terça-feira, 19 de maio de 2026

Farra populista é arma de governantes impopulares, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Uso abusivo da máquina pública é das práticas mais corriqueiras e menos punidas da política brasileira

A culpa não é da reeleição, que quando foi instituída já ia longe a tradição do uso patrimonialista do Estado

A ofensiva populista do governo em prol da campanha do presidente Luiz Inácio da Silva (PT) prova que não se deve subestimar a força do aparelho de Estado. Descortina também o alto grau de preocupação com o risco de Lula não se reeleger.

O governo não se afogou nas águas da recusa de uma indicação presidencial ao Supremo Tribunal Federal (STF). Com todas as dificuldades, está bem vivo e sem nenhum constrangimento em fazer uso da máquina pública para atender as necessidades eleitorais do chefe.

Antes que se volte a atribuir essa prática ao instituto da reeleição, vale lembrar que Lula fez o diabo para eleger Dilma Rousseff (PT) e, anos antes, quando não havia a possibilidade de renovação de mandatos no Executivo, o emedebista Orestes Quércia quebrou o Banespa para levar o correligionário Luiz Antônio Fleury ao Palácio dos Bandeirantes.

A reeleição foi instituída em 1997, quando já ia longe a aplicação dos métodos abusivos de poder na política brasileira.

O defeito, portanto, não está na regra, mas nas pessoas que infringem a lei ao passar por cima dos freios impostos ao cometimento de abusos. Sem contar a tolerância em alguns casos e, em outros, a lentidão das punições.

Jair Bolsonaro recorreu ao método e não deu certo. O desgoverno golpista e negacionista pesou mais na decisão do eleitorado. Com Lula, é de se ver o que falará mais alto: as benesses de última hora ou a avaliação do desempenho do governo nos três anos anteriores em que o sentido de urgência esteve voltado a outras áreas.

Na economia, concentraram-se as atenções na arrecadação. Na política, o presidente se ateve à busca de destaque no plano internacional e ao embate ideológico com a direita emergente. Não usou suas habilidades políticas para, por exemplo, fazer andar projeto consistente na segurança pública.

Enfrentou oposição feroz? Assim como outros governos enfrentaram e contornaram a oposição do PT a reformas essenciais e ao plano que pôs fim à inflação. Cada um dá o seu jeito.

 

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