O Estado de S. Paulo
Uma política erguida sobre sentimentos inibe a construção de projetos comuns e pode conduzir à dessensibilização diante do adversário político
Pesquisas eleitorais indicam a consolidação
da disputa entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) na eleição presidencial de outubro. Os números reafirmam a
tendência de uma disputa equilibrada, mas o panorama político brasileiro não se
resume a eles. Para além das conclusões das pesquisas sobre a divisão do
eleitorado, verifica-se também um padrão de insulamento e de desqualificação
recíproca entre os grupos de eleitores de Lula e do ex-presidente Jair
Bolsonaro, com efeitos negativos para a sociedade e a democracia brasileira.
A pesquisa Polarização afetiva, confiança e adesão à democracia no Brasil, realizada no ano passado pelo ConnectLab, Centro de Estudos da Escola de Economia de São Paulo (FGV EESP), entrevistou pessoas da esquerda à direita do espectro político, inclusive aquelas autodeclaradas petistas e bolsonaristas.
Uma das conclusões da pesquisa (conforme sua
apresentação pública no YouTube) foi que bolsonaristas e petistas estimam muito
imprecisamente o contingente de pessoas pertencentes ao seu próprio grupo. Bolsonaristas
acreditam que 46% da população é bolsonarista, enquanto a pesquisa aponta um
contingente de 13%; petistas creem representar 41% da população, enquanto
correspondem a 16% dela. Além disso, uns e outros confiam no próprio grupo em
proporção semelhante àquela em que confiam em suas famílias.
No segmento da pesquisa intitulado “Escolhas
do dia a dia”, apurou-se que quase 60% de petistas e bolsonaristas não
matriculariam seu filho numa (boa) escola com famílias de maioria pertencente
ao grupo político oposto. A maioria dos membros desses grupos também prefere
adquirir produtos num mercado mais distante de casa se o mais próximo for de
propriedade de uma pessoa integrante do grupo oposto.
Mais preocupantes ainda são as conclusões obtidas no segmento da pesquisa intitulado “Desumanização”. A partir de imagens representando a escala da evolução humana – da figura de um primata a de um Homo sapiens –, os grupos entrevistados foram solicitados a indicar, numa escala de 0 a 10, “o quão evoluídos você acha que sejam os membros dos seguintes grupos”. Os petistas se atribuíram a nota 8,26, dando aos bolsonaristas nota 2,41. Já estes se atribuíram nota 8,55; aos petistas, deram nota 2,43.
Os resultados dessa pesquisa são consistentes
com uma dinâmica já retratada em estudos feitos no Brasil (e neste espaço),
segundo a qual petistas e bolsonaristas interagem predominantemente entre si. O
efeito desse insulamento é a intensificação de suas próprias crenças e visões
políticas e identitárias. Ao mesmo tempo, esse processo radicaliza as
percepções negativas de cada grupo em relação ao adversário e às posições que
ele sustenta.
Tal dinâmica parece contribuir para uma
espécie de politização na qual vínculos afetivos prevalecem sobre padrões
impessoais de convivência e deliberação. Isso se observa, por exemplo, na
relação com o líder político. Esse, cada vez menos, precisa ser alguém politicamente
coerente ou moralmente virtuoso. Mas precisa, cada vez mais, identificar-se com
seu grupo de eleitores, compartilhando seus valores, preferências culturais,
percepções sobre a sociedade e medos.
Essa dimensão afetiva da política, como
indicam os dados do ConnectLab, também aparece na distinção entre grupos
políticos. A literatura especializada tem apontado que as interações e
confirmações obtidas no interior do próprio grupo tornam seus membros
progressivamente menos receptivos a evidências contrárias e mais resistentes à
correção, especialmente quando provenientes do grupo adversário.
Com isso, a busca por interesses comuns perde
espaço para a afirmação de identidades comuns, o que relega a segundo plano
questões de interesse geral. A política, então, vai se tornando um meio de
mudar apenas a própria vida ou a de seu grupo. Emerge, assim, um empenho
político que flerta com o apolitismo ao revelar indisposição à construção de
soluções para o conjunto da sociedade.
As causas desse fenômeno seguem sendo
investigadas e testadas pela academia. Uma delas talvez seja o desgaste de um
componente relevante do convívio democrático: a impessoalidade. Sabemos que a
democracia exige tratar o outro como igual. Mas o “igual” em uma comunidade
política, é sempre um “outro”, pois essa comunidade não se funda na intimidade
nem na mera identidade. Ela requer impessoalidade.
A impessoalidade é requisito do intercâmbio
social. A comunidade política é o espaço em que as pessoas exercem papéis
sociais, seguem regras gerais. Uma comunidade fundada em vínculos afetivos
tende a relativizar normas gerais e abstratas. Uma política erguida sobre
sentimentos inibe a construção de projetos comuns e pode conduzir à
dessensibilização diante do adversário político.
No preâmbulo da Constituição federal, o constituinte invoca a igualdade e a justiça como “valores supremos de uma sociedade fraterna”. O que a dinâmica afetiva e excludente que organiza grupos políticos relevantes no País projeta, contudo, é uma fraternidade fratricida.
*Doutor em Direito pela USP e pela Università Degli Studi di Torino, integrante do Instituto Norberto Bobbio, é professor da Fadi e Facamp

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