domingo, 24 de maio de 2026

Um presidente, dois Brasis, por Bernardo Mello Franco

O Globo

País que elegeu Lula em 2022 era bem diferente do que elegeu Lula em 2002, afirma cientista político Jairo Nicolau

O Brasil que elegeu Lula em 2022 era bem diferente do que elegeu Lula em 2002. A conclusão é do cientista político Jairo Nicolau, que analisa duas décadas de disputas presidenciais em “O país dividido”.

O livro cruza dados e esquadrinha pesquisas para examinar as mudanças no perfil e no comportamento do eleitor. “Para onde quer que olhemos, veremos profundas transformações”, resume o professor do CPDOC da Fundação Getulio Vargas.

Em 20 anos, o eleitorado ficou mais velho, mais escolarizado e mais feminino. Ao mesmo tempo, uma revolução tecnológica mudou a forma de receber notícias e acompanhar campanhas. O horário eleitoral na TV perdeu importância, e milhões de brasileiros passaram a se informar — ou a se desinformar — pelas redes sociais.

Outras coisas não mudaram tanto. Nas seis eleições analisadas, o PT sempre esteve no segundo turno: venceu com Lula (2002, 2006, 2022) e Dilma (2010, 2014) e perdeu uma única vez com Haddad (2018). Já o campo antipetista mudou de cara. Nas primeiras quatro disputas, o PSDB liderou a direita com Serra (2002 e 2010), Alckmin (2006) e Aécio (2014). Nas últimas duas, foi destronado por Bolsonaro.

O autor faz uma ressalva: os tucanos tinham pouco em comum com o capitão. “O PSDB sempre foi reconhecido por suas posições moderadas e democráticas, enquanto Bolsonaro se notabilizou pelo discurso antidemocrático.”

Nicolau liga a ascensão do bolsonarismo à aposta em temas morais, como identidade de gênero e casamento homoafetivo. Isso induziu um deslocamento do grupo religioso que mais cresce no país. “Os evangélicos votaram majoritariamente no PT até 2010 e depois migraram para a direita, consolidando-se como um dos pilares de apoio a Bolsonaro em 2018 e 2022”, anota.

O professor afirma, no entanto, que o eleitorado é mais complexo do que sugere o rótulo genérico de “país conservador”. Um exemplo: a maioria rejeita a legalização das drogas e do aborto, mas aceita o casamento e a adoção por casais homoafetivos.

A demografia também ajuda a entender as urnas. Nas últimas duas eleições, cresceu a distância entre o voto feminino e o masculino. As mulheres apoiaram mais o PT, e os homens aderiram em peso a Bolsonaro. No corte por raça, os pretos votaram mais na esquerda, e os brancos, na direita. A escolha dos pardos tendeu a acompanhar o resultado geral da eleição.

O cientista político evita avançar o sinal na interpretação dos dados. Ao examinar a votação por escolaridade, assinala a migração para a direita dos eleitores com ensino médio, mas evita cravar uma razão para o fenômeno. “Só pesquisas qualitativas mais detalhadas poderão responder”, pontua.

O livro mostra que fazer boas perguntas pode ser mais produtivo que repetir as teses da moda. Na visão de Nicolau, faltam elementos para afirmar que o país estaria rachado em duas metades cristalizadas e irreconciliáveis. “A polarização brasileira pode ser mais episódica, personalizada e potencialmente reversível”, alerta.

Para ele, não há garantia de que a dinâmica das últimas eleições se repetirá de 2030 em diante. “Em outras palavras: quanto dessa divisão deriva da força das figuras de Lula e Bolsonaro — e quanto sobreviverá na ausência delas?”, questiona.

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