Folha de S. Paulo
Colapso da narrativa anticorrupção é a ameaça
mais grave à candidatura
Com Vorcaro como fonte provável das
revelações, corrida eleitoral se abre para o inesperado
Desde a divulgação de seus pactos com
Vorcaro, Flávio
Bolsonaro enfrenta um duplo dilema. Numa ponta, a investigação
policial e judicial; na outra, o colapso de uma narrativa política. No crítico
estado atual do STF, o segundo representa ameaça mais grave.
Provocada, a PGR autorizou a PF a seguir o dinheiro. Tudo ali é suspeito: os valores multimilionários associados ao filme; o papel dos dois irmãos na gerência da transação; o trajeto alegado da grana, via um fundo gerido pelo advogado de Eduardo Bolsonaro; o suposto sigilo contratual absoluto sobre a participação do Master no patrocínio da obra. Crimes possíveis: lavagem de recursos do Master e financiamento da aventura americana do 03.
Das rachadinhas a Hollywood, Flávio percorreu
um longo caminho financeiro sem sair de seu lugar ético. Contudo, a verdade
completa depende da quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático do 01 e do
03. A PGR solicitará? O STF dará esse passo?
Flávio não está sozinho nos negócios
nebulosos com Vorcaro. A rede estende-se pela elite política, da direita à
esquerda, e alcança ministros do STF. A PGR e o próprio tribunal ignoraram
olimpicamente as transações suspeitas de Toffoli e Moraes com o Master e seu
emaranhado de fundos intermediários. Como quebrar os sigilos de um candidato à
presidência sem, ao menos, deflagrar uma investigação formal sobre os ilustres
juízes de capa preta?
No registro político, o cenário é outro. Os
R$ 61 milhões repassados por Vorcaro à irmandade dos Bolsonaro destinavam-se a
comprar proteção, não a financiar um filme do gênero hagiográfico. "Estou
e estarei contigo sempre" –a promessa de Flávio ao escroque configura um
contrato mafioso. À sua sombra, desaba a campanha bolsonarista, apoiada na
equação "o Pix é nosso; o Master é deles".
Uma entrevista à GloboNews escancarou as
mentiras de Flávio sobre suas relações com Vorcaro. As perguntas devastadoras
partiram da jornalista Malu Gaspar, aquela mesma que se tornara alvo da
difamação da rede petista pelo "crime" de expor o contrato do Master
com a esposa-sócia de Moraes. Os efeitos não tardaram.
Duas pesquisas oferecem pistas sobre a
derrocada. O Datafolha anterior aos áudios indicava empate numérico no segundo
turno. Já a sondagem Atlas/Intel, imediatamente posterior, indicou 48,9% para
Lula contra 41,8% para Flávio. O eleitorado tem memória curta? Talvez, mas será
lembrado de cada palavra do candidato mentiroso ao longo da campanha. Suspeito
que, com a sedimentação da história, desapareça a hipótese de triunfo da
candidatura do 01 num segundo turno.
A família golpista encontra-se na
encruzilhada. Pode seguir a seta que aponta a via da derrota a fim de conservar
seu monopólio sobre a direita. Nessa hipótese, preservaria o padrão de
polaridade que interessa aos dois polos e congela a política nacional,
prendendo o futuro na caverna do passado. Alternativamente, pode curvar-se à
pressão dos aliados políticos e, imitando a noiva proverbial, lançar aos ares o
cobiçado manto do anti-Lula.
A lógica sugere que a fonte original das
revelações divulgadas pelo Intercept Brasil é o próprio Vorcaro. Da prisão, o
financista piramidal ensaia sua vingança e emite um alerta para os
"traidores". Avisa que tem mais balas na agulha. A corrida eleitoral
abriu-se para o inesperado.

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