Valor Econômico
Uma análise mais profunda dos dados da Pnad
Contínua mostra que alguns problemas antigos permanecem, embora em menor escala
O mercado de trabalho tem apresentados alguns
indicadores bastante favoráveis nos últimos meses. Forte capacidade de geração
de empregos, desemprego em queda, renda em alta e redução da informalidade são
atributos desejáveis em qualquer mercado de trabalho. E isso tem acontecido no
Brasil a ponto de até mesmo se ouvirem comentários de que estaríamos em
situação de pleno emprego, ou quase lá.
Mas uma leitura mais cuidadosa dos dados da Pnad Contínua do IBGE mostra que nem tudo são flores. Alguns problemas antigos permanecem, embora em menor escala, mas estão aí para serem reconhecidos e enfrentados.
Vejamos inicialmente o desemprego. No
primeiro trimestre deste ano, a taxa não passou de 6,1%, bem abaixo dos 7% de
um ano atrás e dos 8,8% do primeiro trimestre de 2023. Sem dúvida, uma ótima
evolução, mas que ainda representa 6,6 milhões de pessoas desocupadas no início
de 2026. A contrapartida dessa queda foi o forte aumento da ocupação, com 102
milhões de pessoas ocupadas, 1,5 milhão a mais em relação há um ano. Por sinal,
neste começo de ano, havia 39,2 milhões de pessoas ocupadas no setor privado
com carteira assinada, representando o maior valor de toda a série da Pnad
Contínua. Tal dado se reflete de alguma forma na maior taxa de contribuintes
para a Previdência Social desde o início do levantamento da Pnad Contínua (66,9
%)
O total de pessoas subutilizadas fornece um
quadro bem mais amplo da situação do que olhando apenas para o desemprego. No
primeiro trimestre de 2026, havia 16,3 milhões de pessoas subutilizadas,
incluindo, além dos 6,6 milhões de desocupados, 4,4 milhões de subutilizados
por insuficiência de horas trabalhadas e 5,3 milhões na força de trabalho
potencial, dos quais 2,9 milhões desalentados. Tais números, embora
impressionantes, são bem melhores que as 21,2 milhões de pessoas subutilizadas
do primeiro trimestre de 2023.
Olhando apenas para os ocupados, verifica-se
que das 102 milhões de pessoas ocupadas no primeiro trimestre de 2026, 38,1
milhões estavam na informalidade, representando uma taxa de 37,3% do total de
ocupados. É verdade que essa taxa vem caindo, mas ainda representa uma enorme
parcela da população ocupada. São considerados como informais pelo IBGE:
empregados no setor privado sem carteira de trabalho assinada; empregados
domésticos sem carteira de trabalho assinada; empregadores sem registro no
CNPJ; trabalhadores por conta própria sem registro no CNPJ; e trabalhadores
familiares auxiliares.
Com relação ao nível médio de rendimento do
trabalho, houve crescimento desde 2022, atingindo, no primeiro trimestre de
2026, o maior valor da série (R$ 3.722). O crescimento do rendimento médio e o
aumento do número de ocupados produziram também a maior massa de rendimentos do
trabalho no país no início de 2026 (R$ 375 bilhões mensais).
Sem dúvida, os números acima confirmam forte
melhora do mercado de trabalho do país ao longo do atual governo. Mas daí a se
falar em pleno emprego há uma grande diferença. Como poderia haver pleno
emprego, ou algo parecido, num país com 16,3 milhões de pessoas subutilizadas,
das quais 6,6 milhões estão desempregadas? Cabe acrescentar que a subutilização
atinge, principalmente, mulheres, pessoas jovens, pretas e pardas. Há importantes
diferenciais regionais, com taxas mais elevadas na região Nordeste e mais
baixas na região Sul.
Enquanto se discute a redução da jornada, 4,4
milhões de pessoas trabalham menos horas do que gostariam
A recente divulgação pelo IBGE dos dados de
renda da população em 2025 acrescenta uma nova dimensão para a análise do
mercado de trabalho. Além do rendimento do trabalho, ela cobre outras fontes de
renda como pensões, aposentadorias, Bolsa Família, BPC, seguro-desemprego,
aluguéis, ganhos financeiros etc. O rendimento do trabalho representa 75,1% do
total de rendimentos dos domicílios, seguindo-se as pensões e aposentadorias
com 16,4% e as diversas transferências dos programas sociais do governo com
3,5%. Em outras palavras, a renda gerada no mercado de trabalho é responsável
por três quartos de todo o rendimento dos domicílios.
A renda média mensal domiciliar per capita
(R$ 2.264) atingiu, em 2025, seu maior valor em toda a série histórica da Pnad
Contínua, mas os desníveis regionais são enormes, variando entre R$ 1.231 no
Maranhão e R$ 4.401 no Distrito Federal. O rendimento do trabalho é a principal
fonte da renda domiciliar em todas as regiões do país, entre 67,4% no Nordeste
e 78,9% no Centro-Oeste. São dados que mais uma vez confirmam as enormes disparidades
de rendimentos no país.
Voltando à questão destacada no título do
artigo, não queremos negar que possa estar havendo falta de mão de obra em
alguns setores e em determinadas ocupações, mas isso parece ser mais pontual do
que disseminado pela economia. Uma importante questão que se coloca nesse
momento é sobre o que pode ser feito para diminuir a população subutilizada. Ao
mesmo tempo em que o país discute a redução da jornada máxima de trabalho, 4,4
milhões de pessoas afirmam trabalhar menos horas do que gostariam. Parece um
paradoxo, mas confirma que importante parcela da população poderia ser melhor
utilizada no mercado de trabalho.
Como reduzir a força de trabalho potencial de
5,3 milhões de pessoas, que não trabalham, não procuram emprego, mas que
gostariam de trabalhar e estão disponíveis? Ou aquelas que não trabalham,
procuram emprego, mas não podem assumir a vaga por alguma razão? Como reduzir o
desalento das 2,2 milhões de pessoas que também gostariam de trabalhar, estavam
disponíveis, mas não procuram trabalho por acreditar que não encontrarão vagas?
E ainda tem a inteligência artificial chegando com força, o que deverá trazer
novos complicadores para o mercado de trabalho.
Esses são alguns desafios, cujas respostas
não são simples, mas devem ser procuradas, encontradas e implementadas.
Certamente, tais respostas passam por uma maior qualificação da força de
trabalho, procurando ajustar a oferta à demanda do mercado. Passam pela
melhoria do ensino público em geral, inclusive pelo maior desenvolvimento da
educação profissional. Passam também pela ampliação de vagas na educação
infantil (creche e pré-escola), permitindo que as mães possam voltar ao mercado
de trabalho depois do nascimento de seus filhos e filhas. Enfim, trata-se de um
amplo conjunto de políticas públicas que poderia ser utilizado para ampliar as
possibilidades de inclusão e permanência da população no mercado de trabalho.
*João Saboia é professor emérito do Instituto de Economia da UFRJ

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