quarta-feira, 20 de maio de 2026

Flávio admite que foi à casa de Vorcaro após prisão; pesquisa aponta desgaste

Pedro Augusto Figueiredo, Gabriel de Sousa, Guilherme Caetano e Naomi Matsui / O Estado de S. Paulo

Senador disse que procurou dono do Master para pôr ‘ponto final’ em negociação; segundo a Atlas, intenções de voto caíram

Pré-candidato do PL à Presidência, o senador Flávio Bolsonaro (RJ) admitiu ter ido à casa de Daniel Vorcaro no final de 2025, após a primeira prisão do dono do Banco Master. Depois que a informação foi divulgada, Flávio fez pronunciamento à imprensa. Ele alegou que foi à casa do banqueiro, em SP, para “pôr ponto final nessa história”, em referência à negociação para o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. O senador não respondeu a perguntas dos jornalistas. As revelações contradizem declarações anteriores de Flávio de que não conhecia e de que sua família não tinha “contato pessoal” com Vorcaro. O novo fato surgiu no dia em que pesquisa Atlas/Bloomberg mostrou que a vinculação do senador com o caso Master após a divulgação de mensagens de texto e áudio com pedido de dinheiro a Vorcaro teve reflexo em suas intenções de voto. Num eventual segundo turno, a perda seria de 6 pontos porcentuais.

O senador Flávio Bolsonaro (RJ), pré-candidato do PL à Presidência, admitiu ontem que visitou Daniel Vorcaro em sua residência no fim de 2025, após a primeira prisão do dono do Banco Master. A revelação do fato – que indica mais um elemento de proximidade do senador com o banqueiro – ocorreu no mesmo dia em que pesquisa Atlas/Bloomberg mostrou que a vinculação com o caso Master já tem reflexo no índice de intenções de voto no presidenciável do PL.

Conforme o levantamento, as intenções de voto no senador caíram mais de cinco pontos porcentuais no primeiro turno e seis pontos em um eventual segundo turno após a divulgação das mensagens e do áudio em que ele pede dinheiro a Vorcaro.

Após o site Metrópoles publicar a informação, Flávio fez um pronunciamento à imprensa. Ele alegou que foi à casa do banqueiro, em São Paulo, para “pôr ponto final nessa história”, em referência à negociação para o financiamento do filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O senador não respondeu a perguntas dos jornalistas.

As revelações contradizem declarações anteriores do précandidato do PL de que não conhecia Vorcaro e de que sua família não tinha “contato pessoal” com o banqueiro. Nas mensagens, o senador chama o dono do Master de “mermão” e “irmão”. Posteriormente, ele alegou que omitiu seu contato com Vorcaro por causa de uma cláusula de confidencialidade no contrato a respeito do financiamento do filme.

“Quando Vorcaro foi preso, tivemos uma virada de chave e entendemos que a situação era grave”, afirmou ontem o précandidato do PL. O dono do Master foi preso preventivamente pela primeira vez em 17 de novembro de 2025, na capital paulista, quando tentava embarcar em um jatinho para Dubai, nos Emirados Árabes. A Polícia Federal entendeu que se tratava de tentativa de fuga. Ele foi solto 12 dias depois e passou a usar tornozeleira eletrônica.

‘VIRADA DE CHAVE’. “No final de 2025, houve aquele áudio em que eu peço uma luz para saber uma palavra final sobre o que ia acontecer. Estava em um grande risco de o filme ser encerrado. Seria uma catástrofe. No dia seguinte, ele foi preso. Nesse momento é que nós vimos ali, deu uma virada de chave, nós entendemos melhor que a situação era muito mais grave”, declarou Flávio.

“Eu falei ali dentro para os deputados: eu estive com ele (Vorcaro) mais uma vez, após esse evento (primeira prisão do banqueiro), quando ele passou a usar monitoramento eletrônico e não podia sair da cidade de São Paulo. Eu fui, sim, ao encontro dele para colocar um ponto final nessa história. (Fui) Dizer que, se ele tivesse avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito tempo, e o filme não correria risco. Foi uma grande dificuldade arrumar outros investidores.”

Na semana passada, o site Intercept Brasil revelou mensagens por escrito e áudio de Flávio e do dono do Master. Nos diálogos, o senador pede dinheiro a Vorcaro para ajudar a bancar o longa Dark Horse, sobre a vida do pai. Segundo o site, teria havido negociação para que Vorcaro ajudasse com uma contribuição de US$ 24 milhões e já teriam sido feitos pagamentos até 2025 de US$ 10 milhões. O Estadão confirmou que esses valores estão nos documentos contidos na investigação.

A extração integral desse conteúdo foi compartilhada com a defesa de Vorcaro em fevereiro, por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF). Até o momento, a PF não realizou diligência ou abriu investigação para apurar esses fatos específicos envolvendo Flávio. O senador disse que buscava financiamento privado para a produção e defendeu uma CPI do Banco Master.

Vorcaro foi preso novamente em 4 de março deste ano. O ministro do Supremo André Mendonça, relator do caso, atendeu a pedido da PF que o apontava como líder de uma organização criminosa voltada a vigiar e intimidar pessoas que contrariavam os interesses do Master. A defesa de Vorcaro nega todas as irregularidades, mas está negociando com o STF uma delação premiada.

VANTAGEM. Conforme a Atlas/Bloomberg, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a liderar a disputa contra Flávio no segundo turno e ampliou a vantagem no primeiro. Em abril, o cenário de segundo turno apontava empate técnico – o senador tinha 47,8%, ante 47,5% do petista. Agora, Lula tem 48,9%, ante 41,8% do filho de Bolsonaro. A maior parte dos votos de Flávio passou para os indecisos, brancos e nulos: o grupo saltou de 4,7% para 9,3%.

A pesquisa foi realizada entre os dias 13 e 18 – as entrevistas começaram no mesmo dia em que o Intercept divulgou as mensagens de Flávio. Com perguntas específicas em relação ao episódio, o levantamento mostra que 51,7% dos que tomaram conhecimento das mensagens consideram que há evidências de envolvimento do senador no escândalo do Master. Para 33,3%, as conversas mostram uma tentativa legítima de Flávio de conseguir investimentos para o filme Dark Horse. PRESIDENCIÁVEIS. Adversários de Flávio, Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) voltaram a criticar o senador sob o argumento de que as explicações não são convincentes. Já Ronaldo Caiado (PSD) disse que é necessário que ele preste contas à sociedade, mas evitou criticar o filho de Bolsonaro.

“É um fato muito grave”, afirmou Zema. Para Renan Santos, o senador não tem condições de ser pré-candidato “a absolutamente nada”. Caiado adotou outro tom: “Não cabe a pré-candidato ficar fazendo juízo de valor das pessoas”.

Pressionado, Flávio tenta manter a agenda de pré-campanha. Ontem, se reuniu com parlamentares do PL e defendeu mudança na lei trabalhista para prever a remuneração por hora trabalhada. Segundo ele, a proposta seria alternativa ao fim da escala de trabalho 6x1, encampada pelo governo Lula.

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