O Globo
Senador apresenta versões conflitantes, expõe
fragilidade e evidencia amadorismo de seu entorno diante de revelação de pedido
de milhões a Vorcaro
Em pouco mais de 24 horas, Flávio Bolsonaro
já apresentou três versões diferentes para explicar as conversas em que, em tom
para lá de camarada e subserviente, pede a bagatela de R$ 134 milhões ao
banqueiro Daniel Vorcaro, já enrolado com as investigações sobre o que até
então eram muitos indícios de fraudes cometidas pelo Banco Master.
A última atualização da justificativa foi feita na entrevista ao vivo que concedeu aos jornalistas Malu Gaspar, Julia Duailibi e Octavio Guedes ontem na GloboNews. Os dois eixos principais foram: 1) negar que o dinheiro efetivamente repassado por Vorcaro tenha sido usado para custear a estadia de seu irmão Eduardo nos Estados Unidos; e 2) dizer que não revelou antes ter mantido contato com Vorcaro em razão de um contrato de confidencialidade.
Como, por óbvio, a confidencialidade já não
existe mais, o contrato precisa ser mostrado, em todas as suas cláusulas. Isso
porque, questionado a respeito de Vorcaro, mesmo sendo tão pródigo ao fazer Pix
de milhões a políticos a torto e a direito, nunca ter feito isso por caridade,
Flávio apontou a razão por que ele havia topado “investir” na produção “Dark
Horse”: lucrar com seu grande sucesso.
Portanto, precisa forçosamente existir um
contrato formal, estabelecendo as condições pelas quais Vorcaro aceitou
coproduzir um filme mais caro que 15 dos 20 últimos vencedores do Oscar, sem
ter o nome de seu banco nos créditos. Levaria quanto? Se havia o tal contrato,
qual a razão para Flávio mandar uma mensagem dizendo a Vorcaro que, se não fosse
possível honrar o combinado, ele poderia avisar para que, então, o filho
diligente pudesse “buscar de outra fonte” o dinheiro para a cinebiografia do
pai?
Flávio claramente objetivava, com a
entrevista, afetar indignação e se “diferenciar” do que chamou de “relações
espúrias” entre Vorcaro e o PT, muito embora o escândalo do Master não tenha
até agora chegado tão perto de Lula quanto está dele e de outros aliados de
primeira hora do clã Bolsonaro, como o senador Ciro Nogueira — a quem, aliás,
ele não se esforçou nem um pouco em defender.
Conseguiu, no entanto, deixar mais perguntas
sem respostas e comprovar o que aliados, expoentes do mercado e opositores já
apontavam desde a véspera: o amadorismo de sua assessoria, sua fragilidade
quando confrontado com questões espinhosas e a falta de entusiasmo que existe
na própria direita com sua candidatura, enfiada goela abaixo dos apoiadores por
Jair Bolsonaro.
Essa estrutura precária, que vem se
sustentando única e exclusivamente porque ele conseguiu rapidamente ascender
nas pesquisas e empatar com Lula no segundo turno, ameaça ruir se ele não
conseguir um álibi melhor para conversa tão constrangedora com o banqueiro
responsável por uma fraude bilionária no sistema financeiro e, fato que ele não
consegue refutar, por provocar, sim, rombos em entes públicos, como a
Previdência do Rio, administrada por aliados da família Bolsonaro.
A quinta-feira foi marcada pela busca, por
parte do mercado financeiro, de compreender a extensão do dano no casco da
candidatura de Flávio. A chance de vitória de Lula passou a ser considerada bem
maior que na véspera, e a sensação de que ainda pode haver novas revelações
levava os tomadores de decisão a incluir a possibilidade de troca de candidato
nas projeções.
A estrutura mambembe de comunicação do
candidato, cujos cabeças são também personagens das ligações com o ecossistema
de Vorcaro, foi outro fator a alarmar os aliados. Por fim, a rapidez com que
diferentes expoentes da direita trataram de rifar o filho Zero Um de Jair
surpreendeu aqueles que a princípio achavam que a nota pífia de Flávio
estancaria a sangria. Os próximos dias serão cruciais para definir se a
pré-candidatura dele para em pé ou se ficará evidente que era um bibelô de
vidro de um pai preocupado apenas em manter o poder em seu círculo familiar — e
se quebrou.

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