Valor Econômico
Lula e sua equipe não foram a Washington em
nome da Guerra Fria. Mas em nome de uma concepção de desenvolvimento econômico
com desenvolvimento social
O encontro do presidente Donald Trump com o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do ponto de vista sociológico, tem
especial importância porque foi claramente um encontro de chefes de Estado.
O reiterado empenho de diferentes agentes de conspiração contra a democracia, lá e aqui, pela banalização tanto da figura de Trump quando da figura de Lula, está ficando cansativa. É claramente uma forma golpista de esvaziamento do processo político, de modo a reduzi-lo à alternativa do único. No fim das contas, os envolvidos nessa atividade golpista têm atuado no sentido de minimizar e usurpar as funções próprias do Estado.
No caso dos EUA, a solidez do Estado
americano deu sinais de fragilização quando da invasão do Capitólio para
impedir a certificação da vitória de Joe Biden. Um sinal de descolamento das
instituições em relação aos mecanismos de afirmação da vontade democrática do
povo americano.
Esse fragilização se refletiu na segunda
eleição de Trump porque deu-lhe a convicção que fora investido do imenso poder,
especialmente militar, do Estado americano não só nas relações internas como
também nas relações internacionais. Ele tenta personificar o Estado.
O fato revelou o quanto os EUA, especialmente
desde a Guerra Fria, enfraqueceu as democracias já em si mesmas frágeis nos
países dependentes não só aqui na América Latina. Governos populistas, de
esquerda ou não, para afirmar sua soberania tiveram que alinhar-se com países
de orientação ideológica não necessariamente igual à de sua própria população.
Um exemplo significativo foi o de Cuba.
Literalmente uma colônia de diversões mundanas dos americanos de Miami, sob
domínio de um político corrupto, Fulgencio Batista, foi convulsionada pela
insurreição patriótica de uma geração de jovens motivados pelo ímpeto de
completar sua revolução da independência de 1898. Com a intervenção americana
Cuba tivera uma independência peculiar e anômala. Eram sem ser.
A revolução castrista de 1959 não era uma
revolução comunista e, de certo modo, nem teve o apoio do Partido Comunista
Cubano. Mas o bloqueio americano, negando ao país até a importação de remédios,
levou Cuba a uma aliança com a União Soviética, que trouxe a polarização
geopolítica para as portas dos EUA, com os gravíssimos riscos da crise dos
mísseis.
O outro personagem do encontro de Washington
no dia 7 de maio, Luiz Inácio Lula da Silva, não representa uma poderosa nação
militar. Além do mais à mercê de traidores da pátria que, não faz muito, em
função dos problemas com os agitadores de 8 de janeiro de 2023, não tiveram
escrúpulo de ameaçar o Brasil até com bomba atômica se não baixasse a cabeça
para Trump, suposto aliado dos bolsonaristas. Mal-assessorado, Trump
aparentemente se guiava por falsas informações dessa gente de somenos. A
invasão da Venezuela e a captura de seu presidente e da esposa na própria cama
animavam os bolsonaristas a acreditar que, a um estalo de seus dedos, Trump
mandaria capturar no Brasil legítimas autoridades brasileiras.
Acompanho há muitos anos a trajetória de
Lula. Desde antes de se tornar presidente pela primeira vez. Tive uma longa
conversa com ele, na sacristia da Matriz de São Bernardo, por sugestão dele,
que, sabedor de minhas pesquisas sobre o Brasil rural, especialmente a
Amazônia, queria ouvir-me sobre um lado do Brasil que ele não conhecia. Num
sábado à tarde, conversamos durante umas quatro horas, na sacristia da Matriz
de São Bernardo. Lula tem uma memória incrível. Hábil e respeitável negociador,
treinado nas lides sindicais, quando seus oponentes estão indo ele já está
voltando.
Foi o que aconteceu quando se encontrou com
Trump no banheiro da ONU, dirigiu-lhe a palavra, conversou descontraidamente.
Quando retornaram, deixaram os assessores do presidente americano pasmos e
irritados. Tinha terminado o ciclo de manipulação do presidente americano
contra o presidente e o governo do Brasil.
O encontro de mais de três horas, no dia 7,
com pompa e circunstância, risos, tapinhas nas costas e propostas escritas de
entendimento em relação a questões que se preocupam Trump também preocupam o
Brasil. Desde o governo Dilma, foi a primeira vez que um presidente brasileiro
teve uma conversação de chefe de Estado com um presidente americano. E um
encontro no estilo de seminário de estudo em defesa do “nosso” capitalismo,
que, inspirado no neoliberalismo antidesenvolvimentista de Milton Friedman,
entrara em decadência notória. Lula e sua equipe não foram a Washington em nome
da Guerra Fria. Mas em nome de uma concepção de desenvolvimento econômico com
desenvolvimento social. Lula foi lá convencer Trump de que o capitalismo pode
ser salvo.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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