quarta-feira, 20 de maio de 2026

Joaquim Barbosa pré-candidato ontem e hoje, por Fernando Exman

Valor Econômico

Dado o histórico, o anúncio da pré-candidatura de Joaquim Barbosa à Presidência da República pelo partido Democracia Cristã demanda cautela. Cautela do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), do eleitor e, também, do próprio DC.

Há uma sensação de “déjà vu”. Não é a primeira vez que o nome dele emerge a esta altura de um ano eleitoral. Tampouco é a primeira vez que Aldo Rebelo pode ficar pelo caminho em razão da movimentação política do ex-magistrado. Mais do que isso, pode-se identificar hoje novamente algumas das condições que levaram Barbosa a se aventurar na política, no PSB, em 2018.

Existe de novo uma disputa pela posição antissistema. Minas Gerais, Estado natal de Barbosa, é considerado um colégio eleitoral crucial por todos os estrategistas e tornou-se um problema para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e para o senador Flávio Bolsonaro (PL). E a corrupção está mais uma vez entre os temas que geram maior preocupação no brasileiro - pelo menos por enquanto, o eleitor demonstra ceticismo em relação à capacidade dos candidatos mais bem posicionados nas pesquisas, Lula e Flávio, de defenderem essa bandeira.

Isso tudo estava no mapa do PSB em 2018, quando as tratativas com Joaquim Barbosa se prolongaram tanto que ele só acabou entrando no partido a poucas horas do fim do prazo estipulado pela legislação.

O então presidente da sigla, Carlos Siqueira, estava em São Paulo para prestigiar a posse de Márcio França como governador do Estado. Concluída a solenidade, foi chamado às pressas para ir ao encontro de Barbosa em um hotel. Lá foi assinada a ficha de filiação do ex-ministro. Sem foto. Sem jornalistas.

Em uma rede social, Barbosa publicou um texto no qual informava a adesão ao PSB, mas não se colocava oficialmente na corrida presidencial. O PSB, por sua vez, não garantia a ele a legenda para disputar o Palácio do Planalto. Tudo seria formalizado à frente, mas a aposta já começaria a render frutos pouco dias depois.

Mesmo sem dar sequer uma entrevista, o ex-ministro do STF apareceu com dois dígitos nas primeiras pesquisas de intenção de voto divulgadas após o anúncio. Esse desempenho abriu caminho entre os integrantes do PSB que ainda resistiam à ideia: o próximo passo foi tentar enturmá-lo, apresentando-o para a cúpula da sigla em Brasília, governadores e lideranças no Congresso.

Os presentes naquele dia lembram que Barbosa chegou à sede do partido reclamando dos inúmeros repórteres e cinegrafistas que o aguardavam em frente à portaria. Queria manter a discrição. “Mas quem ‘trouxe’ esse batalhão de jornalistas foi o senhor. Estou aqui diariamente e esse batalhão não aparece”, ouviu de volta de um dos interlocutores, em uma resposta que, na prática, demonstrava como sua pré-candidatura começava a atrair a atenção da imprensa.

Chegou-se a encaminhar a contratação de uma assessoria de imprensa para a campanha, mas pouco tempo depois o ex-ministro telefonou avisando que não disputaria mais nada.

Em um primeiro momento, Barbosa alegou razões pessoais. No entanto, em entrevista ao Valor, foi além. Pessimista, afirmou à jornalista Maria Cristina Fernandes que não acreditava na possibilidade de aquela eleição mudar o país. A constatação de que o sistema político bloqueia mudanças fora o fator determinante para a sua decisão.

Em uma dessas ironias encontradas nos livros de História, Aldo Rebelo havia entrado meses antes no PSB justamente para tentar viabilizar uma candidatura presidencial. Saiu direto para o Solidariedade, justificando seu movimento em razão da inclinação da direção partidária pela candidatura do “ilustre ministro”. Hoje, surpreendido também pelas discretíssimas articulações de Barbosa com o DC, ameaça acionar a Justiça.

Já em 2022, para afastar especulações, Barbosa deixou o PSB. Isso não o impediu de gravar vídeos de apoio que seriam exibidos pela campanha de Lula e seu vice, Geraldo Alckmin (PSB), nos quais alertava para o risco que Jair Bolsonaro (PL) representava para a democracia e criticava a atuação do ex-presidente na área de educação. Dessa forma, mesmo depois de ser o algoz de petistas e importantes lideranças do Centrão como relator do julgamento do mensalão no STF, reposicionou-se em um cenário polarizado.

Agora sinaliza, por meio dos novos aliados, que está disposto a trabalhar pela recuperação da imagem da Corte que um dia integrou e, atualmente, está no centro do debate eleitoral. Isso se daria por meio da defesa de mandatos para ministros e a indicação de juristas renomados para as cadeiras que estiverem vagas, por exemplo.

Entre aqueles que presenciaram sua breve aventura na política em 2018, Barbosa deixou a imagem de alguém preparado, com visão de país, carreira sólida, perfil liberal e compromisso com o Estado Democrático de Direito. Mas sem traquejo e “timing” políticos.

Há dúvidas, por exemplo, se ele terá “recall” e instrumentos para refrescar a memória da população. Muitos eleitores não estavam vivos ou não se recordam dos tempos em que Barbosa vestia toga, inclusive protagonizando embates com outros ministros do STF.

O Democracia Cristã não é conhecido pela estrutura que é capaz de oferecer aos seus candidatos. Talvez até esteja mais interessado em aproveitar-se de seu novo filiado para tentar eleger uma bancada de deputados federais, ganhar musculatura nos Estados e acessar mais recursos do fundo partidário. Barbosa pode ter outra decepção com a política.

 

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