Pedro Augusto Figueiredo, Gabriel de Sousa, Guilherme Caetano e Naomi Matsui / O Estado de S. Paulo
Senador disse que procurou dono do Master
para pôr ‘ponto final’ em negociação; segundo a Atlas, intenções de voto caíram
Pré-candidato do PL à Presidência, o senador Flávio Bolsonaro (RJ) admitiu ter ido à casa de Daniel Vorcaro no final de 2025, após a primeira prisão do dono do Banco Master. Depois que a informação foi divulgada, Flávio fez pronunciamento à imprensa. Ele alegou que foi à casa do banqueiro, em SP, para “pôr ponto final nessa história”, em referência à negociação para o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. O senador não respondeu a perguntas dos jornalistas. As revelações contradizem declarações anteriores de Flávio de que não conhecia e de que sua família não tinha “contato pessoal” com Vorcaro. O novo fato surgiu no dia em que pesquisa Atlas/Bloomberg mostrou que a vinculação do senador com o caso Master após a divulgação de mensagens de texto e áudio com pedido de dinheiro a Vorcaro teve reflexo em suas intenções de voto. Num eventual segundo turno, a perda seria de 6 pontos porcentuais.
O senador Flávio Bolsonaro (RJ),
pré-candidato do PL à Presidência, admitiu ontem que visitou Daniel Vorcaro em
sua residência no fim de 2025, após a primeira prisão do dono do Banco Master.
A revelação do fato – que indica mais um elemento de proximidade do senador com
o banqueiro – ocorreu no mesmo dia em que pesquisa Atlas/Bloomberg mostrou que
a vinculação com o caso Master já tem reflexo no índice de intenções de voto no
presidenciável do PL.
Conforme o levantamento, as intenções de voto
no senador caíram mais de cinco pontos porcentuais no primeiro turno e seis
pontos em um eventual segundo turno após a divulgação das mensagens e do áudio
em que ele pede dinheiro a Vorcaro.
Após o site Metrópoles publicar a informação,
Flávio fez um pronunciamento à imprensa. Ele alegou que foi à casa do
banqueiro, em São Paulo, para “pôr ponto final nessa história”, em referência à
negociação para o financiamento do filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL). O senador não respondeu a perguntas dos jornalistas.
As revelações contradizem declarações
anteriores do précandidato do PL de que não conhecia Vorcaro e de que sua
família não tinha “contato pessoal” com o banqueiro. Nas mensagens, o senador
chama o dono do Master de “mermão” e “irmão”. Posteriormente, ele alegou que
omitiu seu contato com Vorcaro por causa de uma cláusula de confidencialidade
no contrato a respeito do financiamento do filme.
“Quando Vorcaro foi preso, tivemos uma virada
de chave e entendemos que a situação era grave”, afirmou ontem o précandidato
do PL. O dono do Master foi preso preventivamente pela primeira vez em 17 de
novembro de 2025, na capital paulista, quando tentava embarcar em um jatinho
para Dubai, nos Emirados Árabes. A Polícia Federal entendeu que se tratava de
tentativa de fuga. Ele foi solto 12 dias depois e passou a usar tornozeleira
eletrônica.
‘VIRADA DE CHAVE’. “No final de 2025, houve
aquele áudio em que eu peço uma luz para saber uma palavra final sobre o que ia
acontecer. Estava em um grande risco de o filme ser encerrado. Seria uma
catástrofe. No dia seguinte, ele foi preso. Nesse momento é que nós vimos ali,
deu uma virada de chave, nós entendemos melhor que a situação era muito mais
grave”, declarou Flávio.
“Eu falei ali dentro para os deputados: eu
estive com ele (Vorcaro) mais uma vez, após esse evento (primeira prisão do
banqueiro), quando ele passou a usar monitoramento eletrônico e não podia sair
da cidade de São Paulo. Eu fui, sim, ao encontro dele para colocar um ponto
final nessa história. (Fui) Dizer que, se ele tivesse avisado que a situação
era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito tempo,
e o filme não correria risco. Foi uma grande dificuldade arrumar outros
investidores.”
Na semana passada, o site Intercept Brasil revelou mensagens por escrito e áudio de Flávio e do dono do Master. Nos diálogos, o senador pede dinheiro a Vorcaro para ajudar a bancar o longa Dark Horse, sobre a vida do pai. Segundo o site, teria havido negociação para que Vorcaro ajudasse com uma contribuição de US$ 24 milhões e já teriam sido feitos pagamentos até 2025 de US$ 10 milhões. O Estadão confirmou que esses valores estão nos documentos contidos na investigação.
A extração integral desse conteúdo foi
compartilhada com a defesa de Vorcaro em fevereiro, por ordem do Supremo
Tribunal Federal (STF). Até o momento, a PF não realizou diligência ou abriu
investigação para apurar esses fatos específicos envolvendo Flávio. O senador
disse que buscava financiamento privado para a produção e defendeu uma CPI do
Banco Master.
Vorcaro foi preso novamente em 4 de março
deste ano. O ministro do Supremo André Mendonça, relator do caso, atendeu a
pedido da PF que o apontava como líder de uma organização criminosa voltada a
vigiar e intimidar pessoas que contrariavam os interesses do Master. A defesa
de Vorcaro nega todas as irregularidades, mas está negociando com o STF uma
delação premiada.
VANTAGEM. Conforme a Atlas/Bloomberg, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a liderar a disputa contra
Flávio no segundo turno e ampliou a vantagem no primeiro. Em abril, o cenário
de segundo turno apontava empate técnico – o senador tinha 47,8%, ante 47,5% do
petista. Agora, Lula tem 48,9%, ante 41,8% do filho de Bolsonaro. A maior parte
dos votos de Flávio passou para os indecisos, brancos e nulos: o grupo saltou
de 4,7% para 9,3%.
A pesquisa foi realizada entre os dias 13 e
18 – as entrevistas começaram no mesmo dia em que o Intercept divulgou as
mensagens de Flávio. Com perguntas específicas em relação ao episódio, o
levantamento mostra que 51,7% dos que tomaram conhecimento das mensagens
consideram que há evidências de envolvimento do senador no escândalo do Master.
Para 33,3%, as conversas mostram uma tentativa legítima de Flávio de conseguir
investimentos para o filme Dark Horse. PRESIDENCIÁVEIS. Adversários de Flávio,
Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) voltaram a criticar o senador sob o
argumento de que as explicações não são convincentes. Já Ronaldo Caiado (PSD)
disse que é necessário que ele preste contas à sociedade, mas evitou criticar o
filho de Bolsonaro.
“É um fato muito grave”, afirmou Zema. Para
Renan Santos, o senador não tem condições de ser pré-candidato “a absolutamente
nada”. Caiado adotou outro tom: “Não cabe a pré-candidato ficar fazendo juízo
de valor das pessoas”.
Pressionado, Flávio tenta manter a agenda de pré-campanha. Ontem, se reuniu com parlamentares do PL e defendeu mudança na lei trabalhista para prever a remuneração por hora trabalhada. Segundo ele, a proposta seria alternativa ao fim da escala de trabalho 6x1, encampada pelo governo Lula.

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