O Estado de S. Paulo
Toda sociedade produz hierarquias, desigualdades e conflitos de razão e interesse. Mas democracias dignas deste nome procuram combater excessos
A oligarquia dos Poderes e a crise da
democracia é o título do livro de Joaquim Falcão, prestes a ser publicado. Foi
Falcão quem me presenteou, anos atrás, com How Democratic is the American
Constitution?, livro de Robert Dahl, um dos mais influentes cientistas
políticos norte-americanos no século 20, falecido em 2014. Nessa obra, Dahl
formula uma pergunta que considera tão relevante quanto assustadora: “Será que
os Poderes constitucionais dos Estados, do governo federal e dos três ramos
principais deste último são apropriados para as nossas necessidades e valores
democráticos de hoje?”
Dahl lembra que direitos implicam deveres e também oportunidades: o que significaria liberdade de expressão se não houvesse oportunidade de se manifestar livremente? E acrescenta um quarto elemento: os recursos para o exercício de direitos e oportunidades (e deveres), cujo caráter indispensável o autor ilustra ao auxílio de cenário ficcional.
Trata-se de uma reunião com alto número de
participantes e que deve alcançar importante decisão. O moderador anuncia que,
para assegurar a todos a liberdade de expressão, o uso da palavra estaria
limitado a dois minutos. Até aí tudo parece razoável. Deixa de sê-lo quando
acrescenta: “Depois que todos que quiserem falar tiverem exercido esse direito,
cada minuto adicional será leiloado para quem der o lance mais alto”. A grita
dos cidadãos reunidos seria imediata e contundente. Mas prossegue Dahl: “No
entanto, essa foi a decisão da Corte Suprema dos EUA no famoso caso Buckley
versus Valeo (1976).” A Corte decidiu que a garantia de liberdade de expressão
da Primeira Emenda da Constituição dos EUA restava violada pela legislação
eleitoral por força da imposição de limites de gastos a candidatos ou seus
simpatizantes. Gastar dinheiro para difundir mensagens políticas constitui, no
entendimento da Corte, forma de expressão protegida pela Constituição. Tendo
reconhecido a complexidade da discussão, Dahl conclui que “existem falhas
profundas numa constituição se a mais alta corte judiciária do país pode
interpretá-la de modo a impor barreira intransponível à obtenção de grau
satisfatório de igualdade política entre seus cidadãos”.
Passadas duas décadas dessa pertinente
reflexão, o aumento expressivo da concentração de riqueza observado desde então
tornou ainda mais relevante e oportuna a preocupação com o poder do dinheiro
nas eleições. Em particular, por meio dos chamados super PACs (“political
action committees”), que não podem doar diretamente a campanhas, mas podem
gastar sem limites em propaganda política (nas redes sociais, internet,
televisão) e que constituem o veículo por excelência de apoio financeiro de
megadoadores.
Em janeiro de 1961, em seu pronunciamento de
despedida da Presidência dos EUA, Dwight Eisenhower utilizou publicamente pela
primeira vez a expressão “Complexo Industrial Militar”. No discurso, alertou
para o crescente poder da aliança entre as Forças Armadas, a indústria de
armamentos e interesses políticos associados. A expressão teve enorme
repercussão à época porque Eisenhower havia sido presidente por dois mandatos e
comandante supremo das forças aliadas na Europa. Não lhe faltavam, portanto,
credenciais para alertar contra o risco de pressão pela agudização de
conflitos, levando a um estado permanente de mobilização para a guerra.
Nos dias atuais, a expressão mais apropriada
talvez fosse “complexo digital-industrial-militar”, dado o peso crescente das
grandes empresas de tecnologia e o inexorável uso da inteligência artificial na
indústria de armamentos. A propósito, Trump encaminhou ao Congresso
norte-americano pedido de aumento do orçamento de Defesa para US$ 1,5 trilhão
no ano fiscal que começa em 1.º de setembro deste ano. O orçamento para o ano
fiscal 2025/2026 já havia sido 20% maior do que o do ano anterior. Estamos no
quarto ano da guerra na Ucrânia. Estamos também no terceiro mês da guerra no
Oriente Médio, e sem perspectiva de solução duradoura à vista.
Exatos cem anos atrás, Whitehead escreveu:
“It is the business of the future to be dangerous.” A continuação dessa frase é
igualmente importante: “And it is among the merits of science to equip the
future for its duties” (e está dentre os méritos da ciência o de equipar o
futuro para suas tarefas). A tecnologia pode prestar enormes serviços para o
progresso da humanidade nas áreas de saúde, educação, energia, clima e meio
ambiente, mas também, infelizmente, para a violência e o conflito. E, se é
verdade que a guerra, a violência e o conflito têm um longo passado, também é
verdade que parecem ter um longo futuro.
Toda sociedade produz hierarquias,
desigualdades e conflitos de razão e interesse. Mas democracias dignas deste
nome procuram combater excessos de velhas e novas formas de desigualdades,
conter inclinações autoritárias e lidar com conflitos sem recurso à violência
ou apelos a pretensos “salvadores da pátria”. A exemplo da obra de Dahl, o
livro de Falcão também faz perguntas assustadoras que têm relevância e
importância, e avalia como estamos nesse processo no Brasil de hoje.
Mães, feliz dia! •

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.