“O trabalhador vai ter que escolher: menos direitos e emprego ou todos os direitos e desemprego” – capitão Jair Bolsonaro, ex-presidente do Brasil, em discurso na Câmara dos Deputados
É notável, tanto quanto desprezível, o esforço do pensamento conservador brasileiro militando contra a economia nacional e, principalmente, contra qualquer sorte de progresso social. Tudo o que, mesmo remotamente, possa sugerir melhoria das condições de vida das grandes massas é bloqueado por essa corrente retrógada. Ora se diz que a iniciativa é muito cara (por exemplo, a escola pública e o ensino em tempo integral, ou o saneamento básico), ora se diz que é inflacionária — falácia de que foram acusadas, na sua origem, a introdução das férias anuais, lá atrás, e o 13º salário, em 1962, por iniciativa congressual, em lei sancionada pelo presidente João Goulart.
Os dados brandidos contra essas conquistas
sociais revelaram-se meras aleivosias desmentidas pela história. No entanto,
seguem sendo arguidas por economistas formados pela tradição deixada por
Eugênio Gudin na FGV, ou pela cartilha do monetarismo da Escola de Chicago,
envelhecida pelo curso das transformações — agudas e profundas, em alguns
aspectos talvez revolucionárias — que vêm moldando o mundo contemporâneo.
Fenômeno óbvio, do qual, todavia, não se dá conta a direita brasileira.
Nessa linha de apego ao atraso, ao não
desenvolvimento, a direita brasileira — esta que, nos EUA, peleja contra
nossos interesses, em contradição com suas matrizes históricas, como o
fascismo, que tinha preocupações nacionalistas — combateu sempre o progresso,
em quaisquer de suas dimensões. No plano político-econômico, bateu-se contra a
autonomia brasileira na lavra do petróleo: fez de tudo para impedir o monopólio
estatal e até hoje torce o nariz para a Petrobras.
No plano social, combateu a instituição do
salário-mínimo e seus reajustes, acusando-o de inflacionário, como, nestes
dias, reage contra a revisão da obsoleta escala 6x1, cuja extinção só pode
ser recebida como promessa de avanço, em face da mediocridade de nossas classes
dominantes, que impõem o atraso social.
A propósito, veículos como o Financial
Times e The Economist, insuspeitos de esquerdismo, consideram
limitado e atrasado nosso debate sobre o fim da escala 6x1: hoje, a Europa —
que não rasga dinheiro — já discute a adoção da escala 4x3.
Nada de novo.
Epígono do pensamento conservador sempre
mobilizado contra o interesse nacional, Eugênio Gudin destacou-se na cátedra e
no jornalismo. É patrono do IBRE-FGV e ditou, por décadas, os marcos
político-teóricos da instituição. Foi ministro da Fazenda de Café Filho
(governo resultante da crise de 1954) e prócer entusiasmado da ditadura militar
instalada em 1º de abril de 1964. Por anos manteve uma coluna em O
Globo (como poderia ter sido no Estadão; hoje, talvez na Folha
de S. Paulo).
Nela, escrevendo em 18 de julho de 1973
(“Nosso problema de suprimento e de custo de combustíveis”), revelou seu
contentamento com palestra de Glycon de Paiva — conhecido representante, entre
nós, de interesses estrangeiros —, na qual o geólogo reproduzia o
cantochão da direita brasileira, reflexa em face do imperialismo, contra o
esforço de autonomia energética. Dizia o Glycon, secundado por Gudin: o Brasil
não guardava petróleo. Ponto final.
Contestar a tese derrotista não passaria de
populismo de esquerda.
Na mesma empreitada, o insigne intelectual
orgânico da direita traz à cena o já então desmoralizado “relatório Link” nome
do geólogo norte-americano contratado pelo Conselho Nacional do Petróleo, então
presidido pelo gal. Juracy Magalhães, para avaliar nossas reservas.
O relatório afirmava que o Brasil não possuía reservas exploráveis comercialmente.
Gudin concluía: ““Mau grado os apupos [da esquerda daqueles tempos] que então
lhe valeu essa declaração [de que o Brasil não possuía reservas de petróleo], o
tempo e experiência vieram – infelizmente — dar-lhe-razão”.
