Correio Braziliense
Vamos assistir a cenas surpreendentes de mais
esse capítulo da nossa história democrática. Disso não há dúvidas
A campanha eleitoral começa, oficialmente, em
16 de agosto, exatos três meses adiante do dia em que escrevo este artigo.
Desde a Constituição de 1988, conto aqui de cabeça 10 campanhas federais. Em
todas elas, eu já estava no front do jornalismo e celebrei participar de cada
uma das coberturas eleitorais, em papéis diversos, mas sempre com o entusiasmo
imenso que a democracia me provoca. Continuo achando fascinante.
O que não acho graça é o escárnio de alguns políticos com o povo. Preocupa-me ainda a falta de senso crítico de tantas pessoas, que parecem zumbis rolando o scroll infinito das telas, consumindo notícia como se fosse propaganda política e fake news como se fosse notícia. Apavora-me a violência no trato com adversários políticos e o desrespeito à verdade, aos fatos.
Não sei vocês, mas tenho a impressão de que a
campanha eleitoral será um reality show com emoções diárias. O escândalo do
Banco Master/BRB parece cozinhar em banho-maria: a investigação vai avançando e
as bolhas da fervura vão explodindo uma a uma, a cada perícia, depoimento,
delação, áudio vazado,e e por aí vai.
É preciso reconhecer a firmeza do ministro
André Mendonça do STF na condução das investigações do caso Master/BRB. Sem
essa atuação mais incisiva, parte relevante dos fatos poderia acabar empurrada
para debaixo do tapete. Mas não há evidências de que tudo isso acabe antes da
campanha oficial decolar. A estratégia dos políticos será tentar colocar o caso
no colo do concorrente.
Vamos assistir a cenas surpreendentes de mais
esse capítulo da nossa história democrática. Disso não há dúvidas. O problema é
ficar apenas com a ressaca do pós, sabendo que nada do que realmente importa
foi debatido como deveria. E isso vale não apenas para a campanha
presidencial.
Ando pela cidade e vejo recados pelos muros
de tesourinhas e em outros espaços de Brasília. Pedem por uma mulher negra no
STF; pedem por preservação de áreas verdes negociadas como moeda de troca para
salvar banco; pedem por um basta aos feminicídios. Educação, saúde, segurança,
melhorias de vida para idosos… são tantas as nossas necessidades. Espero ouvir
propostas reais, e não apenas um palavrório repetitivo que não chega a lugar
nenhum.
É óbvio que precisamos lembrar que a corrupção
é uma chaga e políticos que mentem descaradamente em rede nacional. Mas seria
ótimo que não fosse apenas isso. A democracia ainda é o melhor dos regimes. O
que precisamos é depurar nosso olhar político, estudar as opções, buscar a
verdade sempre, questionar, entender, de uma vez por todas, que o voto é o elo
fundamental entre nós e o país que queremos. Sinto que caminhamos para a frente
em muitas escolhas; não podemos retroceder.

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