O Estado de S. Paulo
As sementes da enorme instabilidade que hoje se colhem foram plantadas por Evo, quando tentou se perpetuar no poder a qualquer custo
Pouco se fala, no Brasil, sobre a crise
política em que mergulhou a Bolívia nas últimas semanas. A desatenção é um
equívoco. Compartimos com o país vizinho a nossa maior fronteira, um gasoduto
importante e populações de imigrantes. Além disso, a cooperação bilateral é
chave para o combate ao crime organizado. A manutenção da ordem democrática na
Bolívia é do interesse do Brasil.
Vamos aos fatos. No começo de maio, partindo de distintos pontos do país, colunas de manifestantes convocadas pela Central Obrera Boliviana, sindicatos e movimentos ligados a trabalhadores mineiros e agricultores indígenas puseram-se a marchar em direção a La Paz. Pouco a pouco, a capital boliviana se viu cercada por bloqueios que impedem o acesso terrestre à cidade. Seguiram-se confrontos entre manifestantes e tropas da polícia e do Exército, que buscam desobstruir as estradas, com um saldo de quatro mortos, dezenas de feridos, centenas de presos e prédios públicos apedrejados. Agrava-se a cada dia o risco de desabastecimento de alimentos, medicamentos e combustível na capital boliviana. Há bloqueios também em outras regiões do país.
A mobilização se dá em protesto contra
medidas do governo. Com o virtual esgotamento das reservas cambiais, um déficit
público acima de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) e uma economia em recessão,
a situação tornou-se crítica a partir de 2024. Eleito há pouco mais de seis meses,
o presidente Rodrigo Paz, de centro-direita, busca encontrar saídas para uma
crise dramática.
Além de razões socioeconômicas, a mobilização
tem objetivo político, por influência do ex-presidente Evo Morales, que
governou a Bolívia entre 2005 e 2019, e continua a exercer liderança sobre
parte significativa da base social do Movimiento al Socialismo (MAS), partido
que ele fundou. Morales exige a renúncia do atual presidente.
As medidas de ajuste adotadas por Paz são uma
tentativa, quase desesperada, de lidar com o acúmulo de problemas herdados do
populismo distributivista adotado por Morales, que teve fôlego enquanto durou o
longo ciclo de alta do preço do gás, principal produto de exportação do país.
Faz dez anos, esse modelo passou a apresentar sintomas claros de fadiga. Por
falta de correções, entrou em colapso.
Para se manter no poder quando o populismo distributivista já não dava tantos frutos, Evo acentuou os traços autoritários de seu governo. Derrotado num referendo popular em 2016, arrancou do Tribunal Constitucional, sob seu controle, o direito a disputar pela quarta vez consecutiva um mandato presidencial.
Na apuração das eleições de outubro de 2019,
quando tudo indicava que Morales teria de enfrentar o candidato da oposição de
centro, Carlos Mesa, num segundo turno de resultado incerto, a totalização da
contagem foi subitamente interrompida. Quase um dia depois, quando
restabelecida, Evo se encontrava à frente com uma margem que lhe dava a vitória
em primeiro turno. Seguiramse acusações de fraude – referendadas por um
relatório da Organização dos Estados Americanos (OEA) e contestadas pelos
partidários do MAS – e protestos de rua. Nesse contexto, sobreveio um golpe de
Estado, liderado por forças de direita, com apoio dos militares, que obrigaram
Morales a renunciar e a se exilar no México.
As sementes da enorme instabilidade que hoje
se colhem foram plantadas por Evo, quando tentou se perpetuar no poder a
qualquer custo. Mesmo depois de deposto por um golpe militar, ele esteve em
condições de mudar o rumo dessa história. Em 2020, com seu apoio, seu
ex-ministro da Fazenda, Luís Arce, se elegeu presidente em primeiro turno, e o
MAS obteve maioria absoluta na Câmara e no Senado. Imaginou-se que Arce pudesse
pavimentar o caminho para um ajuste menos doloroso e traumático do que o que
agora se impõe. Ledo engano. Deu-se uma luta fratricida quando Arce buscou
construir bases próprias de poder e Evo, de volta à Bolívia, reagiu como de
hábito: mobilizando os seus fiéis em bloqueios e protestos na tentativa de inviabilizar
o governo.
As cenas que se veem agora têm sido
recorrentes na história da Bolívia nos últimos 50 anos. Depois da Revolução
Nacional-Popular de 1952, houve 12 anos de relativa estabilidade política,
assim como nos 12 primeiros anos da presidência de Evo Morales, em ambos os
casos, porém, com respeito apenas parcial às regras do jogo democrático. O
desafio agora é superar esse padrão histórico, combinando democracia,
estabilidade política e inclusão social, quesito no qual tanto a Revolução de 1952
quanto Morales promoveram avanços. Que a Bolívia supere esse desafio é do
interesse do Brasil e de toda a região.
Até o momento em que escrevo este artigo, o
governo brasileiro não se manifestou sobre a crise política boliviana. Deveria
fazê-lo, a exemplo do Uruguai, outro governo de centro-esquerda. Tentativas de
desestabilizar governos democraticamente eleitos devem ser condenadas, não
importa a coloração política que tenham.
Nota: Na noite da última segunda-feira, Lula
emprestou solidariedade ao presidente Rodrigo Paz, em telefonema ao presidente
boliviano. Antes tarde do que nunca.
*Diretor-Geral da Fundação FHC, é membro do Gacint-USP

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