segunda-feira, 11 de maio de 2026

Favela tem uma geografia própria, complexa e inteligente, por Preto Zezé

O Globo

Mílton Santos mostrou que o espaço não é cenário neutro, mas participa da desigualdade, da disputa, da convivência

No ano em que Mílton Santos completaria um século de vida, a melhor homenagem ao geógrafo baiano talvez não seja apenas repetir seus conceitos nas universidades. É devolver suas ideias ao chão que ele nos ensinou a observar: o território vivido. Ele mostrou que o espaço não é cenário neutro, mas participa da desigualdade, da disputa, da convivência e da invenção.

Quando olho para as favelas brasileiras, vejo mais que moradia popular, ausência do Estado ou estatística. Vejo uma geografia própria, complexa, inteligente e pouco compreendida pelo Brasil oficial.

A favela costuma ser explicada pelo que falta: saneamento, segurança, escola, crédito, transporte. Tudo isso é verdade e precisa ser enfrentado. Mas essa leitura é incompleta. Se a favela fosse apenas falta, já teria deixado de existir. O que mantém esses territórios vivos raramente aparece nos diagnósticos: rede de cuidado, comércio, cultura, força das mulheres, juventude criativa e capacidade de produzir soluções em cenário de escassez.

Mílton falava do território usado. Não o do mapa frio ou da planilha, mas o vivido por gente de verdade. Nesse sentido, a favela é uma das maiores aulas de geografia do país. A viela, a laje, o bar, a escola, o campo, a birosca, o ponto de mototáxi, o baile e o pequeno negócio formam uma engenharia cotidiana de sobrevivência, renda, afeto e criação.

O país ainda insiste em olhar para a favela como margem, quando ela é centro de muitas respostas. Quem quiser entender cidade, juventude, economia popular, cultura, violência, racismo, mobilidade, comunicação e futuro precisa encarar a favela não como objeto de piedade, mas como território de conhecimento.

Mílton também falava da cidadania mutilada. A expressão explica a vida de milhões. A cidadania chega cortada para quem mora na favela. O morador é reconhecido como consumidor, trabalhador, eleitor e pagador de contas, mas nem sempre como sujeito pleno de direitos. Pode comprar, mas enfrenta crédito injusto. Pode trabalhar, mas perde horas no transporte. Pode produzir cultura, mas muitas vezes vê sua estética enriquecer outros bolsos.

A mutilação não é acidente. É resultado de uma história que distribuiu a cidade de forma desigual. O país construiu centralidades com infraestrutura e proteção, enquanto empurrou parte da população para territórios aonde o direito chega tarde, pouco ou pela metade. Depois, ainda chamou esses lugares de problema.

Mas favela não é ausência de cidade. É cidade feita com menos investimento e mais inteligência coletiva. É o lugar onde o Brasil revela sua dívida, mas também sua potência.

Em “Por uma outra globalização”, o geógrafo falava da globalização como fábula, perversidade e possibilidade. A favela conhece bem as três. A fábula promete inclusão, mas deixa milhões sem internet digna, crédito, formação e infraestrutura. A perversidade transforma a favela em mercado consumidor e fonte estética sem devolver valor na mesma proporção. A possibilidade aparece quando esses territórios criam redes, negócios, lideranças e tecnologias de vida.

A geografia da favela não cabe na lente estreita do preconceito. Exige método, escuta e respeito. Exige reconhecer que ali existe pensamento, não só sofrimento; estratégia, não só improviso; economia, não só informalidade.

Se Mílton Santos nos ensinou a ler o território, a favela nos ensina a reescrever o Brasil a partir dele.

 

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