Valor Econômico
Populismo de direita se embaralha para
atender às suas bases sem perder o voto da maioria
A votação do fim da jornada 6x1 na Câmara dos
Deputados deu um nó no PL tão ou mais enroscado que o senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ) no Master: como manter a viabilidade eleitoral da direita na mão
contrária do desejo de sete em cada 10 eleitores. Como cada um puxou de um
lado, o nó ficou ainda mais difícil de ser desatado.
A campanha do senador à Presidência tem como coordenador o senador Rogério Marinho (PL-RN), que foi o relator da reforma trabalhista. Aprovada em 2017, a reforma foi a mais abrangente alteração das leis trabalhistas desde a criação da CLT há mais de 80 anos. A redução da jornada para 40 horas semanais com pelo menos dois dias de folga, sem redução de salário, foi no sentido contrário.
Marinho, como era de se esperar, se declarou
contrário ao fim da jornada 6x1 e defendeu a remuneração por horas de trabalho,
deixando em aberto o limite da jornada. Uma proposta que aproximaria a
legislação brasileira da americana. Antes de embarcar para os EUA, Flávio
Bolsonaro avalizou a proposta.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que
monta seu caixa a partir do tamanho das bancadas que elege, se apavorou. Depois
de articular pelo adiamento, Costa Neto se deu conta de que não seria capaz de
barrar a proposta e usou da mesma franqueza com a qual entregou as intenções de
seu candidato na visita a um Daniel Vorcaro de tornozeleira eletrônica: “Se não
aprovarmos o fim da 6x1, Lula ganha a eleição”.
Nikolas Ferreira (PL-MG), o deputado
bolsonarista que melhor se comunica, também demonstrou que já teve melhores
dias nas redes sociais. Gravou um vídeo para dizer que não adiantava o
trabalhador voltar pra casa mais cedo se seria assaltado no ponto de ônibus.
O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante
(PL-RJ), pudera, ficou zonzo. Derrotado na tentativa de alongar a transição
para dez anos, que recebeu a adesão de 62 deputados do partido, usou a cartada
da esperteza. Apresentou, num destaque, uma jornada 4x3 com o objetivo de
constranger governistas e deixar seu partido bonito na fita.
Na votação da Comissão Especial, foi além.
Quis acabar com os 60 dias de transição previstos no substitutivo do relator
para lhe dar validade imediata. Outra tentativa de constrangimento que tampouco
emplacou. No final, rendeu-se e encaminhou sua bancada para votar
favoravelmente ao projeto. No plenário, o PL voltou atrás e encaminhou contra.
Na comissão, três deputados do seu partido
divergiram da orientação da liderança: Osmar Terra (RS), Maurício Marcon (RS) e
Julia Zanatta (SC). O quarto deputado a votar contra foi Gilson Marques
(Novo-SC) que, durante a discussão, disse que tentar acabar com as jornadas
sabidamente exaustivas de seis dias para carvoeiros, por exemplo, pioraria
ainda mais a vida de quem trabalha.
A bem-sucedida trajetória do fim da jornada
6x1 na Câmara, porém, não foi resultado apenas de um PL baratinado, mas do
sucesso da estratégia de alargar para o centro uma proposta que brotou da
esquerda. Foram dois parlamentares do Psol, o vereador carioca Rick Azevedo e a
deputada federal Érika Hilton (SP), que lhe deram tração com uma proposta que
radicalizava a redução para 36 horas.
O governo temia a reação do empresariado, mas
foi dobrado pelas pesquisas de opinião que mostravam a popularidade do tema
entre mães ansiosas por mais tempo com os filhos, jovens, por mais estudo, e
trabalhadores em geral, por fazer bicos em aplicativos. Se não aproveitasse um
momento de emprego em alta seria mais difícil emplacar o projeto em meio aos
reclamos sobre a elevação dos custos das empresas que terão que encarar um
aumento médio de 15% sobre a hora trabalhada.
Resgatou-se o projeto do deputado Reginaldo
Lopes (PT-MG) sendo a relatoria entregue a Leo Prates (Republicanos-BA), que
foi secretário de ACM Neto em Salvador. Registre-se o desprendimento dado que
seu grupo político enfrentará o PT no Estado em que o partido governa há mais
tempo.
Este alargamento fez com que parlamentares de
centro incorporassem como seus os argumentos levados pelos governistas ao
debate: o Brasil é líder em afastamento do trabalho por exaustão, países de
maior produtividade são também aqueles de menor jornada e é nela que se pode
buscar melhor formação. A aprovação folgada na comissão e no plenário decorre
dessa convergência.
O avanço da proposta na Câmara mostra a
encruzilhada do bolsonarismo. Foi a eleição do ex-presidente que tirou a
direita do armário. De envergonhado, o rótulo passou a ser exibido na testa.
Deu certo. Na eleição seguinte, o PL elegeu a maior bancada da Câmara e quase
reelegeu o presidente que, àquela altura, tinha adicionado adereços como o
aumento de 167% no valor do Bolsa Família.
A posse, em 2023, de um presidente com mais
entregas para a baixa renda emparedou um bolsonarismo que se tornou popular
entre os mais pobres com o conservadorismo nos costumes, o discurso
anticorrupção e um punhado de bondades sem perder de vista sua base nos
empreendedores de todos os tamanhos. O congelamento do salário mínimo no
governo Jair Bolsonaro é um sinal disso. Para tentar manter os pés nas duas
canoas, só restará ao PL tentar barrar a redução de jornada no Senado e mudar o
assunto. E, se voltar ao Planalto, colocar uma pedra por tempo indeterminado em
cima da proposta.

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