quinta-feira, 28 de maio de 2026

PEC do fim da escala 6x1 cacifa Motta para tentar reeleição, por César Felício

Valor Econômico

A tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1 de trabalho ainda atravessará uma zona de incerteza no Senado e sua aprovação no Congresso este ano permanece no terreno da hipótese, mas o seu avanço (472 votos a 22 no primeiro turno) na Câmara produz efeitos políticos concretos.

Um deles é o do fortalecimento político do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que ganha impulso para se reeleger à frente da Mesa Diretora, caso consiga um novo mandato pela Paraíba. Motta virou o jogo depois de um primeiro ano terrível como presidente da Casa, do ponto de vista de credibilidade junto a seus pares.

Sua atuação vacilante no motim bolsonarista a favor da anistia do ex-presidente, em agosto do ano passado, transmitiu a imagem de um dirigente com dificuldade de construir uma agenda e de honrar os compromissos que assume com outras forças.

Este ano Motta deu uma demonstração de força com a aprovação do petista Odair Cunha para ministro do Tribunal de Contas da União (TCU). A bancada do PT já havia fracassado em emplacar um integrante para esta corte mesmo nos tempos em que era hegemônica na Câmara.

O surgimento de candidaturas alternativas como as de Elmar Nascimento ( União Brasil-BA), Soraya Santos (PL-RJ), Danilo Forte (PP-CE) e outras mostrou que não havia compromisso dos outros partidos com a pretensão petista. "Ele se mostrou forte para fazer valer um acordo que o PT havia feito para a eleição dele", comentou o deputado Carlos Zarattini (PT-SP).

A PEC do fim da 6x1 não teria avançado na Câmara, por mais que tenha um apelo eleitoreiro evidente que causa constrangimento à direita. Sem o empenho de Motta o cenário mais provável seria o do protelamento da tramitação. Com menos de 130 deputados, a esquerda isoladamente não tem força no Congresso para nada além da aprovação de um projeto por maioria simples.

Motta foi decisivo ao desmontar a manobra do PL para inviabilizar a tramitação da PEC sem assumir o voto contrário. O líder da bancada , Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) apresentou um destaque de preferência para que o plenário examinasse primeiro a PEC 8/2025, da deputada Erika Hilton (Psol-SP), que estabelece uma jornada laboral com três dias de descanso.

Não havia acordo para o avanço de um texto tão radical como esse em plenário. O parecer do deputado Léo Prates (Republicanos-BA) era em relação a PEC 221/19, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que estabelece uma jornada 5x2. Ao decidir em questão de ordem, Motta garantiu a preferência para a proposta original do petista.

Motta terá que lidar com a decepção do setor produtivo, que não conseguiu ser ouvido ao argumentar de que a redução da jornada, sem redução de salário, implicaria em aumento de custo e repasse do ônus para consumidores, gerando pressão inflacionária, especialmente em um contexto de produtividade baixa. Possivelmente, em uma estratégia pendular, o presidente da Câmara procurará nas próximas semanas e meses fazer um gesto a favor tanto do empresariado quanto da oposição bolsonarista.

A bússola para medir as chances de Motta em 2027 dependerá ainda do índice de renovação da casa. "Há tempo suficiente para consertar coisas", opinou o líder do PDT na Câmara, Mário Heringer (MG

 

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