quinta-feira, 7 de maio de 2026

Armadilha na visita a Trump, por Julia Duailibi

O Globo

Bloquear a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas terá custo eleitoral para Lula

O governo brasileiro avalia que a visita a Donald Trump pode reverter a maré baixa de popularidade de Lula e que o encontro entre os dois hoje tem potencial para alterar o marasmo de quem ainda não se emocionou com Desenrolas, isenção de Imposto de Renda e afins. A comitiva presidencial poderá bater o bumbo se atingir dois objetivos: dissuadir os americanos de classificar as facções brasileiras como organizações terroristas e, de lambuja, ampliar a cooperação entre os dois países na área de segurança, principalmente no combate à lavagem de dinheiro e ao tráfico de armas.

É claro que anúncios envolvendo terras-raras, data centers, big techs e a Seção 301 —trecho da legislação usado pelos americanos para reclamar do Pix ao comércio paulistano da Rua 25 de Março — são relevantes. Mas, do ponto de vista político, voltar para casa com uma vitória na área de segurança é o melhor dos mundos para o Planalto — e ainda teria um gostinho especial, já que o maior adversário de Lula hoje, o senador Flávio Bolsonaro, embarcou numa viagem para os Estados Unidos na mesma semana.

O combo da vitória, porém, também implica contratar um problema. Bloquear a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas terá custo eleitoral para Lula. O governo tem de fazer o que é correto, e o correto é lutar contra essa classificação. Mas é inegável que, do ponto de vista eleitoral, a tendência é de prejuízo para a campanha petista. Os adversários do presidente já colocaram na praça o discurso contra o governo, caso Trump engavete a ideia formulada pelo Departamento de Estado, órgão americano mais suscetível à influência da oposição brasileira. Lula será rotulado como candidato amigo do PCC e do CV, que foi até os Estados Unidos para proteger as facções criminosas de sanções. Uma bomba para quem já tem dificuldade com o tema da criminalidade.

O governo pode apresentar PEC da Segurança, Projeto Antimáfia ou qualquer outra coisa. Não adianta: o eleitor avalia mal Lula nessa área, e seus principais adversários, Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado, se preparam para surfar nessa onda. Pesquisa Quaest do fim do ano passado mostrou que 73% dos brasileiros querem que facções criminosas sejam classificadas como terroristas. O Planalto tentará usar como remédio o supertrunfo da soberania. Funcionou no ano passado, mas talvez esteja com a validade vencida até a eleição.

O impacto eleitoral negativo não significa, de maneira nenhuma, que o governo deva recuar de fazer o certo. A classificação dessas facções criminosas como terroristas seria péssima para o país, tanto do ponto de vista econômico, com sanções para investimentos, como do político, ao abrir espaço para um discurso intervencionista. A questão é levantar esse tema agora, apostando no bônus eleitoral.

Se tudo der certo, o governo poderá dizer que bateu um bolão. Mas Trump é Trump, e a imprevisibilidade é lei na Casa Branca. Os episódios de humilhação do ucraniano Volodymyr Zelensky e do sul-africano Cyril Ramaphosa no Salão Oval estão aí para nos lembrar que tudo pode acontecer.

 

Nenhum comentário: