quarta-feira, 27 de maio de 2026

Discursos em plenário que pouco falam, por Fernando Exman

Valor Econômico

É difícil acreditar que o Estado não repassará a conta, de maneira a manter a arrecadação

O senador Flávio Bolsonaro subiu à tribuna da Câmara dos Deputados, durante a sessão em que o Congresso Nacional derrubaria uma série de vetos presidenciais, e rapidamente foi ladeado por um punhado de aliados que dependem de um impulso nas eleições de outubro. Em outros tempos, o espaço da tribuna seria respeitado e o plenário se silenciaria. Todos ouviriam com atenção a aguardada explicação do principal candidato da oposição à Presidência da República sobre sua relação com Daniel Vorcaro, do Banco Master, pivô do maior escândalo financeiro do país.

Apartes seriam feitos aqui e ali, tanto de aliados como de adversários. Ainda que não conseguisse estancar a crise por completo, o pré-candidato do PL manteria o “ar presidencial” que assustara aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) semanas antes, naquele mesmo ambiente, quando a oposição impunha importantes derrotas ao Palácio do Planalto.

Mas seu pronunciamento durou apenas quatro minutos. E foi feito para um plenário praticamente vazio. Em vez de justificativas, pediu, de forma teatral, a instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o caso Master.

Flávio Bolsonaro já ia saindo, quando percebeu que pelo menos um governista conseguiria obter a palavra do presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União-AP). Ficou.

Para contrapô-lo, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) usou a prerrogativa de discursar utilizando o tempo da liderança da maioria. Como o petista citou nominalmente o adversário, inadvertidamente ou de forma proposital, o senador teve ainda o direito de replicar. No entanto, o debate não prosseguiu: a deputada Erika Kokay (PT-DF) até pediu, mas não recebeu a palavra. Foi uma vitória parcial de Flávio, que na verdade tinha entrado em campo para viabilizar a produção de conteúdo para cortes nas redes sociais.

Este não foi um fato isolado. É um sinal dos tempos.

Um estudo do consultor legislativo do Senado Federal Pedro Duarte Blanco, da área de pronunciamentos, analisou mudanças nas falas feitas na Casa nos últimos anos. Realizado por meio de técnicas computacionais e Inteligência Artificial (IA), o trabalho foi publicado em dezembro de 2025. Ou seja, não tem relação direta com esse pronunciamento específico de Flávio Bolsonaro. No entanto, joga luz sobre um dos mais nobres espaços da política.

Segundo “Plenário, Palanque, Estúdio - Discursos no Plenário do Senado Federal entre 2007 e 2024”, os discursos nesse período ficaram mais curtos, menos interativos, com uma redução de 90% nos apartes. Em meio ao crescimento da importância das redes sociais na estratégia de comunicação dos parlamentares e da polarização política, o trabalho sugere que o plenário perdeu seu “caráter dialógico” e se converteu “em espaço de monólogos destinados ao público virtual”, embora seu autor também pondere que há sinais de possível reversão dessas mudanças.

O texto mostra que 2013, marcado pelas chamadas “jornadas de junho”, foi de longe o ano em que mais se falou no plenário do Senado. Foram cerca de 6,5 mil discursos, muitos deles no contexto das discussões sobre mudanças constitucionais que atenderiam ao pleito popular ou de possível convocação de uma constituinte exclusiva para reformar o sistema político. O ponto baixo da série analisada foi 2020, em razão da pandemia.

Em geral, aponta o consultor legislativo, a queda substancial nos apartes sugere uma redução do diálogo entre os parlamentares em plenário. Além disso, foi possível captar sinais de “mansplaining”, ou seja, o comportamento atribuído aos homens que fazem explicações desnecessárias a mulheres. O termo é bastante difundido nos debates sobre gênero e evidencia o desrespeito às mulheres na vida privada, no trabalho e na atividade pública.

Os gráficos do estudo também demonstram uma maior interação das senadoras entre si. “Essa correlação sustenta a hipótese de que os apartes ganharam, ao menos na representação de gênero, um caráter estratégico, constituindo-se em meio de articulação de pautas femininas.”

Em suas conclusões, Pedro Duarte Blanco anota que as tendências observadas na pesquisa demandam preocupação e reflexão. “Considerando as virtudes do Poder Legislativo como esfera pública - ainda que imperfeita -, subordinar o plenário às redes sociais significa delegar as suas funções a uma instância privada, à margem de um regime político-jurídico republicano.”

Naquela última sessão do Congresso, Flávio deixou o plenário sem falar do encontro que manteve com Daniel Vorcaro após a prisão domiciliar do ex-banqueiro. Coube ao próprio presidente do PL, Valdemar Costa Neto, contradizê-lo em entrevista à GloboNews. Na opinião do dirigente partidário, Flávio Bolsonaro foi à casa de Vorcaro na tentativa de obter o restante dos recursos para bancar o filme em homenagem ao pai - e não para cortar relações, como foi dito pelo aliado.

A estratégia do senador também poupou-o de ter que rebater eventuais apartes constrangedores. Até mesmo entre aliados no PL e potenciais doadores no setor privado, há quem pergunte sobre o que poderia ainda surgir do material apreendido pela Polícia Federal (PF) e a real destinação dos recursos direcionados à empreitada bolsonarista.

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