O Globo
Levantamentos recentes dão pistas sobre o
interesse dos brasileiros no escândalo do Banco Master
É certo que o furacão que varreu figuras da direita brasileira neste maio influenciará a posição do eleitorado em consultas vindouras sobre o pleito de outubro. Afinal, não é todo dia que um mandachuva do Centrão é alvo de operação da Polícia Federal, por suspeita de pôr o mandato de senador a serviço do protagonista da maior fraude bancária da História. Tampouco é sempre que um senador içado pelo pai a presidenciável é descoberto em relações financeiras e amistosas com o mesmo ex-banqueiro. Nem que um ex-governador tornado inelegível por fraudar o processo eleitoral sofre busca e apreensão por favorecimento ao maior sonegador de impostos da República.
Está por vir a safra de pesquisas
pós-revelações do envolvimento de Ciro Nogueira (PP-PI), ex-chefe da Casa Civil
de Jair Bolsonaro, e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com Daniel Vorcaro, preso desde
março; e de Cláudio Castro com Ricardo Magro, dono da Refit, ora incluído na
lista vermelha da Interpol. Mas levantamentos recentes dão pistas sobre o
interesse dos brasileiros no escândalo do Banco Master. Na pesquisa Quaest de
março, 38% do eleitorado declarou que evitaria votar em candidato envolvido no
caso; 29% levariam as investigações em consideração. Nada menos que dois terços
dos brasileiros relacionam o tema à corrida político-eleitoral deste ano.
Na consulta divulgada nesta semana — antes de
o áudio e as mensagens de Flávio e o contrato de Eduardo Bolsonaro com a
produção do filme biográfico sobre o ex-presidente, pai deles, tornarem-se
públicos pelas reportagens do Intercept Brasil —, a Quaest informou que 46% dos
brasileiros acreditam que o escândalo afeta negativamente dos governos
Bolsonaro e Lula ao Congresso, do STF ao Banco Central. Dois meses atrás, a
proporção estava em 40%.
Felipe Nunes, diretor da empresa de pesquisa,
antevê três eixos de impacto político dos episódios. Uma hipótese, diz, é
consolidar a percepção de escândalo sistêmico, de responsabilidade coletiva,
difusa. É cenário que tanto pode beneficiar um outsider, movido pela
antipolítica, o famoso “candidato contra tudo que está aí”, quanto fermentar o
desalento, multiplicando a proporção dos votos brancos e nulos, além da
abstenção.
— Por outro lado, se a percepção do eleitor
mudar na direção do bolsonarismo, quem pode se beneficiar é o presidente da
República — diz Nunes.
Na pesquisa da semana, a Quaest já detectara
recuperação de popularidade e de intenções de voto no pré-candidato à
reeleição, na esteira do lançamento do Novo Desenrola Brasil e da reunião de
três horas com Donald Trump, na Casa Branca.
Pré-candidatos da direita acenaram, de
imediato, à base bolsonarista. O mais ferino foi Romeu Zema (Novo-MG),
ex-governador de Minas Gerais, que chamou de imperdoável o áudio de Flávio
cobrando repasses de Vorcaro. Foi atacado sem piedade até por correligionários.
Cauteloso, o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD-GO) se apresentou como
alternativa ao herdeiro de Bolsonaro, sob o manto do antipetismo. Renan Santos
(Missão-SP), fundador do MBL, é a encarnação do antissistema.
A corrupção desde março aparece como o segundo
maior problema do país na pesquisa Quaest, com 18%. Mas, entre eleitores
autodeclarados de direita, bolsonaristas ou não, ambos com 34%, está no topo. É
cenário capaz de movimentar as intenções de voto, na medida em que integrantes
da família Bolsonaro e nomes relevantes da base de apoio estejam envolvidos com
as fraudes do Banco Master, que avançou até sobre os fundos de pensão de
servidores dos estados do Rio de Janeiro, do Amapá, além de fundações
municipais.
A violência é a principal preocupação dos brasileiros
(31%). Lidera também entre lulistas (36%) e não lulistas (29%), bem como no
eleitorado independente (31%), tido como fiel da balança no pleito, até aqui
novamente polarizado entre Lula e a família Bolsonaro. O governo lançou um
programa de enfrentamento ao crime organizado nesta semana. Lula prometeu
combate ao tráfico de armas, asfixia financeira das facções, integração com
estados, cooperação internacional. Prometeu criar o Ministério da Segurança
Pública, se o Congresso aprovar a PEC da Segurança, empacada há meses.
Mas não necessariamente a preocupação que
brasileiros expressam com violência se relaciona ao crime organizado. O Fórum
Brasileiro de Segurança Pública encomendou ao Datafolha uma pesquisa sobre medo
do crime. De 13 episódios de violência enumerados, em 11 mais de metade dos
entrevistados manifestou temor. A lista contém de golpe financeiro por internet
e celular (83,2%) a roubo a mão armada (82,3%); de ser vítima de bala perdida
(77,5%) a ter a casa invadida ou arrombada (76,1%); de ser vítima de agressão
sexual (66,2%) a ser agredido por preferência política ou ideológica (59,6%).
Ao todo, 96% dos brasileiros manifestaram
algum medo; quatro em dez sofreram alguma violência. As respostas carregam
assimetrias de gênero, raça e classe. Entre as mulheres, é maior o medo de
violência por companheiros ou ex, consistente com a escalada de violência
doméstica e dos feminicídios, e de circular nas ruas após o anoitecer. Ricos
temem perder patrimônio; pobres e pretos, a vida. Cerca de 40% vivem em áreas
dominadas por grupos armados; 13% já tiveram familiar ou conhecido assassinado.
Compreender o que os brasileiros temem é essencial ao debate político-eleitoral
de 2026, sob o risco de as receitas dos candidatos produzirem, em vez de
esperança, mais desconfiança e desalento.

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