Valor Econômico
Para quem tinha alguma dúvida, senador é o
candidato da Casa Branca para a sucessão de Lula
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entrou de maneira oficial, na terça-feira (26), na campanha presidencial brasileira. É até o momento o principal cabo eleitoral do senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ) fora do âmbito partidário. Proporcionou a Flávio, no pior momento de sua pré-campanha, a “photo opportunity” que nenhum hierarca do Centrão ou governador aliado criou. Flávio, para quem tinha alguma dúvida, é o candidato da Casa Branca para a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O encontro
do senador no gabinete de Trump é funcional para a campanha
bolsonarista em diversas camadas: a mais relevante é a que valida o senador
como um candidato competitivo no momento em que o primogênito do ex-presidente
Jair Bolsonaro cai nas pesquisas, em função do seu envolvimento com o
ex-banqueiro Daniel Vorcaro,
a quem pediu dinheiro para a conclusão de um filme e visitou em casa com o
escândalo do Banco
Master já em curso.
A segunda camada em
que a Casa Branca ajuda a oposição no Brasil é a da troca de agenda. Se Flávio
não tivesse viajado às pressas para se encontrar com Trump teria que dar
explicações das declarações do presidente de seu partido, Valdemar Costa
Neto , sobre a natureza da sua visita a Vorcaro em dezembro. Em entrevista à
Globonews, Valdemar deu a entender que o senador tinha ido atrás do
ex-banqueiro para pedir mais dinheiro. Flávio seria instado também a falar do
enrolado ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL), que foi alvo de uma operação
da Polícia Federal (PF) na manhã de terça, também desdobramento das
investigações a respeito do Banco Master, no caso em relação às aplicações da
Rioprevidência.
O impacto eleitoral
imediato da foto é limitado. Trump é uma figura impopular no Brasil,
por ter sancionado o país no ano passado como forma de pressão política a favor
de Bolsonaro, depois de uma intensa articulação do irmão do senador, o
ex-deputado Eduardo Bolsonaro. A presença de Trump como cabo eleitoral pode até
ser explorado por Lula, em uma cartada nacionalista. Como disse a historiadora
americana Anne Applebaum, em entrevista ao jornal O Globo, eleitorados no mundo
inteiro não gostam de intromissão externa em seus assuntos domésticos. Ainda
assim, a validação de Trump gera um efeito mobilizador da base.
Mas o efeito mais decisivo da interferência
americana na política brasileira está ainda a ser descoberto, porque não se tem
a versão de Trump sobre o que foi conversado, junto com Eduardo Bolsonaro e o
influenciador Paulo Figueiredo. Mais do que dar declarações ao vivo, postar em
redes sociais ou posar para fotos, Trump pode agir para favorecer Flávio ou
prejudicar Lula. É certamente em relação a esse ponto que as preocupações do
Palácio do Planalto serão maiores.
O contencioso diplomático e comercial entre
Brasil e Estados Unidos não se encerrou. Trump e Lula tiveram uma longa
conversa no início deste mês, sem que nada tenha vindo à tona. Mesmo depois
desse encontro, Trump manteve opções abertada para novas sanções contra o
Brasil na área econômica no âmbito da chamada seção 301, que permite
retaliações pontuais contra países que o governo americano entenda terem
práticas comerciais desleais. O tempo dirá se a ofensiva política de Trump
poderá ser amortecida por algum processo negocial entre Brasil e Estados
Unidos.

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