Valor Econômico
Lista de pagamentos de Daniel Vorcaro eleva
exponencialmente os patamares da corrupção na política brasileira
Em 2003, a esposa do então presidente da
Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha, sacou R$ 50 mil na agência do Banco
Rural em Brasília. Esse valor teria sido transferido pelo publicitário Marcos
Valério, operador de um grande esquema de corrupção batizado dois anos depois
por Roberto Jefferson de “Mensalão”.
O nome vinha de uma suposta rotina de
pagamentos periódicos para parlamentares e partidos da base aliada no primeiro
mandato de Lula para se posicionarem a favor do governo em votações
importantes.
De acordo com reportagens da época, o “valerioduto” abastecia os bolsos de políticos no varejo com dezenas ou centenas de milhares de reais. Já os líderes partidários foram destinatários de quantias mais expressivas. Valdemar Costa Neto levou R$ 8,8 milhões para o PL, o falecido José Janene e seus colegas Pedro Henry e Pedro Corrêa teriam movimentado R$ 11 milhões em nome do PP e o próprio Roberto Jefferson conseguiu R$ 4 milhões para o PTB.
Anos mais tarde, as delações de executivos
que integravam um cartel de empreiteiras que superfaturava obras públicas
revelaram uma mudança de patamar na distribuição de recursos para políticos.
Malas de dinheiro e contas bancárias em paraísos fiscais foram irrigadas, numa
prática impossível de distinguir o que era caixa dois eleitoral ou propina pura
e simples. Desta feita, centenas de parlamentares de praticamente todos os
partidos teriam sido contemplados.
A “delação do fim do mundo” dos diretores da
Odebrecht levou ao indiciamento de 74 políticos. Os valores partiam de R$ 100
mil (Antônio Brito, Agripino Maia, Paes Landim) e chegavam aos R$ 35 milhões
não declarados na candidatura da ex-presidente Dilma Rousseff à reeleição em
2014.
Mas não foram apenas as construtoras que se
valeram dessa prática. Joesley Batista admitiu para o Ministério Público: “Eu
procurava atender aos pedidos de partidos e políticos, em período eleitoral ou
não, porque esperava criar um reservatório de boa vontade para obter
contrapartidas para as minhas empresas”.
Na lista de pagamentos informada às
autoridades, estavam desde os R$ 2 milhões pedidos por Aécio Neves (PSDB) para
pagar advogados até os R$ 30 milhões que teriam sido entregues ao longo dos
anos a Eduardo Cunha - fora inúmeros outros acertos a deputados, senadores,
governadores e ministros, todos na casa dos sete ou oito dígitos.
Em resposta à Operação Lava-Jato, o STF
proibiu as doações de empresas para campanhas eleitorais. O argumento era que
elas desvirtuavam a política, gerando uma influência indevida nas decisões
governamentais. Na sequência, o Congresso tratou de ampliar o acesso a recursos
públicos para financiar as atividades partidárias e eleitorais.
Atualmente, o sistema é alimentado com
transferências anuais de R$ 1,3 bilhão a título de fundo partidário e mais
quase R$ 5 bilhões a cada eleição, de dois em dois anos. De forma paralela, os
parlamentares trataram de assegurar para si próprios a distribuição de R$ 40
bilhões a R$ 50 bilhões por ano em emendas orçamentárias de execução
obrigatória para os fins que deputados e senadores determinarem.
Mesmo com a adoção do financiamento público
de campanhas e a terceirização de uma fatia importante do orçamento para os
políticos, novos escândalos não deixaram de aparecer. Pelo contrário, a
contabilidade do Master mudou a escala da influência e da corrupção no Brasil.
A unidade mínima de contagem passou a ser milhões - dezenas ou centenas deles.
Mesmo que alguns dos pagamentos possam estar
associados a serviços prestados de modo legítimo, as cifras envolvidas não
encontram paralelo nas práticas de mercado.
Do que a imprensa apurou até agora, Vorcaro
contratou a peso de ouro a assessoria de expoentes do mundo econômico e
político em governos anteriores, com bom trânsito em Brasília: Guido Mantega
(R$ 14 milhões), Michel Temer (R$ 10 milhões), Henrique Meirelles (R$ 8
milhões) e Ricardo Lewandowski (R$ 6 milhões), entre outros.
O contrato com o escritório da esposa e
filhos de Alexandre de Moraes previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões,
podendo chegar a R$ 129 milhões ao final de sua vigência, interrompida com a
liquidação do banco. Já as transações com as cotas do resort Tayayá de propriedade
da empresa da família de Dias Toffoli teriam atingido R$ 35 milhões.
Mais recentemente, de acordo com trocas de
mensagens identificadas pela Polícia Federal, há suspeitas de pagamento de um
“mensalão” de R$ 500 mil ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) e os áudios revelados
pelo portal The Intercept Brasil não deixam dúvidas que Flávio Bolsonaro
solicitou a Vorcaro R$ 134 milhões para a produção do filme sobre seu pai -
sendo que R$ 61 milhões chegaram a ser transferidos.
De dezenas de milhares a centenas de milhões,
fora os bilhões em fundões e emendas: em vinte anos, o sistema
político-partidário-eleitoral brasileiro tornou-se não apenas disfuncional,
como muito mais permeável à corrupção.
E a sociedade brasileira trata como dores de
barriga eventuais uma metástase que se alastra pela República.

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