Não deram. Tínhamos petróleo e condições de
explorá-lo. Exploramos e tiramos proveito disso. É a história conhecida.
A propósito do Gal. Juracy Magalhães, ex
presidente do CNP, como vimos, embaixador do Brasil em Washington, nomeado nos
primeiros dias da ditadura militar (governo do gal. Castello Branco
(1964–1965), apresentou-se em seu posto afirmando “O que é bom para os EUA é
bom para o Brasil”, fórmula que seria a síntese da política externa brasileira,
até, pelo menos, o mandarinato do gal. Ernesto Geisel.
Como se vê, o processo histórico guarda certa
lógica em seu desenvolvimento: nada é puro acaso.
Trago o professor Eugênio Gudin à
balha por representar, em seu pensamento, a resistência da direita
brasileira — mesmo a pensante — diante da realidade. Ideológica, nega o que vê.
É simbólico que o artigo citado, reiterando a inexistência de petróleo, date de
1973, quando já não havia dúvidas quanto ao acerto da opção brasileira,
iniciada em 1954.
A Petrobras era um fato. “O petróleo é nosso”
vencera.
Montada no dogma da inexistência de petróleo,
ainda quando já consolidada a opção do monopólio estatal — é preciso
repetir, consolidada tecnicamente e consolidada junto à nacionalidade —, a
direita apresenta como alternativa ao Brasil a ciranda do mercado
internacional, vespeiro gerido pela conhecida volatilidade de produção e preços
— valendo lembrar, ainda como interveniente perturbador, o papel monopolista
das grandes empresas distribuidoras norte-americanas e inglesas, e nossa
notória e não pequena pobreza em divisas.
Só aí, e por aí, ou seja, pelo inamistoso
comércio internacional, é que poderíamos obter os combustíveis necessários.
Dizia Gudin: “a preços talvez até mais baratos do que os que resultariam da
exploração de jazidas nossas”, e repetia com a chamada grande imprensa, na qual
influía: por que gastar dinheiro em uma aventura, se podemos comprar gasolina
barata dos árabes?
Àquela altura, porém, a Líbia, explorada
pelas companhias norte-americanas e inglesas, notadamente, já anunciava a
intenção de restringir e, assim, encarecer o preço do combustível que de
suas reservas era encaminhado ao Ocidente. A OPEP começava a enfrentar
a onipotência anglo-americana.
Por esses tempos, difíceis tempos (e nomeadamente até
o choque do petróleo de 1973), a indústria petrolífera internacional
era dominada por um cartel conhecido como “As Sete Irmãs”, que
controlava nada menos que cerca de 85% das reservas mundiais, fora do
bloco socialista: Anglo-Persian Oil Company (BP); Royal Dutch Shell; Standard
Oil of New Jersey (Esso); Standard Oil of New York (mais tarde
ExxonMobil); Standard Oil of California (SoCal); Chevron Texaco; Gulf
Oil. E assim, dominando a produção e o comércio do petróleo, portando o
abastecimento internacional e os preços, assisters dominavam o
mundo.
A direita brasileira, repito, sempre jogou
contra as esperanças de construção de um país desenvolvido, mais ou menos
senhor de seu destino.
Contrariando o discurso das cassandras de
todo gênero, nossa produção de petróleo, fruto do monopólio estatal, alcança
hoje 3,77 milhões de barris diários, o que corresponde a 1,37 bilhão de barris
por ano. É um dos principais itens de nossas exportações (ao lado do minério de
ferro e da soja) e, assim, um dos arrimos da balança comercial.
É por esse tempo que Antônio Dias Leite,
Ministro das Minas e Energia do ditador gal. Emilio Garrastazu Médici,
vai à Câmara dos Deputados declarar nossa pobreza em reservas de minérios
nucleares. Ora, com apenas cerca de 25% do território prospectado, até aqui, já
sabemos que nossas reservas de combustíveis nucleares, principalmente
urânio e tório, são estimadas em 276 mil toneladas.
