quarta-feira, 27 de maio de 2026

Encontro com Flávio representa entrada oficial de Trump no processo eleitoral brasileiro, por César Felício

Valor Econômico

Para quem tinha alguma dúvida, senador é o candidato da Casa Branca para a sucessão de Lula

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entrou de maneira oficial, na terça-feira (26), na campanha presidencial brasileira. É até o momento o principal cabo eleitoral do senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ) fora do âmbito partidário. Proporcionou a Flávio, no pior momento de sua pré-campanha, a “photo opportunity” que nenhum hierarca do Centrão ou governador aliado criou. Flávio, para quem tinha alguma dúvida, é o candidato da Casa Branca para a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

encontro do senador no gabinete de Trump é funcional para a campanha bolsonarista em diversas camadas: a mais relevante é a que valida o senador como um candidato competitivo no momento em que o primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro cai nas pesquisas, em função do seu envolvimento com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, a quem pediu dinheiro para a conclusão de um filme e visitou em casa com o escândalo do Banco Master já em curso.

A segunda camada em que a Casa Branca ajuda a oposição no Brasil é a da troca de agenda. Se Flávio não tivesse viajado às pressas para se encontrar com Trump teria que dar explicações das declarações do presidente de seu partido, Valdemar Costa Neto , sobre a natureza da sua visita a Vorcaro em dezembro. Em entrevista à Globonews, Valdemar deu a entender que o senador tinha ido atrás do ex-banqueiro para pedir mais dinheiro. Flávio seria instado também a falar do enrolado ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL), que foi alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) na manhã de terça, também desdobramento das investigações a respeito do Banco Master, no caso em relação às aplicações da Rioprevidência.

O impacto eleitoral imediato da foto é limitado. Trump é uma figura impopular no Brasil, por ter sancionado o país no ano passado como forma de pressão política a favor de Bolsonaro, depois de uma intensa articulação do irmão do senador, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. A presença de Trump como cabo eleitoral pode até ser explorado por Lula, em uma cartada nacionalista. Como disse a historiadora americana Anne Applebaum, em entrevista ao jornal O Globo, eleitorados no mundo inteiro não gostam de intromissão externa em seus assuntos domésticos. Ainda assim, a validação de Trump gera um efeito mobilizador da base.

Mas o efeito mais decisivo da interferência americana na política brasileira está ainda a ser descoberto, porque não se tem a versão de Trump sobre o que foi conversado, junto com Eduardo Bolsonaro e o influenciador Paulo Figueiredo. Mais do que dar declarações ao vivo, postar em redes sociais ou posar para fotos, Trump pode agir para favorecer Flávio ou prejudicar Lula. É certamente em relação a esse ponto que as preocupações do Palácio do Planalto serão maiores.

O contencioso diplomático e comercial entre Brasil e Estados Unidos não se encerrou. Trump e Lula tiveram uma longa conversa no início deste mês, sem que nada tenha vindo à tona. Mesmo depois desse encontro, Trump manteve opções abertada para novas sanções contra o Brasil na área econômica no âmbito da chamada seção 301, que permite retaliações pontuais contra países que o governo americano entenda terem práticas comerciais desleais. O tempo dirá se a ofensiva política de Trump poderá ser amortecida por algum processo negocial entre Brasil e Estados Unidos.

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