Valor Econômico
Dado o histórico, o anúncio da
pré-candidatura de Joaquim Barbosa à Presidência da República pelo partido
Democracia Cristã demanda cautela. Cautela do ex-ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF), do eleitor e, também, do próprio DC.
Há uma sensação de “déjà vu”. Não é a primeira vez que o nome dele emerge a esta altura de um ano eleitoral. Tampouco é a primeira vez que Aldo Rebelo pode ficar pelo caminho em razão da movimentação política do ex-magistrado. Mais do que isso, pode-se identificar hoje novamente algumas das condições que levaram Barbosa a se aventurar na política, no PSB, em 2018.
Existe de novo uma disputa pela posição
antissistema. Minas Gerais, Estado natal de Barbosa, é considerado um colégio
eleitoral crucial por todos os estrategistas e tornou-se um problema para o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e para o senador Flávio Bolsonaro
(PL). E a corrupção está mais uma vez entre os temas que geram maior
preocupação no brasileiro - pelo menos por enquanto, o eleitor demonstra
ceticismo em relação à capacidade dos candidatos mais bem posicionados nas
pesquisas, Lula e Flávio, de defenderem essa bandeira.
Isso tudo estava no mapa do PSB em 2018,
quando as tratativas com Joaquim Barbosa se prolongaram tanto que ele só acabou
entrando no partido a poucas horas do fim do prazo estipulado pela legislação.
O então presidente da sigla, Carlos Siqueira,
estava em São Paulo para prestigiar a posse de Márcio França como governador do
Estado. Concluída a solenidade, foi chamado às pressas para ir ao encontro de
Barbosa em um hotel. Lá foi assinada a ficha de filiação do ex-ministro. Sem
foto. Sem jornalistas.
Em uma rede social, Barbosa publicou um texto
no qual informava a adesão ao PSB, mas não se colocava oficialmente na corrida
presidencial. O PSB, por sua vez, não garantia a ele a legenda para disputar o
Palácio do Planalto. Tudo seria formalizado à frente, mas a aposta já começaria
a render frutos pouco dias depois.
Mesmo sem dar sequer uma entrevista, o ex-ministro
do STF apareceu com dois dígitos nas primeiras pesquisas de intenção de voto
divulgadas após o anúncio. Esse desempenho abriu caminho entre os integrantes
do PSB que ainda resistiam à ideia: o próximo passo foi tentar enturmá-lo,
apresentando-o para a cúpula da sigla em Brasília, governadores e lideranças no
Congresso.
Os presentes naquele dia lembram que Barbosa
chegou à sede do partido reclamando dos inúmeros repórteres e cinegrafistas que
o aguardavam em frente à portaria. Queria manter a discrição. “Mas quem
‘trouxe’ esse batalhão de jornalistas foi o senhor. Estou aqui diariamente e
esse batalhão não aparece”, ouviu de volta de um dos interlocutores, em uma
resposta que, na prática, demonstrava como sua pré-candidatura começava a
atrair a atenção da imprensa.
Chegou-se a encaminhar a contratação de uma
assessoria de imprensa para a campanha, mas pouco tempo depois o ex-ministro
telefonou avisando que não disputaria mais nada.
Em um primeiro momento, Barbosa alegou razões
pessoais. No entanto, em entrevista ao Valor, foi além. Pessimista, afirmou à jornalista
Maria Cristina Fernandes que não acreditava na possibilidade de aquela eleição
mudar o país. A constatação de que o sistema político bloqueia mudanças fora o
fator determinante para a sua decisão.
Em uma dessas ironias encontradas nos livros
de História, Aldo Rebelo havia entrado meses antes no PSB justamente para
tentar viabilizar uma candidatura presidencial. Saiu direto para o
Solidariedade, justificando seu movimento em razão da inclinação da direção
partidária pela candidatura do “ilustre ministro”. Hoje, surpreendido também
pelas discretíssimas articulações de Barbosa com o DC, ameaça acionar a
Justiça.
Já em 2022, para afastar especulações,
Barbosa deixou o PSB. Isso não o impediu de gravar vídeos de apoio que seriam
exibidos pela campanha de Lula e seu vice, Geraldo Alckmin (PSB), nos quais
alertava para o risco que Jair Bolsonaro (PL) representava para a democracia e
criticava a atuação do ex-presidente na área de educação. Dessa forma, mesmo
depois de ser o algoz de petistas e importantes lideranças do Centrão como
relator do julgamento do mensalão no STF, reposicionou-se em um cenário
polarizado.
Agora sinaliza, por meio dos novos aliados,
que está disposto a trabalhar pela recuperação da imagem da Corte que um dia
integrou e, atualmente, está no centro do debate eleitoral. Isso se daria por
meio da defesa de mandatos para ministros e a indicação de juristas renomados
para as cadeiras que estiverem vagas, por exemplo.
Entre aqueles que presenciaram sua breve
aventura na política em 2018, Barbosa deixou a imagem de alguém preparado, com
visão de país, carreira sólida, perfil liberal e compromisso com o Estado
Democrático de Direito. Mas sem traquejo e “timing” políticos.
Há dúvidas, por exemplo, se ele terá “recall”
e instrumentos para refrescar a memória da população. Muitos eleitores não
estavam vivos ou não se recordam dos tempos em que Barbosa vestia toga,
inclusive protagonizando embates com outros ministros do STF.
O Democracia Cristã não é conhecido pela
estrutura que é capaz de oferecer aos seus candidatos. Talvez até esteja mais
interessado em aproveitar-se de seu novo filiado para tentar eleger uma bancada
de deputados federais, ganhar musculatura nos Estados e acessar mais recursos
do fundo partidário. Barbosa pode ter outra decepção com a política.

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