O Globo
Mílton Santos mostrou que o espaço não é
cenário neutro, mas participa da desigualdade, da disputa, da convivência
No ano em que Mílton Santos completaria um
século de vida, a melhor homenagem ao geógrafo baiano talvez não seja apenas
repetir seus conceitos nas universidades. É devolver suas ideias ao chão que
ele nos ensinou a observar: o território vivido. Ele mostrou que o espaço não é
cenário neutro, mas participa da desigualdade, da disputa, da convivência e da
invenção.
Quando olho para as favelas brasileiras, vejo mais que moradia popular, ausência do Estado ou estatística. Vejo uma geografia própria, complexa, inteligente e pouco compreendida pelo Brasil oficial.
A favela costuma ser explicada pelo que
falta: saneamento, segurança, escola, crédito, transporte. Tudo isso é verdade
e precisa ser enfrentado. Mas essa leitura é incompleta. Se a favela fosse
apenas falta, já teria deixado de existir. O que mantém esses territórios vivos
raramente aparece nos diagnósticos: rede de cuidado, comércio, cultura, força
das mulheres, juventude criativa e capacidade de produzir soluções em cenário
de escassez.
Mílton falava do território usado. Não o do
mapa frio ou da planilha, mas o vivido por gente de verdade. Nesse sentido, a
favela é uma das maiores aulas de geografia do país. A viela, a laje, o bar, a
escola, o campo, a birosca, o ponto de mototáxi, o baile e o pequeno negócio
formam uma engenharia cotidiana de sobrevivência, renda, afeto e criação.
O país ainda insiste em olhar para a favela
como margem, quando ela é centro de muitas respostas. Quem quiser entender
cidade, juventude, economia popular, cultura, violência, racismo, mobilidade,
comunicação e futuro precisa encarar a favela não como objeto de piedade, mas
como território de conhecimento.
Mílton também falava da cidadania mutilada. A
expressão explica a vida de milhões. A cidadania chega cortada para quem mora
na favela. O morador é reconhecido como consumidor, trabalhador, eleitor e
pagador de contas, mas nem sempre como sujeito pleno de direitos. Pode comprar,
mas enfrenta crédito injusto. Pode trabalhar, mas perde horas no transporte.
Pode produzir cultura, mas muitas vezes vê sua estética enriquecer outros bolsos.
A mutilação não é acidente. É resultado de
uma história que distribuiu a cidade de forma desigual. O país construiu
centralidades com infraestrutura e proteção, enquanto empurrou parte da
população para territórios aonde o direito chega tarde, pouco ou pela metade.
Depois, ainda chamou esses lugares de problema.
Mas favela não é ausência de cidade. É cidade
feita com menos investimento e mais inteligência coletiva. É o lugar onde o
Brasil revela sua dívida, mas também sua potência.
Em “Por uma outra globalização”, o geógrafo
falava da globalização como fábula, perversidade e possibilidade. A favela
conhece bem as três. A fábula promete inclusão, mas deixa milhões sem internet
digna, crédito, formação e infraestrutura. A perversidade transforma a favela em
mercado consumidor e fonte estética sem devolver valor na mesma proporção. A
possibilidade aparece quando esses territórios criam redes, negócios,
lideranças e tecnologias de vida.
A geografia da favela não cabe na lente
estreita do preconceito. Exige método, escuta e respeito. Exige reconhecer que
ali existe pensamento, não só sofrimento; estratégia, não só improviso;
economia, não só informalidade.
Se Mílton Santos nos ensinou a ler o
território, a favela nos ensina a reescrever o Brasil a partir dele.

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