O Globo
Lula, assim como Bolsonaro fez, está fazendo
“o diabo” com o dinheiro público, e se arrisca a receber uma herança maldita,
verdadeira, dele mesmo
Todo governo “faz o diabo” para continuar no poder, como já admitiu a ex-presidente Dilma Rousseff, e essa é uma das várias razões para que a reeleição seja muito contestada, tanto aos governos regionais quanto à presidência da República. Lula, assim como Bolsonaro fez, está fazendo “o diabo” com o dinheiro público, e se arrisca a receber uma herança maldita, verdadeira, dele mesmo. Já a eleição para a Câmara e o Senado obedece a uma outra concepção. Quase ninguém lembra em que candidato votou na última eleição, e o que funciona mesmo são as máquinas eleitorais regionais que, na maioria das vezes, não coincidem com quem está no comando nacional.
Mesmo que o partido do presidente da República
eleja as maiores bancadas, dificilmente conseguirá uma maioria no Congresso que
lhe permita governar sem grandes problemas. A coalizão partidária surge como
uma maneira de unir partidos em torno do vencedor nacional, mas quando esse
presidente eleito tem mais prestígio popular que parlamentar, ou ele abre mão
de parte de seus poderes, ou vai ser chantageado politicamente a cada decisão
importante que quiser implementar. O presidente da República é visto pela
população como o grande chefe político do país, mas, ao votar, não consegue
fazer a ligação desse ato com a consequência dele advinda.
Recentemente, o Congresso conseguiu, depois
de anos de um trabalho persistente, avocar para si uma parte importante do
orçamento, e está livre do controle do Presidente da República. Por isso, ao
contrário do parlamentarismo, o presidente hoje já não tem os poderes de
antigamente, embora o voto continue sendo personalíssimo. O que está
acontecendo hoje no país é exemplar dessa situação anômala.
Os dois mais populares líderes políticos, o
presidente Lula e o ex-presidente Bolsonaro, e também os mais rejeitados,
disputam mais uma vez a presidência da República. Com Lula na cadeia e Fernando
Haddad como candidato do PT contra Jair Bolsonaro, este último venceu a eleição.
Em seguida, com Lula já devolvido à vida partidária por decisão do Supremo
Tribunal Federal, Bolsonaro foi derrotado. Agora, a situação se inverte e
Bolsonaro, preso, coloca seu filho para disputar a presidência com Lula. Não é
uma sequência animadora, mais parecemos uma republiqueta de banana revezando
seus populistas preferidos.
Na prática, porém, as instituições
democráticas vêm funcionando razoavelmente bem, embora, mais frequentemente do
que seria razoável, elas tratem mais dos interesses pessoais de seus membros do
que do interesse da Nação. Mas, tentemos ser otimistas, e pensemos na
possibilidade de uma saída para nossos graves problemas a partir da próxima
eleição. Se Lula aproveitar essa brecha que surgiu com o escândalo do Banco
Master caindo no colo do bolsonarismo, poderia encaminhar uma solução
pragmática para a condução econômica, e colocar em prática um verdadeiro
governo de união nacional.
Mas é difícil que o PT aceite uma ampliação
do espaço político de quem considera inimigo. Nem mesmo na dificuldade absurda,
como aconteceu no segundo governo de Dilma Rousseff, quando ela teve que
convocar Joaquim Levy para o ministério da Fazenda, o PT aceitou perder alguns
anéis e acabou perdendo os dedos, com o impeachment da presidente. Já a
situação do escolhido pelo clã Bolsonaro parece mais complicada com a revelação
do diálogo entre ele e Vorcaro, e a falta de explicações sobre onde foi parar o
dinheirão para supostamente financiar uma hagiografia de seu pai.
Para se recuperar, Flavio Bolsonaro fez uma
movimentação audaciosa, e conseguiu ser convidado por Trump para ir a
Washington. A visita de Lula a Donald Trump foi vista como um sucesso da
relação dos dois. Trump elogiou Lula depois do encontro e foi por água abaixo a
tese de que se ele ganhasse, os EUA ficariam contra o Brasil. A candidatura de
Flavio Bolsonaro foi atingida, mas não inviabilizada. Não há sinais de que
outros candidatos da direita tenham se beneficiado da fragilidade de Flavio.
Mas há muito mais fantasmas a aparecer para assombrar ambos os candidatos.

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