sábado, 30 de maio de 2026

O jogo de Flávio Bolsonaro, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Não desfazendo da obstinação do bolsonarismo eduardista por estabelecer relações na Casa Branca, a conta do acesso de Flávio Bolsonaro ao primeiro escalão da administração Trump – sobretudo a Marco Rubio e J.D. Vance – não fechará sem a variável lobby-de-algum-grupo-econômico-pesado.

Isto parece ser condição fundamental para se chegar ao presidente dos EUA: ter o apoio de bilionários de cujos investimentos o governo, donde o projeto de poder trumpista, dependa. Lula tem os seus empresários abridores de portas em Washington. Está explícito. Nem sempre será, talvez porque os de Flávio – o cronista especula – sejam financiadores do Partido Republicano e do movimento MAGA. Atenção a isso.

Atenção também às consequências de terem os dois principais postulantes à Presidência se lançado a uma competição por exibir, como ativo eleitoral, o que tiraria a melhor fotografia com Donald Trump; a quem assim convidaram às eleições brasileiras. A primeira interferência – por ora de natureza político-eleitoral – está feita.

A foto de Flávio representou ao mesmo tempo o marco de uma posição – em prol de o governo americano declarar terroristas PCC e CV – e uma aposta: a de que o faria antes das eleições. A declaração veio no dia seguinte à sua última reunião na Casa Branca, encontro vendido como tendo o tema por centro. O ato é contribuição direta à agenda-campanha bolsonarista, associado Lula a gestões formais contrárias à reclassificação, doravante pressionado a se posicionar a respeito.

Não será fácil. Porque já está ligado o moedor discursivo eleitoral, os argumentos técnicos tornados pretexto para “proteger bandido”. Não será fácil. Porque não é fácil aplicar à questão corrente a defesa clássica da soberania nacional. O caso das tarifas baixadas contra o País tinha poucas nuances. O presidente deitou e rolou então, os Bolsonaro como “entreguistas” etc. Agora é mais complexo. Flávio fala em “libertar você” – o brasileiro – “do governo paralelo”.

Há uma batalha pela captura da percepção do indivíduo-eleitor. Uma disputa entre soberania macro – a defesa dos interesses pátrios contra a interferência estrangeira – e soberania micro, aquela cuja inexistência é atestada no mundo real, na experiência das ruas, lá onde as gentes, sob coação permanente de um Estado marginal, não têm o direito de ir e vir, territórios cada vez maiores sob controle das facções.

Não é fácil se opor – no Brasil, num ano eleitoral, sendo a segurança assunto decisivo – ao que fez o governo Trump. Porque posta está a armadilha da contradição. Afinal, o discurso atual de Lula – contra o magnata morador de Miami cuja operação no mercado financeiro serviria à lavagem transnacional de recursos do crime organizado – é consistente com o objeto da nova diretriz americana.

Ante a evidência de que os governos locais, federal incluído, não conseguem resolver o problema da segurança pública, o cidadão será tentado pelo desejo de testar solução radical inédita. É isso que Flávio Bolsonaro quer instrumentalizar.

 

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