sexta-feira, 15 de maio de 2026

Era vidro e se quebrou? Por Vera Magalhães

O Globo

Senador apresenta versões conflitantes, expõe fragilidade e evidencia amadorismo de seu entorno diante de revelação de pedido de milhões a Vorcaro

Em pouco mais de 24 horas, Flávio Bolsonaro já apresentou três versões diferentes para explicar as conversas em que, em tom para lá de camarada e subserviente, pede a bagatela de R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, já enrolado com as investigações sobre o que até então eram muitos indícios de fraudes cometidas pelo Banco Master.

A última atualização da justificativa foi feita na entrevista ao vivo que concedeu aos jornalistas Malu Gaspar, Julia Duailibi e Octavio Guedes ontem na GloboNews. Os dois eixos principais foram: 1) negar que o dinheiro efetivamente repassado por Vorcaro tenha sido usado para custear a estadia de seu irmão Eduardo nos Estados Unidos; e 2) dizer que não revelou antes ter mantido contato com Vorcaro em razão de um contrato de confidencialidade.

Como, por óbvio, a confidencialidade já não existe mais, o contrato precisa ser mostrado, em todas as suas cláusulas. Isso porque, questionado a respeito de Vorcaro, mesmo sendo tão pródigo ao fazer Pix de milhões a políticos a torto e a direito, nunca ter feito isso por caridade, Flávio apontou a razão por que ele havia topado “investir” na produção “Dark Horse”: lucrar com seu grande sucesso.

Portanto, precisa forçosamente existir um contrato formal, estabelecendo as condições pelas quais Vorcaro aceitou coproduzir um filme mais caro que 15 dos 20 últimos vencedores do Oscar, sem ter o nome de seu banco nos créditos. Levaria quanto? Se havia o tal contrato, qual a razão para Flávio mandar uma mensagem dizendo a Vorcaro que, se não fosse possível honrar o combinado, ele poderia avisar para que, então, o filho diligente pudesse “buscar de outra fonte” o dinheiro para a cinebiografia do pai?

Flávio claramente objetivava, com a entrevista, afetar indignação e se “diferenciar” do que chamou de “relações espúrias” entre Vorcaro e o PT, muito embora o escândalo do Master não tenha até agora chegado tão perto de Lula quanto está dele e de outros aliados de primeira hora do clã Bolsonaro, como o senador Ciro Nogueira — a quem, aliás, ele não se esforçou nem um pouco em defender.

Conseguiu, no entanto, deixar mais perguntas sem respostas e comprovar o que aliados, expoentes do mercado e opositores já apontavam desde a véspera: o amadorismo de sua assessoria, sua fragilidade quando confrontado com questões espinhosas e a falta de entusiasmo que existe na própria direita com sua candidatura, enfiada goela abaixo dos apoiadores por Jair Bolsonaro.

Essa estrutura precária, que vem se sustentando única e exclusivamente porque ele conseguiu rapidamente ascender nas pesquisas e empatar com Lula no segundo turno, ameaça ruir se ele não conseguir um álibi melhor para conversa tão constrangedora com o banqueiro responsável por uma fraude bilionária no sistema financeiro e, fato que ele não consegue refutar, por provocar, sim, rombos em entes públicos, como a Previdência do Rio, administrada por aliados da família Bolsonaro.

A quinta-feira foi marcada pela busca, por parte do mercado financeiro, de compreender a extensão do dano no casco da candidatura de Flávio. A chance de vitória de Lula passou a ser considerada bem maior que na véspera, e a sensação de que ainda pode haver novas revelações levava os tomadores de decisão a incluir a possibilidade de troca de candidato nas projeções.

A estrutura mambembe de comunicação do candidato, cujos cabeças são também personagens das ligações com o ecossistema de Vorcaro, foi outro fator a alarmar os aliados. Por fim, a rapidez com que diferentes expoentes da direita trataram de rifar o filho Zero Um de Jair surpreendeu aqueles que a princípio achavam que a nota pífia de Flávio estancaria a sangria. Os próximos dias serão cruciais para definir se a pré-candidatura dele para em pé ou se ficará evidente que era um bibelô de vidro de um pai preocupado apenas em manter o poder em seu círculo familiar — e se quebrou.

 

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