O Estado de S. Paulo
Há brechas para que Mendonça rejeite a
delação de Vorcaro, mesmo com o aval da PGR
A rejeição da delação premiada de Daniel
Vorcaro, ex-dono do Banco Master, pela Polícia Federal deixou uma nódoa sobre o
processo, mas, juridicamente, ele segue de pé.
A PF desconfia que Vorcaro está protegendo
políticos. Seu receio se fundamenta nas provas que já colheu durante as
investigações e que vão além do que Vorcaro ofereceu.
Mas o titular da ação penal é a
Procuradoria-Geral da República (PGR), que não precisa da PF para selar essa
delação.
Na PGR, a visão é oposta. Dizem que não falta seriedade do ex-banqueiro e de sua defesa e que não faz sentido bater a porta de uma possível colaboração. Querem aguardar uma contraproposta.
Juridicamente, portanto, o processo segue
perfeito. Haveria dúvidas se a PF decidisse fechar sozinha a delação. O nó
político, porém, persiste por conta das desconfianças que pesam sobre o
procurador-geral, Paulo Gonet.
Se a PGR decidir aceitar a delação de
Vorcaro, caberá ao ministro-relator do caso, André Mendonça, homologar o
processo com base nos princípios da legalidade e da voluntariedade.
Na homologação, Mendonça não entra no mérito
da causa. Os juízes só julgam o mérito na fase final do processo, já com a
instrução pronta e outros acusados na fila.
Mas o relator pode opinar se o que foi
oferecido pelo colaborador é suficiente para justificar os benefícios que
recebeu e para ressarcir os prejuízos que causou.
Mendonça vem sinalizando que não aceitará
valores irreais, nem prazos dilatados que permitam contestações no futuro. A
experiência da Lava Jato mostra que essas multas acabam não sendo pagas.
Há brechas, portanto, para que o relator
rejeite a delação, mesmo com o aval da PGR. Não há na história recente
precedentes de um delator que tenha agravado a decisão e recorrido à Turma, mas
isso é possível pela legislação.
A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal é
composta pelos ministros Gilmar Mendes, Kassio Nunes Marques, Dias Toffoli e o
próprio Mendonça.
Com Toffoli impedido no caso Master, aqui
está o risco de um embate inédito dentro do Supremo provocado pela delação de
Vorcaro.
Ninguém arrisca, numa fase tão anterior do
processo, dizer quais seriam os votos dos ministros. Mas o histórico de
“punitivistas” e “garantistas” do STF não descartaria um empate.
Na dúvida, a legislação criminal é pró-réu.
Mas há interpretações de que seria necessário aguardar a indicação de um novo
ministro da Corte para resolver o impasse. Existem chances, portanto, de
Vorcaro oferecer pouco e, ainda assim, escapar.

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