Medida libera doações federai a estados e prefeituras, obras em rodovias e repasses a cidades pequenas inadimplentes nos três meses antes do pleito
Vale tudo pelo voto
Com derrubada de veto de Lula, Congresso
libera doação antes das eleições e reforça caixa de aliados em redutos
Por Letícia Pille, Lauriberto Pompeu e
Paulo Assad – O Globo
Contaminado pelo ambiente de pré-campanha, o
Congresso deu aval ontem a mais um pacote de bondades para favorecer aliados de
parlamentares em seus redutos eleitorais. Sem dificuldades e com apoio de quase
todos os partidos, Senado e Câmara retomaram, em sessão conjunta, dispositivos
legais que vão aumentar os repasses federais a municípios ainda neste ano. A
liberação, contrariando consultoria técnica do Legislativo, facilita o empenho
de mais emendas e ocorreu a partir da derrubada de vetos do presidente Luiz
Inácio Lula da
Silva feitos à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Em plenário, governistas
e o PT respaldaram a decisão.
Especialistas avaliam que a manifestação do
Congresso viola tanto a legislação eleitoral quanto a Lei de Responsabilidade
Fiscal.
Um dos trechos derrubados diz respeito ao artigo 95 da LDO, que estabelece que a “doação de bens, valores ou benefícios” públicos não configura descumprimento das restrições da legislação eleitoral, desde que haja contrapartida. Na prática, o dispositivo flexibiliza repasses, transferências e doações, como cestas básicas e tratores, por exemplo, em período eleitoral — a lei proíbe esse tipo de prática três meses antes da eleição. O placar foi de 329 a 194 pela derrubada.
Na terça-feira, a Câmara já havia aprovado
uma outra iniciativa, que ainda precisa passar pelo Senado, que melhora as
condições para a negociação de dívidas de partidos e destrava o caixa das
siglas. O pacotão, como mostrou O GLOBO, contou com articulação direta de
dirigentes das principais legendas do país.
Promessa a prefeitos
A articulação para derrubar os dispositivos
começou no início desta semana, durante a Marcha dos Prefeitos, evento que
reúne em Brasília gestores municipais de todo o país em busca de liberação de
verbas, convênios e emendas parlamentares, em contato direto com deputados,
senadores e integrantes do governo.
Na abertura do encontro, na terça-feira, o
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) anunciou publicamente que
organizaria uma sessão do Congresso para analisar os vetos. Cabe a ele convocar
sessão que reúne deputados e senadores para apreciar vetos presidenciais.
Segundo Alcolumbre, cerca de 3.100 cidades seriam afetadas pelas restrições
impostas pelo governo federal.
Ao vetar o trecho das doações, o governo
havia alegado que a proposta criava exceção à Lei das Eleições e tratava de
tema fora do escopo da LDO. O trecho também pode abrir brecha, por exemplo, ao
envio de emendas parlamentares não impositivas aos municípios, desde que haja
uma contrapartida da cidade que está recebendo o montante.
Contrário à derrubada do trecho, o líder do
PSOL na Câmara, o deputado Tarcísio Motta (RJ) afirmou que a volta do trecho
possibilitaria a “compra de votos”, justamente por possibilitar o repasse de
valores a municípios em período eleitoral.
— Isso é antirrepublicano, uma aberração —
afirmou.
Já parlamentares que defendem a medida
argumentam que a manutenção do veto de trecho da lei poderia afetar os
investimentos em municípios, principalmente os de pequeno porte.
Em um parecer elaborado pela Consultoria de
Orçamentos de Câmara e Senado, a área técnica do Legislativo tratou sobre o
conflito com a lei eleitoral.
“A intenção do legislador (da Lei das
Eleições) parece ter sido a de evitar o uso da máquina pública e prestigiar,
tanto quanto possível, a igualdade entre os candidatos, estando ou não no
exercício de mandato. Nesse sentido, a norma é expressa ao excetuar apenas a
distribuição de bens, valores ou benefícios em casos de calamidade pública ou
de estado de emergência, bem como a manutenção de programas sociais estatuídos
em lei e já em execução”.
Os parlamentares também decidiram
restabelecer um trecho da LDO que dispensa municípios de até 65 mil habitantes
da exigência de adimplência para receber transferências voluntárias da União,
firmar convênios e receber recursos, como de emendas parlamentares.
O dispositivo havia sido vetado por Lula sob
argumento de que a medida contrariava a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e
poderia violar regras constitucionais ligadas à seguridade social. Nesta
votação, foram 500 votos pelo veto e apenas 22 para a manutenção. Diante do
plenário vazio, a sessão permitiu votação remota.
‘Manobra’ ilegal
Para Juliana Sakai, diretora-executiva da
Transparência Brasil, a derrubada é “uma manobra” que afronta a Lei Eleitoral e
a LRF.
— São os poderosos tanto do Legislativo
quanto do Executivo querendo se utilizar da máquina pública que controlam para
se reeleger. Na prática, estão tentando legalizar o uso político e econômico da
máquina pública, fazendo com que candidatos sem mandato não consigam competir
com igualdade — disse Juliana Sakai.
Na mensagem enviada ao Congresso em janeiro, o governo argumentou que a LDO, por ser lei ordinária e temporária, não poderia afastar exigências previstas na Lei de Responsabilidade Fiscal. O Planalto também afirmou que a dispensa de adimplência para municípios inadimplentes violaria o artigo 195 da Constituição, que proíbe benefícios a entes em débito com a seguridade social.

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