O Globo
'Libera geral' promovido nesta semana por deputados e senadores supera em falta de cerimônia a tentativa de aprovação da PEC da Blindagem
Em 2010, o humorista e cantor Tiririca
explodiu em votos para deputado federal com um slogan justificando sua decisão
de entrar para a política: "Pior do que tá, não fica". Ele se elegeu,
se reelegeu e pode-se dizer que a qualidade do trabalho piorou muito — e o
artista que começou sua carreira no circo não pode ser responsabilizado por
isso, nem pela profecia errada.
A lambança promovida por deputados e senadores nesta rara semana em que resolveram pegar no batente presencialmente supera, em desfaçatez e ousadia, a malfadada jornada pela aprovação da PEC da Blindagem no ano passado. Supera porque, desta vez, o Senado não se sente pressionado a “corrigir” as decisões escandalosas e participa delas ativamente.
Tudo começou com o “Desenrola dos Partidos”
iniciado na Câmara em sessão-fantasma, na qual o presidente da Casa, Hugo Motta
(Republicanos-PB), não deu as caras para evitar ligar sua imagem à sua obra.
O conjunto aprovado sob a cínica nomenclatura
de reforma eleitoral é um “libera geral” de toda e qualquer tentativa que ainda
não havia sido revogada de disciplinar minimamente o uso dos cada vez mais
generosos recursos públicos que irrigam os fundos partidário e eleitoral.
Num bônus não menos vergonhoso, os deputados
retiraram as travas que a Justiça Eleitoral estabeleceu paulatinamente desde
2018 nos disparos automáticos de mensagens no período eleitoral, justamente
depois do uso indiscriminado dessas ferramentas para disseminar desinformação
por parte da máquina bolsonarista naquela campanha.
O conluio silencioso que levou à inclusão do
vale-tudo partidário uniu, e não pela primeira vez em temas dessa natureza
corporativista, PT, PL e tudo que está no espectro entre esses dois polos. As
exceções ficaram à esquerda e à direita: PSOL e Novo, com suas bancadas
diminutas.
Não se passaram dois dias para a segunda
paulada desferida pelo Legislativo, com a derrubada dos vetos de Lula a trechos
da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026 que permitiam repasses e
transferências a municípios no período vedado pelas leis Eleitoral e de
Responsabilidade Fiscal.
A Lei das Eleições é de 1997 e proíbe
repasses voluntários de recursos, inclusive de emendas, nos três meses que
antecedem as eleições. Tratava-se de um princípio consagrado até 2022, quando
já foi esculhambado pelo governo Bolsonaro com a PEC Kamikaze. Na época, assim
como agora, a manobra, considerada inconstitucional dois anos depois pelo STF,
teve apoio do PT.
Desta vez, o governo tentou brecar a farra
eleitoral, mas o Congresso comandado por Davi Alcolumbre aproveitou a semana em
que Brasília está tomada por prefeitos na marcha anual para anunciar sua
benesse com dinheiro público. O senador também deverá levar adiante o “libera
geral” dos partidos aprovado pela Câmara.
Lula não deverá se envolver para criticar a
farra do boi do Congresso, até porque também o Executivo resolveu mandar às
favas qualquer comedimento no uso indiscriminado de medidas para tentar
aumentar as chances reeleitorais do presidente. No caso específico da LDO, é o
tipo de derrubada de veto de que o governo não deve reclamar, porque também ele
poderá fazer proselitismo eleitoral fora do prazo legal.
Caberá ao Judiciário, como sempre, dar a
palavra final nos dois casos. Mas, com tanto fogo para apagar, será que o
Supremo Tribunal Federal comprará mais um contencioso com o Congresso a esta
altura do campeonato?
A delação vai-não-vai de Daniel Vorcaro é um
tema que fragiliza simultaneamente uma parcela da Corte e cabeças coroadas do
Legislativo, inclusive o pré-candidato a presidente do PL, Flávio Bolsonaro.
Num cenário em que todos têm interesses próprios e, muitas vezes, coincidentes
em jogo, a moralidade eleitoral pode ser relegada ao plano dos temas de menor
urgência e relevância.
Com a derrama de dinheiro público sem
controle que se aprovou nesta semana, o Axioma de Tiririca nunca pareceu tão
anacrônico. A chance de piorar o que já está abaixo da crítica é enorme.

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