O Globo
A mentira não triunfa só quando convence, mas
quando as pessoas já não se dão ao trabalho de separá-la da verdade
A gargalhada que Flávio Bolsonaro deu diante
da pergunta do repórter do site Intercept Brasil é daquelas cenas destinadas
aos anais da política — evidentemente, não por engrandecê-la.
— Mentira. De onde você tirou isso? — disse o
senador quando confrontado pelo jornalista com a informação de que o filme
sobre Jair Bolsonaro havia sido financiado por Daniel Vorcaro.
Nas imagens, à
disposição na internet, Flávio lança uma rápida olhada para as câmeras
simulando incredulidade, então solta a risada de ator canastrão.
— Pelo amor de Deus — desdenha, virando as costas.
Quando, pouco mais tarde, teve de divulgar
uma gravação desmentindo a si próprio, e à sua gargalhada, não se viu em seu
rosto sinal de rubor nem se ouviu em sua fala menção à negativa de momentos
antes:
— O que aconteceu foi um filho procurando
patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai —
disse, agora consternado e cândido.
A negativa de Flávio, e sua gargalhada
cenográfica, levaram a mentira a um novo patamar de cinismo —mas isso parece
importar cada vez menos no Brasil.
Na reunião de emergência com sua equipe de
campanha após o episódio, o pré-candidato à Presidência pelo PL jurou que nada
mais aparecerá contra ele — no que, obviamente, ninguém acreditou. Os R$ 61
milhões que recebeu de Vorcaro, segundo Flávio para financiar a cinebiografia
de Jair Bolsonaro, nunca chegaram à empresa responsável pelo longa, a Go Up,
dizem os responsáveis. E o fato de ao menos parte desse dinheiro ter ido parar
num fundo nos Estados Unidos, gerido pelo advogado de seu irmão, o ex-deputado
Eduardo Bolsonaro, tampouco ajuda a dirimir as suspeitas de que Flávio fingiu
pedir dinheiro para fazer um filme sobre o pai, e Vorcaro fingiu acreditar que
o desembolso era para isso mesmo.
Diante de tantos e escrachados descalabros, a
candidatura de Flávio ainda não caiu. Integrantes da campanha dizem que a ideia
é reavaliá-la na hipótese de um “evento catastrófico”, como se refere um deles
à possibilidade de novas e graves revelações. Por via das dúvidas, Michelle
Bolsonaro vem sendo testada em monitoramentos internos do PL como vice da
senadora Tereza Cristina (PP) e aparecerá em pelo menos uma pesquisa pública na
semana que vem como alternativa a Flávio. O plano B do PL, ainda que costurado
com outros partidos, depende das duas opiniões que de fato contam: a de Jair
Bolsonaro e a de Valdemar Costa Neto.
Sobre o primeiro, um político próximo diz que
Jair não tem “condições nem psicológicas” de, preso, suportar a ideia de ver a
mulher candidata — ao menos como titular da chapa. Valdemar se guia por um
critério único e bem menos sentimental: vale o candidato, ou candidata, capaz
de levar mais deputados ao partido (cem cadeiras na Câmara, sua meta, equivalem
a R$ 1 bilhão em fundo partidário). Ele trabalhará para substituir Flávio
apenas se a hipótese do “evento catastrófico” tornar o filho de Jair um
elemento radioativo em vez de puxador de bancada.
Na mesma linha, especialistas em pesquisas de
opinião avaliam que, nada mais acontecendo por ora, os próximos levantamentos
não mostrarão uma queda de Flávio capaz de sepultar sua candidatura. Uma
parcela do voto antipetista pode migrar para os pré-candidatos Romeu Zema,
Ronaldo Caiado ou Renan Santos, mas, no curto prazo, os bolsonaristas tendem a
engolir o que Flávio disser, e os indecisos continuarão preocupados mais com as
contas por vencer que com corrupções e lorotas de políticos. É prova de que a
mentira não triunfa só quando convence, mas quando as pessoas já não se dão ao
trabalho de separá-la da verdade. A gargalhada de Flávio Bolsonaro mostra que
ele sabe disso.

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