Valor Econômico
Cúpula do PL sabe que a revelação dos laços
de Flávio com Vorcaro coloca em xeque o projeto presidencial, mas decide testar
resiliência do pré-candidato
E por falar em cinema, outro sucesso de
bilheteria é o sugestivo “Corra que a Polícia vem aí!”, comédia pastelão que,
entretanto, ao invés de risos, vem provocando lágrimas em parte do público de
Brasília. Nas telas ou nas ruas, a história recente mostra que a Polícia
Federal (PF) em ação tem força para abalar ou, até mesmo, sepultar
candidaturas.
Um dos personagens mais populares desse roteiro foi o “Japonês da Federal”, o temido agente Newton Ishii, que ganhou fama, nos tempos da Lava-Jato, ao escoltar presos célebres da investigação, como o empresário Marcelo Odebrecht, o ex-deputado Pedro Corrêa, o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto. Ele chegou a virar máscara e inspirar marchinhas no Carnaval de 2016: “Ai meu Deus, me dei mal, bateu na minha porta o Japonês da Federal”.
Ainda não surgiu o “Japonês da Federal” da
Operação Compliance Zero, que investiga a fraude bilionária do Banco Master.
Mas no passado como agora, o temor das batidas na porta ao amanhecer dos
agentes da PF é o mesmo, e vem tirando o sono de quem se relacionou com o
ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ou com seu entorno.
Na quarta-feira (13), enquanto o
pré-candidato à Presidência do PL, senador Flávio Bolsonaro (RJ), tentava
explicar os valores milionários ajustados com Daniel Vorcaro para financiar o
filme “Dark Horse” sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, circulavam rumores em
Brasília de que uma nova fase da operação seria deflagrada na manhã seguinte,
mirando outro cacique do Centrão, aumentando a ansiedade no Congresso.
A ação policial se confirmou, mas na sexta
fase da Compliance Zero, o alvo foi o pai do ex-banqueiro, Henrique Vorcaro.
Vale lembrar que a Lava-Jato estendeu-se por 80 fases, ao longo de sete anos.
Enquanto a investigação avança, a cúpula do
PL testa a resiliência da candidatura de Flávio Bolsonaro. Em retrospectiva, a
história demonstra que alguns candidatos resistem às denúncias, outros
sucumbem.
Foi assim em abril de 2002, quando uma
operação da PF abateu, em pleno voo, a pré-candidatura de Roseana Sarney, então
no PFL, ao Palácio do Planalto. Agentes apreenderam R$ 1 milhão em espécie, não
declarados, na sede da empresa Lunus de seu marido, Jorge Murad, e as imagens
das pilhas de dinheiro circulando intensamente na imprensa fulminaram o projeto
eleitoral de Roseana.
Na ocasião, o então senador José Sarney
(MDB-AP) foi a público acusar o ex-ministro da Saúde José Serra - pré-candidato
do PSDB à Presidência - de instrumentalizar a instituição contra sua família
para tirar Roseana do jogo. “Quem acredita, neste país, qual o idiota, que uma
ação desta magnitude seria armada sem que a máquina estatal de nada soubesse ou
dela não participasse? Quem nesse país não sabe que foi uma ação política suja,
com propósito determinado?”, desafiou Sarney da tribuna. Ao fim, Roseana
abortou o voo presidencial, e se elegeu senadora pelo Maranhão.
Outro clássico da política nacional foi o
“escândalo dos aloprados”, que atingiu a candidatura à reeleição do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. A duas semanas do primeiro turno, a polícia
deteve duas pessoas ligadas ao PT em um hotel em São Paulo, com R$ 1,1 milhão e
US$ 249 mil em espécie. A quantia seria para a compra de um suposto dossiê
contra José Serra, que disputava o governo paulista com o petista Aloizio
Mercadante.
Sobrevivente do escândalo do Mensalão, que
feriu o coração do PT, Lula enfrentava o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) -
hoje seu vice-presidente - nas urnas. Assim como se deu no caso Lunus, as
imagens das pilhas de dinheiro apreendido foram exploradas à exaustão no
noticiário e na propaganda da oposição. Mas em um efeito “teflon”, Lula saiu
ileso do episódio, e se reelegeu.
Chama a atenção como, em duas décadas, as
cifras dos desvios tenham aumentado exponencialmente, do “modesto” patamar de
R$ 1 milhão para valores na casa dos R$ 100 milhões. Na investigação que
envolve Flávio Bolsonaro, a quantia negociada com Vorcaro seria de R$ 134
milhões. Ainda em relação ao Banco Master, veio à tona o contrato de Vorcaro
com o escritório de Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes, no valor
de R$ 129 milhões.
A cúpula do PL sabe que a revelação dos laços
de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro coloca em xeque o projeto presidencial,
mas - alinhada com Jair Bolsonaro - decidiu testar a resiliência do
pré-candidato antes de partir para um substituto. Nos próximos dias, o senador
se revezará entre vídeos e entrevistas dando explicações sobre o áudio em que
combina com Vorcaro o repasse de recursos, enquanto seu time de campanha
monitora a reação do eleitor nas redes e nas pesquisas.
Na quinta-feira (14), circulou no mercado
financeiro a análise de uma consultoria sobre o impacto das denúncias ligando
Flávio a Vorcaro nas redes sociais. Sem surpresas, o monitoramento detectou
expressiva perda de credibilidade do postulante do PL. O volume de menções
negativas sobre ele nas 24 horas após a divulgação do áudio teve alta de sete
pontos percentuais. Segundo o relatório, 64,7% do que se falou no período sobre
Flávio nas plataformas foi negativo, sendo o pior desempenho desde que ele
estreou na corrida presidencial.

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