Vários
intelectuais, ao longo da nossa história, adorariam poder definir ela como um
passo de saída do irracional à razão, mas infelizmente não é possível fazê-lo.
A complexidade dela ilustra que nossa caminhada não é simples, mas repleta de
avanços e retrocessos, com vários momentos de progresso e regressões.
No nível das condições materiais históricas de existência, a jornada progrediu muito, é indubitavelmente agregadora de melhoras e desde o início da modernidade e mais rapidamente desde a Revolução Industrial no final do século XVIII.
Ela tem seguido
assim, em velocidade crescente, até adquirir a vertigem dos tempos atuais
herdados da pandemia de 2020-2023. Os tempos da Quarta Revolução Industrial e o
surgimento e extensão de paradigmas instrumentais mais avançados e frequentes
abrem possibilidades inesperadas, assim como perigos e desafios inimagináveis
que podemos acompanhar com grande dificuldade ao longo da vida.
Fazemos isso em
meio ao espanto incompreensível e ao medo compreensível, porque nossas
capacidades destrutivas andam de mãos dadas com nossas capacidades construtivas
e não têm limites, uma percepção de Joseph Schumpeter (1883-1950) nos anos
1940, inspirada por sua vez nos escritos de Karl Marx (1818-1883) sobre o
desenvolvimento das forças produtivas, processo pelo qual as novas tecnologias
vão substituindo as existentes, que se tornam obsoletas.
Esse processo é
muito mais complexo, no que chamou Luiz Werneck Vianna (1938-2024) de A
modernização sem o moderno (2011), ou seja, no progresso de nossa
modernização ausente de coexistência, harmonia, com a resolução pacífica de
nossos conflitos, com pluralismo e respeito às regras acordadas
democraticamente.
Embora os Homo
sapiens também tenham feito enormes avanços nesse aspecto, esses
avanços são mais em ziguezague e frágeis, como ilustrou John Maynard Keynes
(1883-1946).
Embora possamos
considerar David Hume (1711-1776) cético, como nos mostra Renato Lessa, e
quando não pessimista, ao apontar que a história é pouco mais que um registro
de crimes e infortúnios, não é difícil perceber que o momento atual na história
não é de otimismo transbordante. Ela está em uma situação muito delicada.
Como bem sabemos,
a nossa história nunca foi totalmente razoável mesmo que após a Segunda Guerra
Mundial, que deixou um rio de sangue de cerca de 80 milhões de mortos, tenha
provocado um forte abalo na consciência do planeta.
Mesmo após essas
grandes tragédias históricas vividas pelas sociedades contemporâneas,
continuamos enfrentando dificuldades para consolidar valores como diálogo,
interação, cooperação, empatia e respeito coletivo, bem como fortalecer o senso
de dignidade e responsabilidade social. Sem esses princípios, o progresso
tecnológico fica sem os nossos condões planetários.
DeLorean
modificado do personagem Dr. Emmett Brown, utilizado para viajar no tempo em De
Volta para o Futuro (1985. Dir: Robert Zemeckis).
Isso levou a um conjunto de passos civilizadores e universalistas, como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), de 1946, e sua proteção às crianças contra o trabalho e que geraram progressos sem precedentes. Estes não evitaram conflitos e guerras locais, mas geraram um mundo mais habitável e, de alguma forma, mais justo, ao estabelecer regras de direito internacional que evitaram uma série de conflitos e limitaram abusos. Embora a sanidade não acabasse com a loucura, ela estabelecia limites, mitigava. A ameaça nuclear não se transformou em guerra nuclear.
Muitas mudanças
políticas, culturais e econômicas foram feitas na transição entre os séculos XX
e XXI. No entanto, essas mudanças que abalaram a correlação existente de forças
não significaram uma ruptura total com as modalidades existentes de
coexistência.
Foi isso que está
acontecendo. Há uma tensão para quebrar o progresso feito. Estamos longe de ver
uma simples mudança de orientação, um agravamento da situação geopolítica.
Estamos enfrentando a tentativa de ruptura com o esforço histórico feito há
mais de 80 anos para gerar as referências éticas, legais e políticas, nas quais
buscamos estabelecer alguns valores básicos e regras, talvez com mais do que um
pouco quimérica, mas sem questionar a paz como princípio, como um bem comum e
não como uma mercadoria negociável, e os direitos planetários como verdadeiros
direitos e não como meras prerrogativas temporais, que os fortes podem negar
aos fracos, quando necessário.
Nenhum Chefe de
Estado, por mais poderoso que seja, poderia então dizer frases como “vamos te
mandar de volta à Idade da Pedra” ou “esta noite uma civilização inteira
morrerá e nunca mais ressurgirá”.
Embora a Rússia
seja menos loquaz do que aquele que preside a mais antiga democracia moderna do
mundo, os Estados Unidos da América (EUA), eles não param de invadir seus
vizinhos e/ou de ameaçá-los.
Entre eles às
vezes mostram os dentes, mas respeitam a força, tudo é negociável e
relacionamentos não obedecem a valores e/ou visões do mundo, força e poder são
tudo. A democracia e o direito internacional parecem ser apenas obstáculos que
os contradizem.
Estamos sendo
empurrados para a lei da selva e do caos, os menos fortes devem obedecer e não
exigir limites porque meus únicos limites são aqueles que eu me imponho.
O que está em jogo
é derrotar a reorganização do mundo de acordo com os interesses dos poderosos,
disciplinar a história, que é anti-história, já que se trata de recriar o
mundo, e porque não se colocar como o enviado e eleito do criador, mesmo que
para isso seja necessário varrer o Papa para debaixo do tapete.
Nossa grande
ambição é moderação, é voltar para o futuro, à razão, antes que o mundo se
torne inóspito, não é buscar uma utopia, nem sonhar com o melhor de todos os
mundos, é tão-somente retomar a caminhada da história, com a qual vivíamos e
que buscámos melhorá-la cotidianamente.
Mudar a situação
atual, em algumas circunstâncias, é difícil, mas não impossível, porque sua
trajetória não é democrática e têm os mecanismos para perpetuar o poder.
Um mundo como o
atual não é bom para o Brasil, não responde aos seus valores e/ou interesses,
inclusive os expressos há pouco no trato do Congresso Nacional com o Poder
Executivo. Devemos contribuir para mudá-lo e exigir a reposição da nossa trajetória.
É tarefa de todos: das nossas eleições, do governo e dos cidadãos.
Mas é um sinal alvissareiro ver um Chefe de Estado tratar um outro com um I Love You.
*Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE e da Teia de Saberes.

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