Folha de S. Paulo
Lideranças do Congresso dizem que projetos
vão andar, mas não nos termos do governo
Além das derrotas políticas, há risco de
juros altos persistentes e inflação em alta
É difícil de acreditar que a maioria de deputados e senadores vote contra a aprovação de projetos de lei que distribuam dinheiro ou que tenham caído no gosto do povo. Um desses projetos que deveria entrar em discussão em breve é o de redução da jornada, a mexida na escala 6x1. A redução do imposto federal sobre a gasolina estava na pauta de urgência do governo. Talvez o novo plano de apoio à renegociação de dívidas de pessoas físicas, o Desenrola 2, exija alguma medida legislativa.
Em tese, parte dos projetos seria aprovada,
imaginava o governo, que vai catar décimos de porcentagem de popularidade e de
votos como puder, pois a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
está no bico do corvo, no momento. Em tese. Depois
do atropelamento desta quarta (29), não se sabe bem como a oposição vai
tentar equilibrar a fome de votos com a vontade de enterrar Lula 3 e matar Lula
4. A oposição animada agora tem uns 70% da Câmara e mais da metade do Senado.
Lideranças da oposição dizem que essas
"pautas", projetos de interesse de Lula, não são do governo e que
serão discutidas, mas nos termos do Congresso. Que Lula terá de dançar
miudinho. Etc. Em resumo, ficou mais difícil, mas não impossível, embora a
articulação política do governo seja ainda mais bisonha do que a do início de
Lula 3.
O horizonte econômico e financeiro ficou mais
azedo, no curto prazo. Há certos aspectos da economia com resultados ainda
muito bons, como
os do emprego e do salário, como se viu na Pnad de março. Mas, como
sabemos, esse desempenho não vitaminou a popularidade de Lula.
As taxas de juros ficarão mais altas por mais
tempo. Com Desenrola, com tudo, o aperto financeiro vai diminuir pouco. A
inflação média começou a subir por causa da guerra, mas o efeito pior ainda
virá. O preço dos alimentos vai voltar a aumentar, possivelmente para o mesmo
nível do IPCA ao fim deste ano, para mais de 4% ao menos. Dado que o nível
de preços da comida foi para as alturas desde a epidemia e de lá pouco
baixou, uma carestia extra, mesmo que não lá das piores, irrita. Irrita ainda
mais porque parte do aumento considerável da renda está sendo comido por juros,
em particular para quem ganha até três salários-mínimos, por aí.
Não é uma pintura de cenário de desastre. É
de dificuldades adicionais em uma situação de déficit de popularidade de Lula.
Para resumir: 1) impacto pequeno ou nenhum de medidas que deveriam ser
populares, como
a isenção do IR para quem ganha até R$ 5.000; 2) reaquecimento de preços,
com risco de encarecimento da comida; 3) juros persistentemente altos; 4)
dúvidas sobre a aprovação de projetos de emergência econômico-eleitoral
(combustíveis, Desenrola) e do que vai sobrar do projeto de redução de jornada
de trabalho.
O problema vai além do terceiro mandato de
Lula 3. De acordo com a mais recente das previsões de "o
mercado", as
do Boletim Focus, a Selic baixa apenas para 13% no final deste 2026. No
mercado, as negociações de dinheiro indicam Selic a mais de 13,5% na virada do
ano. Com IPCA previsto de 3,5% para 2029, a Selic ainda estaria em 9,75%. Ou
seja, a taxa real de juros ficaria acima de 6% depois de passados três quartos
do mandato do próximo presidente da República; há outros rolos macroeconômicos
sérios. Sem um plano econômico de impacto ou milagres, esse cenário não muda
muito. Caso Lula 3 vença, Lula 4 vai estrear em uma situação difícil.
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