domingo, 31 de maio de 2026

Da cooperação à intervenção, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Trump usa PCC, CV e Seção 301 para mandar no Brasil e dominar o ‘quintal dos Estados Unidos’

A classificação de PCC e CV como organizações terroristas, uma ameaça inaceitável à soberania brasileira, num contexto de intervenção na América Latina, pode não ser a única arma de Donald Trump contra o Brasil. Planalto, Itamaraty e setores alvos já se preparam para uma nova bomba: a conclusão do processo americano com base na Seção 301, que pode fazer grandes estragos na economia. O prazo está vencendo...

A Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA dá direito a Washington de investigar, retaliar e impor sanções a qualquer país, sob pretexto de práticas comerciais consideradas contra os interesses americanos. Ou seja, vale tudo. A abertura da ação citou de PIX à Rua 25 de Março em São Paulo. Seria cômico, não fosse trágico. Trump recuou do tarifaço de 50% e da aplicação da Lei Magnitsky, mas voltou com tudo ao trocar a relevante cooperação da PF com FBI e DEA por uma intervenção unilateral da CIA, que atua com espionagem e faz o que bem entende nos países, à revelia dos governos. Tudo com a 301 pairando no ar. Por trás desse movimento estão a eleição brasileira e a família Bolsonaro.

A intenção de Trump, o imperador do mundo, parece clara: transformar o Brasil num joguete nas suas mãos e consolidar o caminho para mandar no “quintal dos EUA”. Em tese, pode usar PCC e CV para impor navios na costa brasileira, espionar governos, empresas e organizações e, em última instância, promover ações armadas e prender nossos nacionais, como na Venezuela. Enquanto isso, avança sobre Cuba, México, Chile...

O mais estarrecedor nem é a loucura de Trump, mas a ação antipatriótica e traiçoeira dos Bolsonaro. Eles, porém, têm de combinar, não com os russos, mas com todos os brasileiros, que tendem a se dividir quanto a esse assalto à soberania na mesma proporção da polarização política. Por ora, o efeito imediato do ataque americano é que não se fala mais em Dark Horse, em pedido de R$ 134 milhões, no envio do “máximo” para os EUA, enquanto as forças políticas se realinham para as eleições em torno dos “terroristas” (como o próprio Lula passou a chamar) PCC e CV.

Flávio foca na segurança, no combate ao crime e no status de próximo da Casa Branca. Lula mira na democracia, na soberania e conclama os brasileiros a defenderem o Brasil contra a ingerência da potência. Caiado e Zema imaginam colher os frutos que caem das duas árvores.

O risco, porém, não é restrito ao campo e ao momento eleitoral, mas é principalmente para o depois, a partir de 2027. O que está em jogo é: o Brasil aceita uma intervenção americana, um governo submisso e um “imperador” mandando no País e no seu futuro?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.