Por Beatriz Roscoe e Ruan Amorim – Valor Econômico
Proposta prevê redução da jornada de 44 horas
para 40 horas semanais e duas folgas por semana, sem redução de salário
A Câmara dos Deputados aprovou na
quarta-feira (27) a proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da
escala de trabalho 6x1. Foram 472 votos a 22 no primeiro turno. No segundo
turno, o placar favorável ao texto foi de 461 a 19. As duas votações superaram
em muito o apoio mínimo de 308 votos necessários para alterações
constitucionais.
Principal bandeira eleitoral do governo do
presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT), pré-candidato à reeleição, a proposta será agora analisada no
Senado, cujo presidente, Davi Alcolumbre (União-AP),
indicou a pessoas próximas que não deve frear o avanço da matéria,
apesar da tensão com o governo. Nesta semana, empresários
foram ao parlamentar apresentar propostas de mudança, diante da avaliação
de que a medida aumenta os custos da mão de obra e pode ter impacto negativo
sobre a atividade econômica.
O texto foi analisado em sessão marcada por grande disputa política entre governistas e oposição. Parlamentares da base buscaram ressaltar a posição do PL contra a redução da jornada. Por outro lado, deputados do partido do ex-presidente Jair Bolsonaro optaram pela estratégia de constranger o governo e — de última hora — defender uma redução ainda maior, para uma escala 4x3, em vez do modelo 5x2, apoiado pelo governo.
O parecer do relator, Leo Prates (Republicanos-BA),
foi acordado após reunião nesta semana entre Lula e o presidente da
Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). O texto prevê reduzir a jornada de trabalho de 44 para 40 horas
semanais, sem redução de salário, com transição em duas etapas. A primeira, de
redução de 44 horas semanais para 42 horas, será feita ainda neste ano, após 60
dias da promulgação da PEC, caso o texto avance no Senado. Depois disso, em 12
meses, a jornada passaria de 42 para 40 horas semanais.
O PL, que inicialmente era contrário à
proposta, passou a defender que a nova jornada passasse a ser de quatro dias de
trabalho com três folgas. A proposta irritou os governistas e integrantes do
Centrão, que viram na iniciativa uma tentativa de tumultuar a sessão e atrasar
a votação.
Partidos do Centrão atuaram para
dissuadir o PL de apresentar o destaque para tentar constranger o governo.
Antes alinhada à oposição, a federação União-PP formalizou apoio ao relatório
do deputado Leo Prates e acusou a tentativa da oposição de ser “irresponsável”.
Durante a votação, eles conseguiram barrar a iniciativa do partido de
Bolsonaro, que sequer chegou a ser analisada pelo plenário.
“Eu acho que, neste momento, o que a gente
avalia [é que] avançar para a escala 4x3 não é um ato de responsabilidade.
Somos a favor da escala 5x2”, disse o líder do PP na Casa, deputado Dr. Luizinho (RJ). “O
partido que estava em dúvida, não defendendo a votação, está defendendo 4 por
3. Não tem lógica. Quando a gente sai da lógica e entra na eleição, eles
começam a fazer tomada de posição sem lógica. E nós aqui temos responsabilidade
com o país”, completou.
“A escala 5x2 é o [modelo] mais sensato, mais
equilibrado, dá condições pro empregador se organizar”, declarou o líder do
União Brasil, deputado Pedro
Lucas (MA).
Em uma tentativa de conter a contaminação
eleitoral do debate, Motta solicitou a retirada do plenário de camisetas com
manifestações, bonés e cartazes. Após a aprovação no plenário, o presidente da
Câmara afirmou que a aprovação da PEC era histórica.
“Hoje, esta Casa afirma que proteger o tempo
humano é também proteger a economia, a saúde, a família e a dignidade das
pessoas”, disse o presidente.
O período de transição, principal impasse em
torno do texto, foi negociado entre Motta e o governo. Em troca do desejo do
Executivo por uma transição mais rápida do que a defendida pelos empresários,
Motta articulou a inclusão, na proposta, de medidas voltadas aos
microempreendedores individuais, como gatilhos para flexibilizar contratações e
a possibilidade de reajuste do teto do Microempreendedor Individual (MEI).
Como mostrou o Valor, segundo Motta, havia
três pontos inegociáveis nas discussões sobre a mudança na escala e jornada de
trabalho: a redução da jornada para 40 horas semanais, o fim da escala 6x1 (com
duas folgas por semana), e a garantia de manutenção dos salários. Todos esses
pontos foram contemplados no parecer.
Acordos coletivo e jornadas especiais
O relatório de Prates
garante duas folgas semanais, uma preferencialmente — mas não obrigatoriamente
— aos domingos. O texto também prevê que convenção ou acordo coletivo de
trabalho poderão estabelecer regime compensatório para trabalhadores sujeitos a
regimes diferenciados.
O mecanismo poderá ser usado para determinar
regimes para jornadas
diferenciadas, como plantões, turnos contínuos ou outros
modelos de escalas, como, por exemplo, a 12x36 — comum em setores da saúde.
Além disso, o projeto de lei (PL) enviado pelo governo ao Congresso tratará de
regras para regimes diferenciados de jornadas de trabalho de cada setor.
O relatório determina
ainda que empresas e categorias terão um prazo de 60 dias para negociar novos
acordos e convenções coletivas, adequando as atividades à nova jornada máxima
semanal de 42 horas. Após esse período, convenções coletivas que prevejam jornadas
superiores a 42 horas semanais perderão a validade.
O texto também estabelece uma exceção às
novas regras para os chamados trabalhadores “hiperssuficientes”, profissionais
com diploma de nível superior e remuneração mensal igual ou superior a duas vezes
e meia o teto do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), cerca de R$ 21,2 mil. A
exceção não vale para servidores e empregados públicos.
Com isso, os
trabalhadores dessa faixa salarial ou acima poderão trabalhar além dos limites
a serem impostos pelas mudanças constitucionais. De acordo com
Prates, a medida vai estimular a contratação de trabalhadores com maiores
salários com carteira assinada e reduzir a pejotização.
Aumento de custo para empresas
Uma das principais críticas do setor
produtivo à proposta é que a redução da jornada de trabalho, sem queda nos
salários, implicaria aumento de custo para as empresas. Outro ponto defendido é
que a elevação de gastos depende de ganhos de produtividade para ser
sustentável, mas não há movimento para resolver o problema da falta de
qualificação da mão de obra.
Uma das
consequências, segundo os críticos da proposta, é que o custo maior com
funcionários terá que ser repassado para os consumidores, gerando pressão
inflacionária, além de reduzir a competitividade do produto brasileiro no
mercado externo — principalmente em setores mais intensivos em mão de
obra. A
proposta de redução não contempla as peculiaridades de cada setor, apontam
empresas e entidades empresariais.
No parecer, o deputado ressalta que, apesar dos argumentos contrários à última redução da jornada de 48 para 44 horas, que apontavam para o iminente colapso do sistema econômico, a adoção do regime não materializou os cenários negativos apontados por seus críticos. “Pelo contrário, a mudança institucional trazida pela Carta Magna de 1988 demonstrou ser sustentável para o mercado produtivo nacional, assim como consolidou a concepção do limite temporal do labor como um direito social e fundamental”, escreveu o relator, que também rebateu argumentos de que a proposta afetará a produtividade brasileira.

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