Devemos abrigar — e provavelmente abrigamos —
a terceira reserva mundial.
Não poderia ser diversa a reação do
conservadorismo ante a introdução do 13º salário, em 1962. Seguiria a linha de
continuidade histórica, que chega com a resistência ao fim da escala 6x1, como
já fôra contra o vale-transporte.
A inovação é criticada como interferência
artificial no funcionamento do mercado de trabalho, falsidade de um
liberalismo arcaico, que no passado arguiu que o salário mínimo aumentaria
os custos de produção sem aumento de produtividade e desta forma pressionaria a
inflação e desorganizaria as empresas. Nenhuma dessas previsões se
confirmou.
O salário mínimo foi assimilado, e
muito bem, pela economia; os trabalhadores agradecem, e não só: políticas
de valorização do salário injetam bilhões de reais no mercado interno,
aquecendo o comércio e os serviços.
Mas, interessando fundamentalmente ao
braço operário, foi objeto, até, de insurgências militares. Em fevereiro de
1954 — prenúncio do 24 de agosto — vem à tona o chamado “Manifesto dos
militares” contra o reajuste do SM, acusado — veja-se! — de pôr em
risco a disciplina militar e ameaçar a ordem econômica. Jango era ministro do
Trabalho. Foi demitido. Botava a cabeça de fora a “crise militar” que teria seu
fecho no suicídio de Vargas.
Como se vê, as peças do xadrez da história
dialogam.
O fundo ideológico é a resistência à
conquista de direitos sociais, a intolerância ranzinza aos avanços derivados
da legislação trabalhista (malsinada porque herança da era Vargas), de par
com a recorrente cantilena do equilíbrio monetário e, na sequência, do ajuste
fiscal, pondo por terra as políticas redistributivas diretas, necessárias e
inadiáveis.
Agora, trata-se da resistência à redução da
semana de trabalho, acusada de inflacionária (persiste o cacoete segundo o qual
todo ganho trabalhista importa pressão inflacionária, que por sua vez deve ser
combatida a todo custo).
Mas o grande receio do dito mercado é
que a nova escala de trabalho, reduzindo a oferta de mão de obra, proteja os
salários, quando a produção capitalista, em sua feição atual, emprega cada vez
menos mão de obra.
De outra parte, contraditando os corifeus do
atraso, o mercado de trabalho indica, em todo o mundo, que reduções de jornada
podem coexistir com produtividade elevada, o que desloca o debate mesquinho
para temas como qualidade de vida, saúde mental e organização do tempo
social.
Os marcos ideológicos da direita brasileira,
porém, ainda remontam aos primórdios da Revolução Industrial.
***
Para saber mais — Nestes tempos em que
estamos próximos de perder os benefícios da exploração das terras raras, sugiro
ao bom leitor buscar o livro Que sabe você sobre petróleo, de Gondin da
Fonseca. Escrevendo sobre a saga do combustíel, ele nos fala das dificuldades
dos projetos de autonomia dos países do Sul global e talvez nos ajude a
compreender a resistência contemporânea contra a exploração de nossas reservas
no nosso norte equatorial, mesmo após as consequências e lições da guerra que
os EUA e Israel movem contra o Irã.
Plot Twist I — Flávio Bolsonaro, dos
filhos do capitão aquele com ficha corrida mais escandalosa, e que, nada
obstante ser o que é, vinha se mostrando um candidato
competitivo (sinal inequívoco desses tempos de rebaixamento da política
brasileira), parece ter visto seu telhado de vidro se estilhaçar, na semana
finda — graças a um primoroso trabalho de investigação e denúncia, que o Intercept realizou
e os grandes meios não puderam ignorar.
Plot Twist II — A direita, incluído seu braço mediático, que é a grande mídia, corre agora para lançar ao mar o peso morto e viabilizar o quanto antes uma alternativa conservadora ao governo de conciliação do presidente Lula, às portas do 4 de outubro. É hora de a esquerda avançar, botando o bloco na rua, e ciente de que segue árdua a tarefa de impedir o retorno da barbárie.
*Com a colaboração de Pedro Amaral.

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