sábado, 23 de maio de 2026

Flávio, entre a polícia e a política, por Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Colapso da narrativa anticorrupção é a ameaça mais grave à candidatura

Com Vorcaro como fonte provável das revelações, corrida eleitoral se abre para o inesperado

Desde a divulgação de seus pactos com Vorcaro, Flávio Bolsonaro enfrenta um duplo dilema. Numa ponta, a investigação policial e judicial; na outra, o colapso de uma narrativa política. No crítico estado atual do STF, o segundo representa ameaça mais grave.

Provocada, a PGR autorizou a PF a seguir o dinheiro. Tudo ali é suspeito: os valores multimilionários associados ao filme; o papel dos dois irmãos na gerência da transação; o trajeto alegado da grana, via um fundo gerido pelo advogado de Eduardo Bolsonaro; o suposto sigilo contratual absoluto sobre a participação do Master no patrocínio da obra. Crimes possíveis: lavagem de recursos do Master e financiamento da aventura americana do 03.

Das rachadinhas a Hollywood, Flávio percorreu um longo caminho financeiro sem sair de seu lugar ético. Contudo, a verdade completa depende da quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático do 01 e do 03. A PGR solicitará? O STF dará esse passo?

Flávio não está sozinho nos negócios nebulosos com Vorcaro. A rede estende-se pela elite política, da direita à esquerda, e alcança ministros do STF. A PGR e o próprio tribunal ignoraram olimpicamente as transações suspeitas de Toffoli e Moraes com o Master e seu emaranhado de fundos intermediários. Como quebrar os sigilos de um candidato à presidência sem, ao menos, deflagrar uma investigação formal sobre os ilustres juízes de capa preta?

No registro político, o cenário é outro. Os R$ 61 milhões repassados por Vorcaro à irmandade dos Bolsonaro destinavam-se a comprar proteção, não a financiar um filme do gênero hagiográfico. "Estou e estarei contigo sempre" –a promessa de Flávio ao escroque configura um contrato mafioso. À sua sombra, desaba a campanha bolsonarista, apoiada na equação "o Pix é nosso; o Master é deles".

Uma entrevista à GloboNews escancarou as mentiras de Flávio sobre suas relações com Vorcaro. As perguntas devastadoras partiram da jornalista Malu Gaspar, aquela mesma que se tornara alvo da difamação da rede petista pelo "crime" de expor o contrato do Master com a esposa-sócia de Moraes. Os efeitos não tardaram.

Duas pesquisas oferecem pistas sobre a derrocada. O Datafolha anterior aos áudios indicava empate numérico no segundo turno. Já a sondagem Atlas/Intel, imediatamente posterior, indicou 48,9% para Lula contra 41,8% para Flávio. O eleitorado tem memória curta? Talvez, mas será lembrado de cada palavra do candidato mentiroso ao longo da campanha. Suspeito que, com a sedimentação da história, desapareça a hipótese de triunfo da candidatura do 01 num segundo turno.

A família golpista encontra-se na encruzilhada. Pode seguir a seta que aponta a via da derrota a fim de conservar seu monopólio sobre a direita. Nessa hipótese, preservaria o padrão de polaridade que interessa aos dois polos e congela a política nacional, prendendo o futuro na caverna do passado. Alternativamente, pode curvar-se à pressão dos aliados políticos e, imitando a noiva proverbial, lançar aos ares o cobiçado manto do anti-Lula.

A lógica sugere que a fonte original das revelações divulgadas pelo Intercept Brasil é o próprio Vorcaro. Da prisão, o financista piramidal ensaia sua vingança e emite um alerta para os "traidores". Avisa que tem mais balas na agulha. A corrida eleitoral abriu-se para o inesperado.

 

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