções. Uma bomba para quem já
tem dificuldade com o tema da criminalidade.
O governo pode apresentar PEC da Segurança,
Projeto Antimáfia ou qualquer outra coisa. Não adianta: o eleitor avalia mal
Lula nessa área, e seus principais adversários, Flávio Bolsonaro e Ronaldo
Caiado, se preparam para surfar nessa onda. Pesquisa Quaest do fim do ano
passado mostrou que 73% dos brasileiros querem que facções criminosas sejam
classificadas como terroristas. O Planalto tentará usar como remédio o
supertrunfo da soberania. Funcionou no ano passado, mas talvez esteja com a
validade vencida até a eleição.
O impacto eleitoral negativo não significa,
de maneira nenhuma, que o governo deva recuar de fazer o certo. A classificação
dessas facções criminosas como terroristas seria péssima para o país, tanto do
ponto de vista econômico, com sanções para investimentos, como do político, ao
abrir espaço para um discurso intervencionista. A questão é levantar esse tema
agora, apostando no bônus eleitoral.
Se tudo der certo, o governo poderá dizer que
bateu um bolão. Mas Trump é Trump, e a imprevisibilidade é lei na Casa Branca.
Os episódios de humilhação do ucraniano Volodymyr
Zelensky e do sul-africano Cyril Ramaphosa no Salão Oval estão aí para
nos lembrar que tudo pode acontecer.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.